Afastado do INSS, Ex-Presidente Stefanutto Traça Paralelo com Caso Cancellier e Clama por Retorno

Em uma entrevista exclusiva à Folha de S.Paulo, o ex-presidente do INSS, Alessandro Stefanutto, expressou seu sofrimento com o afastamento do cargo, comparando sua situação à trágica história do ex-reitor da UFSC, Luiz Carlos Cancellier de Olivo, que se suicidou após ser alvo de uma investigação policial em 2017. Stefanutto, que se declarou amigo pessoal de Cancellier, enfatizou a dor de ser impedido de retornar ao trabalho, afirmando que sua vida sempre foi dedicada à previdência.

Stefanutto deixou a presidência do INSS a pedido do presidente Lula, dias após a deflagração de uma operação da Polícia Federal que investiga um suposto esquema de descontos não autorizados em benefícios previdenciários. Ele criticou veementemente o pedido de afastamento feito pela PF e assegurou que provará sua inocência, reunindo documentos e confiando em sua defesa.

O foco da investigação da PF recai sobre uma decisão de Stefanutto, em junho de 2024, de desbloquear descontos para entidades sob investigação, uma ação que, segundo a polícia, ocorreu sem o aval técnico da Dataprev e em desacordo com as normas internas do INSS. Um dos casos emblemáticos envolveu a Contag, que obteve autorização para descontar valores de cerca de 34 mil benefícios, mesmo diante de um parecer contrário da Procuradoria do INSS. Em sua defesa, Stefanutto classificou a questão como “administrativa”, negando qualquer crime ou favorecimento indevido.

O ex-presidente também abordou o papel do bloqueio de descontos, reconhecendo sua importância na proteção dos beneficiários contra entidades mal-intencionadas, mas alertando para a necessidade de cautela para não prejudicar instituições sérias. Ele rebateu as acusações de desobediência às normas internas, argumentando que, como presidente, tinha a prerrogativa de alterar as normas, mas optou por esclarecer a situação.

Stefanutto questionou o relatório da Controladoria-Geral da União (CGU), que indicou que a maioria dos aposentados em uma amostra não teria autorizado os descontos. Ele criticou a falta de transparência do estudo e contestou seus dados.

Sobre sua relação com o empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, apontado como figura central no suposto esquema, Stefanutto admitiu conhecê-lo, mas negou qualquer envolvimento irregular ou ter recebido pedidos do empresário.

O ex-presidente também expressou críticas aos bloqueios de descontos determinados pelo governo, considerando a medida extrema e prejudicial à relação entre aposentados e entidades, além de ferir o direito à ampla defesa. Ele reconheceu a crueldade de descontos indevidos em benefícios de idosos, mas ponderou sobre a invasão da relação entre aposentado e entidade sem consulta prévia.

Agora afastado, Stefanutto afirma ter tempo para preparar sua defesa e apresentar sua versão dos fatos, manifestando convicção em sua inocência e na elucidação do caso.