“Quanto mais nos atrevemos a conquistar dentro e fora de nós, mais aumenta nossa condição de ser humano”

Por: Délia Steinberg Guzmán

O carnaval que se aproxima carrega uma longa história sobre a qual muitos já conhecem ao menos alguns elementos.

No Brasil, essa festividade chega a partir de Portugal com o chamado Entrudo, uma brincadeira popular marcada por certa desordem: pessoas arremessavam água, laranjas e outros objetos umas nas outras nas ruas.

Ao longo do período colonial e imperial, essa prática foi se transformando, misturando-se às influências africanas e dando origem aos ritmos brasileiros, ao hábito de tocar instrumentos nas ruas (como no tradicional ‘Zé Pereira’), às marchinhas de carnaval com Chiquinha Gonzaga, ao samba e, mais tarde, às escolas de samba.

Do ponto de vista etimológico, costuma-se associar a palavra carnaval ao latim carnivale, interpretado como “adeus à carne”, em referência ao período da Quaresma, que se inicia logo depois e impõe restrições, inclusive alimentares. Ainda que essa etimologia seja discutida, ela abre espaço para uma reflexão mais profunda: a “carne” não diz respeito apenas ao alimento, mas aos prazeres carnais em geral que encontram, nesse período, um tempo de liberação e catarse antes da contenção quaresmal.

Entretanto, as origens simbólicas do carnaval parecem ser mais antigas. Em diversas civilizações, sempre houve festividades ligadas ao encerramento de um ciclo e ao início de outro, especialmente associadas à fertilidade da natureza e à chegada da primavera. Após o inverno – tempo de sombras, recolhimento e proximidade simbólica com a morte – celebrava-se a vida que retornava.

No Egito Antigo, por exemplo, havia cortejos sagrados ligados à natureza e ao renascimento. No templo de Hórus, realizava-se o chamado casamento sagrado com Hathor, a Grande Mãe, simbolizando a harmonia entre o homem digno e a natureza viva. Não havia ali desordem ou grotesco, mas consagração e reverência à vida.

Já na tradição greco-romana surgem elementos mais próximos do carnaval atual. As festas dionisíacas, celebradas na Grécia e depois em Roma, como as bacanais e saturnálias, envolviam embriaguez, inversão da ordem social, máscaras e ruptura das normas. O objetivo simbólico era permitir que o homem fosse “possuído pelo deus”, trazendo à tona algo que transcendesse a vida comum. Contudo, quando não há caminhos para que o elemento espiritual se manifeste, essa ruptura tende a liberar apenas a animalidade reprimida.

É nesse contexto que surge a ideia de catarse: uma liberação controlada das tensões psíquicas e instintivas, para evitar que elas transbordem de forma destrutiva ao longo do ciclo social. Na medicina, o termo “catártico” refere-se à purificação do corpo; no carnaval, essa purificação seria simbólica, ligada à psique humana.

Mas surge uma pergunta fundamental: é realmente necessário gerar impurezas para depois purificá-las? Ou seria possível uma moral que não apenas reprima, mas que transmute os instintos? Essa reflexão aparece com força nos festivais medievais, nos quais a máscara grotesca ridicularizava o cotidiano “normal”, denunciando sua hipocrisia. O carnaval, nesse sentido, expunha que a moral comum muitas vezes apenas esconde a bestialidade, sem transformá-la.

Assim como em uma videira bem cuidada, a poda dos ramos inferiores permite que a seiva produza frutos melhores, a moral verdadeira não reprime por medo, mas orienta a energia vital para algo mais elevado. Quando isso não acontece, cria-se apenas uma aparência de virtude, uma máscara, que o carnaval faz questão de satirizar.

Celebrar o carnaval não é, portanto, um problema em si. A alegria, a festa e a celebração da vida são profundamente humanas. O convite que essa tradição nos faz é mais sutil: refletir se nossas regras nos tornam realmente mais humanos ou apenas mais domesticados; se usamos máscaras por consciência ou por hipocrisia.

Talvez o verdadeiro sentido do carnaval esteja em nos ajudar a retirar essas máscaras, não só por alguns dias, mas também no tempo comum da vida.