Estudo testa neuromodulação combinada e fisioterapia na reabilitação pós-AVC

Um estudo clínico multicêntrico vai avaliar um método inovador para tratar a negligência espacial unilateral (NEU), sequela comum do acidente vascular cerebral (AVC) que compromete a percepção de um dos lados do espaço. O projeto, chamado Titan Trial, combina técnicas de neuromodulação não invasiva com fisioterapia baseada em tarefas.

A pesquisa associa a estimulação elétrica transcraniana por corrente contínua (ETCC), de caráter estimulatório, aplicada no hemisfério cerebral lesionado, à estimulação magnética transcraniana do tipo theta burst (TB), de efeito inibitório, no hemisfério oposto. A proposta é reequilibrar a atividade entre os hemisférios cerebrais e potencializar os efeitos da reabilitação funcional.

A NEU não é um déficit motor ou visual, mas de percepção, fazendo com que o paciente ignore parte do corpo ou do ambiente, mesmo após recuperar força e movimento. Segundo o neurologista Rodrigo Bazan, da Faculdade de Medicina de Botucatu da Unesp, coordenador do estudo, a iniciativa dá continuidade a pesquisas anteriores que demonstraram benefícios da estimulação elétrica na redução da negligência espacial.

Com base nesses resultados, o Titan Trial amplia a abordagem ao combinar duas técnicas de neuromodulação com fisioterapia orientada a tarefas. “A ideia é estimular o hemisfério afetado pelo AVC e inibir o contralateral, que pode estar hiperativo e dificultar a recuperação”, explica Bazan.

O estudo prevê a participação de ao menos 51 pacientes com AVC isquêmico no hemisfério direito e diagnóstico confirmado de negligência espacial. Os participantes serão divididos em três grupos: neuromodulação combinada, estimulação elétrica isolada e placebo. Todos receberão fisioterapia. As intervenções ocorrerão em 15 sessões, com acompanhamento após três, seis e 12 meses.

A pesquisa envolve instituições de várias regiões do Brasil, como Unesp, USP, Unicamp e UFTM, além de centros especializados em outros estados. Há também colaboração internacional de pesquisadores do Canadá e da Austrália. Os principais desfechos analisados serão a redução da negligência espacial, além de ganhos em funcionalidade, autonomia e qualidade de vida.

Os pesquisadores esperam que os resultados reforcem a aplicação clínica da neuromodulação combinada como estratégia eficaz e viável no Sistema Único de Saúde (SUS).