Índia usa símbolos ancestrais para moldar debate global sobre inteligência artificial
Inspirada em conceitos do sânscrito, a India AI Impact Summit 2026 adota três sutras e sete chakras como base simbólica para discutir uma IA inclusiva, sustentável e orientada ao bem-estar coletivo.
A India AI Impact Summit 2026, realizada no Bharat Mandapam, em Nova Déli, abriu seus trabalhos com uma proposta incomum no cenário tecnológico global: organizar os debates sobre inteligência artificial a partir de referências filosóficas da tradição indiana. Três “sutras” e sete “chakras” estruturam a programação do maior encontro de IA já promovido no Sul Global, segundo informações divulgadas pela agência ANI.
Ao recorrer a termos do sânscrito, o governo indiano busca aproximar inovação tecnológica de valores culturais milenares. “Sutra”, que significa “fio”, simboliza o elemento que conecta ideias e orienta princípios. Já “chakra”, traduzido como “roda” ou “círculo”, remete a movimento contínuo, equilíbrio e energia. Na cúpula, os sutras funcionam como pilares conceituais, enquanto os chakras organizam os grandes temas em discussão.
Três sutras para orientar a inteligência artificial
Os organizadores definiram como sutras centrais os eixos Pessoas, Planeta e Progresso.
No pilar “Pessoas”, a inteligência artificial é apresentada como instrumento de inclusão. As discussões destacam aplicações em saúde, como telemedicina e apoio ao diagnóstico, além de soluções educacionais baseadas em aprendizado adaptativo e ferramentas para reforçar a segurança financeira, especialmente no combate a fraudes.
O sutra “Planeta” concentra-se na sustentabilidade. A IA aparece como aliada de práticas agrícolas mais eficientes, com previsão de safras, agricultura de precisão e uso de drones para monitoramento ambiental, buscando reduzir impactos e otimizar recursos naturais.
Já “Progresso” está ligado à modernização do Estado e dos serviços. Entre os exemplos citados estão a tradução automatizada de decisões judiciais, a melhoria da prestação de serviços públicos e o aumento da eficiência em áreas como mobilidade urbana, logística e serviços digitais personalizados, tanto em centros urbanos quanto em regiões rurais.
Sete chakras e a governança da IA
Os sete chakras funcionam como eixos temáticos que orientam os debates multilaterais. Eles abrangem capital humano, inclusão para empoderamento social, IA segura e confiável, resiliência, inovação e eficiência, ciência, democratização de recursos de IA e uso da tecnologia para crescimento econômico e bem social.
A metáfora da “roda” reforça a ideia de integração entre dimensões técnicas, sociais, econômicas e éticas da inteligência artificial. O objetivo declarado é transformar cooperação internacional em resultados concretos para a sociedade.
Bem-estar coletivo no centro do discurso
A abertura da cúpula contou com a participação do primeiro-ministro Narendra Modi, que destacou como lema do encontro a expressão “Sarvajana Hitaya, Sarvajana Sukhaya” — “bem-estar para todos, felicidade para todos”. O conceito sintetiza a visão defendida pela Índia de uma inteligência artificial centrada no ser humano. Modi deve reforçar essa diretriz em discurso formal previsto para 19 de fevereiro.
Riscos, regulação e futuro do trabalho
Além das oportunidades, a cúpula também discute os riscos associados à expansão da IA. O ministro da Eletrônica e Tecnologia da Informação, Ashwini Vaishnaw, alertou para a disseminação de desinformação, manipulação digital e deepfakes, defendendo regras que tornem obrigatória a rotulagem de conteúdos gerados por IA.
O conselheiro econômico-chefe da Índia, V. Anantha Nageswaran, afirmou que os efeitos da tecnologia sobre o emprego dependerão de escolhas políticas deliberadas, com foco em crescimento inclusivo. Já o empresário Sanjeev Bikhchandani, fundador da Info Edge, avaliou que a IA tende a elevar a produtividade, mas alertou que profissionais que não se adaptarem podem perder espaço.
Ambição global do Sul Global
Com mais de 20 chefes de Estado, 60 ministros e cerca de 500 líderes globais do setor, a cúpula ocorre entre 16 e 20 de fevereiro e reúne uma exposição com mais de 300 expositores de 30 países. Entre as iniciativas em destaque estão desafios como IA para Todos, IA por Elas e YUVAi, voltados a soluções escaláveis alinhadas a prioridades nacionais e globais.
Sob a missão IndiaAI, o país também apresenta modelos fundacionais desenvolvidos localmente, treinados com grandes volumes de dados nacionais e adaptados às 22 línguas oficiais. Com um mercado de IA em rápida expansão e uma ampla base de usuários conectados, a Índia utiliza a simbologia dos sutras e chakras para transmitir uma mensagem estratégica: a inteligência artificial deve avançar como uma roda de desenvolvimento coletivo, conectando inovação, inclusão e responsabilidade global.