Abril decisivo: possível saída em massa de ministros redesenha o governo Lula às vésperas da campanha de 2026

Desincompatibilizações para a disputa eleitoral podem atingir cerca de 20 pastas, pressionar a coordenação política do Planalto e transformar a Esplanada em campo de negociações estratégicas.

O Palácio do Planalto se prepara para atravessar um dos períodos mais sensíveis do atual mandato. A proximidade do calendário eleitoral de 2026 deve provocar uma reconfiguração profunda na Esplanada dos Ministérios, com a possível saída de cerca de 20 ministros interessados em disputar cargos eletivos. O movimento, pensado para ampliar a presença do governo nos estados e fortalecer alianças regionais, ocorre justamente no momento em que Lula busca preservar governabilidade, entregar resultados e manter coesa sua base no Congresso.

A legislação eleitoral impõe que ministros candidatos deixem seus cargos até abril, o que antecipa semanas de tensão política. A janela concentra negociações partidárias, disputas por sucessão nas pastas e incertezas sobre quem comandará áreas estratégicas durante o período mais intenso da pré-campanha. A avaliação nos bastidores é que a troca simultânea de tantos nomes eleva o risco de descontinuidade administrativa e fragiliza a coordenação política em um momento decisivo.

Entre as movimentações mais sensíveis está a possibilidade de saída da ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, para disputar uma vaga no Senado pelo Paraná. A eventual mudança atinge diretamente o coração da articulação do governo com o Congresso, já que a pasta concentra o diálogo cotidiano com partidos e lideranças. Embora a alternativa seja a condução interina pelo secretário-executivo, setores do PT defendem que o cargo exige um perfil com maior peso político, sobretudo em ano eleitoral.

Outro ponto de atenção é a Casa Civil. Rui Costa também pode deixar o cargo para disputar o Senado ou até voltar à corrida pelo governo da Bahia. A eventual saída do ministro teria efeito em cadeia, já que a Casa Civil funciona como eixo de organização das prioridades do Executivo e coordena o fluxo interno das decisões mais sensíveis do governo.

Na comunicação, o cenário indica mudança com calendário diferente. Sidônio Palmeira deve se afastar da Secretaria de Comunicação para assumir a coordenação da campanha de Lula, repetindo o papel exercido em 2022. A transição, prevista para ocorrer mais adiante, tende a coincidir com o momento de maior acirramento da disputa eleitoral, ampliando a pressão sobre a narrativa do governo e a gestão de crises.

No núcleo do Palácio, a exceção apontada é Guilherme Boulos, da Secretaria-Geral da Presidência, que deve permanecer no cargo até o fim do mandato. A manutenção é vista como um fator de estabilidade em uma área sensível ao diálogo com movimentos sociais, especialmente se outras pastas perderem seus titulares.

Fora do Palácio, a lista de possíveis desincompatibilizações é extensa. Ministros como Anielle Franco (Igualdade Racial), Sonia Guajajara (Povos Indígenas) e Carlos Fávaro (Agricultura) já são apontados como nomes certos na disputa eleitoral. Outros, como Jader Filho (Cidades), André de Paula (Pesca), Silvio Costa Filho (Portos e Aeroportos) e Waldez Góes (Desenvolvimento Regional), também devem deixar o governo para buscar mandatos. Em sentido oposto, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, anunciou que não disputará eleição, decisão atribuída a um pedido direto do presidente.

As movimentações revelam duas dinâmicas paralelas: a tentativa de ampliar a capilaridade eleitoral do governo e o uso de ministérios como vitrines políticas regionais. O resultado é um custo elevado para as substituições, que precisam equilibrar eficiência administrativa, acordos partidários e sinais claros para a base aliada.

São Paulo surge como epicentro desse rearranjo. A possibilidade de Simone Tebet migrar para o PSB para disputar o Senado, ou até o governo estadual, se conecta a um tabuleiro mais amplo que envolve o futuro político de Fernando Haddad e a estratégia do governo no maior colégio eleitoral do país. No mesmo estado, também circulam hipóteses de candidaturas de Marina Silva ao Senado, enquanto a permanência de Geraldo Alckmin como vice é tratada como prioridade pelo Planalto.

Outros ministros aparecem como potenciais candidatos a governos estaduais ou ao Congresso, entre eles Camilo Santana, Wellington Dias, Alexandre Silveira, Macaé Evaristo, André Fufuca e Márcio França. Em comum, a maioria afirma estar à disposição das decisões do presidente, o que reforça a centralidade de Lula na definição do xadrez eleitoral e ministerial.

Ao mesmo tempo, ministros de perfil técnico tendem a permanecer, garantindo algum grau de continuidade em áreas consideradas sensíveis, como Relações Exteriores, Justiça, Defesa, Gestão, Cultura e Turismo.

Com a concentração das saídas até abril, cada substituição se transforma em um gesto político de alto impacto. A Esplanada pode passar a operar, em parte, com comandos provisórios justamente quando o governo precisará de coordenação fina para aprovar pautas, sustentar alianças e enfrentar o ambiente eleitoral. Em um ano de disputa, a troca de ministros deixa de ser apenas uma decisão administrativa e passa a funcionar como sinal político — para dentro do governo, para o Congresso e para o eleitorado.