Pesquisa brasileira identifica mecanismo que torna o câncer de pâncreas mais agressivo
Estudo aponta proteína periostina como peça-chave na invasão dos nervos pelo tumor e indica novo alvo para terapias de precisão
Um estudo conduzido por pesquisadores brasileiros identificou um mecanismo central que ajuda a explicar a alta agressividade do câncer de pâncreas. A pesquisa revela que a proteína periostina, produzida por células pancreáticas estreladas, tem papel decisivo na remodelação do tecido ao redor do tumor, criando condições favoráveis para que as células cancerígenas avancem pelos nervos e se disseminem mais rapidamente pelo organismo.
Os resultados foram publicados na revista científica Molecular and Cellular Endocrinology e ajudam a esclarecer por que esse tipo de câncer apresenta alta taxa de mortalidade e grande resistência aos tratamentos disponíveis.
O câncer de pâncreas mais comum é o adenocarcinoma, responsável por cerca de 90% dos casos. Apesar de não estar entre os tumores mais frequentes, ele figura entre os mais letais: no mundo, são aproximadamente 510 mil novos diagnósticos por ano, número próximo ao total de mortes registradas. No Brasil, estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) apontam cerca de 11 mil novos casos anuais e 13 mil óbitos.
Segundo o oncologista Pedro Luiz Serrano Uson Junior, um dos autores do estudo, apenas cerca de 10% dos pacientes alcançam sobrevida de cinco anos após o diagnóstico. “É um câncer agressivo, silencioso e de difícil tratamento”, afirma.
Um dos principais fatores associados a esse mau prognóstico é a chamada invasão perineural, processo no qual as células tumorais infiltram e avançam ao longo dos nervos. Além de causar dor intensa, esse mecanismo facilita a disseminação do câncer para outras regiões do corpo, aumentando o risco de metástases.
A pesquisa foi realizada no Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias (CRID), um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPIDs) da FAPESP. Utilizando tecnologias avançadas capazes de analisar a atividade de milhares de genes em células individuais e mapear sua posição exata no tecido, os cientistas estudaram 24 amostras de câncer de pâncreas.
A análise mostrou que o estroma, tecido que sustenta o tumor, não é apenas um coadjuvante, mas atua ativamente na progressão da doença. Entre os principais achados está o papel das células pancreáticas estreladas, que produzem grandes quantidades de periostina — uma proteína capaz de alterar profundamente a matriz extracelular, estrutura responsável por manter a organização do tecido saudável.
Segundo o pesquisador Helder Nakaya, que liderou o estudo, essa remodelação cria “caminhos” que facilitam o avanço das células tumorais até os nervos, que passam a funcionar como verdadeiras vias de propagação da doença.
Além disso, o processo gera uma reação desmoplásica, caracterizada por fibrose intensa ao redor do tumor. Esse ambiente rígido e inflamado dificulta a penetração de quimioterápicos e imunoterapias, contribuindo para a resistência ao tratamento. “Esse microambiente favorece a sobrevivência e a expansão do tumor”, explica Uson.
De acordo com o oncologista, mais da metade dos casos de câncer de pâncreas já apresenta invasão perineural em fases iniciais, muitas vezes detectada apenas após a cirurgia, na análise da peça cirúrgica.
Alvo terapêutico em estudo
Diante desse cenário, os pesquisadores apontam a periostina como um possível alvo terapêutico promissor. A ideia é investigar estratégias capazes de bloquear sua ação ou eliminar as células estreladas responsáveis por sua produção, reduzindo a capacidade invasiva do tumor.
Ensaios clínicos em outros tipos de câncer já testam anticorpos contra a periostina, o que abre caminho para avaliar sua aplicação também no câncer de pâncreas. Segundo Uson, uma terapia desse tipo poderia beneficiar ainda outros tumores que compartilham o mesmo mecanismo de invasão, como os cânceres de intestino e mama.
Além de indicar novos caminhos para o tratamento, o estudo destaca o potencial do uso de grandes bancos de dados públicos e análises integradas para responder questões ainda não exploradas. O próximo passo, afirmam os pesquisadores, é transformar esse conhecimento em abordagens capazes de agir de forma preventiva, antes que a invasão perineural se estabeleça.
“A oncologia caminha para a medicina de precisão, em que o tratamento será definido pelas alterações moleculares do tumor, e não apenas por sua localização”, conclui Uson.