Esgotamento pós-folia: Por que o cérebro parece “travar” após o carnaval?

De pico de dopamina ao “jet lag social”, especialista do Sírio-Libanês explica que a dificuldade de voltar ao trabalho não é preguiça

O fim do Carnaval marca uma transição repentina entre dias de sono irregular, consumo elevado de álcool e intensa estimulação social para uma rotina que exige foco, produtividade e disciplina. Para muitos, o retorno ao trabalho vem acompanhado de cansaço excessivo, irritabilidade e insônia, sintomas frequentemente atribuídos à “preguiça”, mas que possuem bases fisiológicas e emocionais.

“O cérebro atravessa o carnaval em estado de hiperalerta, com aumento na liberação de dopamina e adrenalina, pouco repouso e baixa previsibilidade. Quando a rotina profissional recomeça, ele ainda opera nesse modo acelerado, enquanto as demandas passam a exigir silêncio, atenção sustentada e imobilidade”, explica Lucio Huebra Pimentel Filho, neurologista do Hospital Sírio-Libanês.

Diferentemente do desgaste típico de uma semana comum de trabalho, o esgotamento pós-folia é resultado do acúmulo de excessos físicos e sensoriais. “Há esforço corporal intenso, longos deslocamentos a pé, horas de dança, além de privação de sono, consumo elevado de álcool, hidratação inadequada e exposição contínua a ruídos e estímulos visuais”, complementa o médico. O problema, segundo o especialista, é que o organismo não encontra tempo nem condições ideais para se recuperar. “É durante o sono que ocorre a reposição de energia, e o álcool compromete diretamente a qualidade desse processo.”

Outro fator decisivo nesse período é o chamado jet lag social, caracterizado pela quebra de sincronização entre os horários de dormir e acordar nos dias de folga e aqueles exigidos pela rotina de trabalho. “A tendência a dormir e despertar mais tarde durante o feriado dificulta a adaptação quando, de forma repentina, é preciso antecipar o horário de descanso. O sono responde melhor à regularidade”, diz o neurologista.

Além da desorganização do relógio biológico, o carnaval representa um pico de estímulos ligados ao prazer. “Há intensa ativação de circuitos associados à dopamina e à serotonina. Com a interrupção abrupta desse cenário, ocorre uma queda relativa desses neurotransmissores, o que pode se traduzir em apatia, melancolia e redução da energia”, explica. Na maioria dos casos, o organismo se ajusta em poucos dias.

Queixas físicas como dores de cabeça recorrentes, tontura, alterações intestinais, palpitações, tensão muscular e náuseas são comuns nessa fase de retorno e tendem a ser passageiras. “Esses sintomas costumam diminuir com sono regular, repouso adequado, alimentação equilibrada, hidratação e abstinência alcoólica”, orienta o médico.

O sinal de atenção surge quando o abatimento e a exaustão se prolongam e passam a comprometer o desempenho profissional e a vida pessoal. “O burnout não decorre de uma readaptação difícil após um feriado, mas de uma exposição prolongada à sobrecarga e estresse crônico. O principal indicador é a persistência dos sintomas com impacto funcional relevante”, reforça Huebra.

Para reduzir os efeitos da chamada “ressaca pós-Carnaval”, a orientação é retomar a rotina de forma progressiva. Estabelecer horários previsíveis, buscar exposição à luz natural pela manhã, praticar atividade física aeróbica, fazer pausas ao longo do expediente e moderar o consumo de cafeína ajudam o cérebro a recuperar foco e clareza mental. “Cobrar desempenho máximo logo no primeiro dia é biologicamente inviável. O mais saudável é iniciar com tarefas mais simples e avançar gradualmente”, finaliza.