Estudo indica menor prevalência de variantes agressivas em câncer de cabeça e pescoço
Uma pesquisa latino-americana com mais de 1.400 casos de carcinoma espinocelular de cabeça e pescoço revelou que as variantes histopatológicas — subtipos mais raros e agressivos da doença — representam 4,6% dos diagnósticos. O índice é inferior às estimativas anteriores, que apontavam prevalência entre 5% e 15%. O estudo foi publicado na revista Annals of Diagnostic Pathology e contou com apoio da FAPESP.
O carcinoma espinocelular responde por cerca de 95% dos cânceres de cabeça e pescoço e é conhecido pelo prognóstico desfavorável, com baixa taxa de sobrevivência em cinco anos e alto risco de recorrência e metástase. As variantes histopatológicas, identificáveis apenas por análise microscópica, costumam apresentar comportamento clínico imprevisível e exigem abordagens terapêuticas específicas.
Segundo o coordenador do estudo, Jorge Esquiche León, professor da Universidade de São Paulo (USP), as estimativas mais altas difundidas na literatura médica se baseavam em estudos com amostras pequenas e sem representatividade populacional. “Esses números foram repetidos ao longo do tempo sem uma base robusta”, afirma.
A pesquisa também analisou a relação entre o câncer de cabeça e pescoço e a infecção pelo papilomavírus humano (HPV). Enquanto em países europeus e nos Estados Unidos o HPV está associado a até 70% dos casos de câncer de orofaringe, na América Latina essa proporção é significativamente menor — cerca de 25% no Brasil. A diferença é relevante porque tumores HPV-positivos tendem a responder melhor ao tratamento.
Os pesquisadores observaram que essa discrepância se concentra nos casos de orofaringe, região que inclui a base da língua, amígdalas e palato mole. Em outras áreas, como a laringe, a associação com o HPV é semelhante à registrada em países desenvolvidos, em torno de um terço dos casos.
O estudo foi conduzido em parceria com instituições do Brasil, México e El Salvador, com coleta de dados padronizada para garantir a consistência dos resultados. Para o primeiro autor, Heitor Albergoni da Silveira, o trabalho representa o maior levantamento já realizado na América Latina sobre o tema e contribui para um entendimento mais preciso da doença na região.