Pesquisa aponta que rinovírus pode permanecer oculto em amígdalas e adenoides
Estudo da USP indica que vírus do resfriado se mantém ativo em tecidos linfoides mesmo sem sintomas, favorecendo transmissão silenciosa e novos surtos.
Uma investigação conduzida na Universidade de São Paulo identificou que o rinovírus — principal causador do resfriado comum e responsável pela maioria das infecções respiratórias no mundo — pode se instalar e persistir nas amígdalas e adenoides, mesmo quando a pessoa não apresenta qualquer sintoma.
O estudo analisou amostras de 293 crianças submetidas à cirurgia para retirada desses tecidos. Embora estivessem assintomáticas no momento do procedimento, quase metade apresentou a presença do vírus em pelo menos um dos locais examinados: amígdala, adenoide ou secreção nasal.
Persistência além do epitélio
Coordenada pelo rinovirologista Eurico de Arruda Neto, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP-USP), a pesquisa mostrou que o rinovírus não se limita à camada superficial da mucosa nasal e da garganta. Além de infectar o epitélio — onde normalmente se multiplica rapidamente e provoca lise celular — o patógeno também alcança camadas mais profundas dos tecidos linfoides.
Nessas regiões, o vírus consegue infectar linfócitos B (responsáveis pela produção de anticorpos) e linfócitos T CD4 (que coordenam a resposta imune). Diferentemente do ciclo clássico, no qual destrói a célula hospedeira, o rinovírus pode permanecer dentro dessas células por períodos prolongados, em um estado de persistência semelhante ao observado em vírus como herpes e HPV.
Segundo os dados publicados no Journal of Medical Virology, o vírus foi detectado em 46% das crianças avaliadas. Também foram identificadas proteínas virais e sinais de replicação ativa, indicando potencial de transmissão mesmo sem sintomas evidentes.
“Horta” de vírus no organismo
Pesquisas anteriores do mesmo grupo já haviam identificado adenovírus, influenza A e SARS-CoV-2 em amígdalas e adenoides de crianças. A descoberta da persistência do rinovírus, no entanto, surpreendeu os pesquisadores.
A hipótese levantada é que tecidos linfoides — como amígdalas, adenoides, linfonodos e gânglios — possam funcionar como uma espécie de “horta” viral. Essa permanência poderia reforçar a memória imunológica, mantendo a produção de anticorpos por mais tempo. Contudo, em alguns casos, o fenômeno pode ter implicações clínicas relevantes.
Possíveis impactos na asma e otites
Uma das preocupações é o efeito em crianças com asma. A presença do vírus em linfócitos T CD4 pode estimular a liberação de substâncias inflamatórias que atingem os pulmões, desencadeando crises asmáticas. Resfriados e gripes já figuram entre os principais gatilhos dessas crises, especialmente na infância.
Os pesquisadores também apontam que a persistência viral na adenoide — localizada próxima à tuba auditiva — pode explicar casos recorrentes de otite média. O vírus pode migrar para o ouvido médio, provocar inflamação e favorecer o acúmulo de líquido, criando ambiente propício à proliferação bacteriana.
Desafios para o diagnóstico
Os achados sugerem ainda a necessidade de cautela na interpretação de exames. Um teste positivo para rinovírus em secreção nasal pode refletir uma infecção antiga e persistente nos tecidos, não necessariamente a causa atual dos sintomas respiratórios.
Outra linha de investigação envolve pacientes imunossuprimidos, como transplantados de medula óssea. Os cientistas buscam entender se o vírus pode reativar-se a partir dos próprios tecidos linfoides do paciente, em vez de resultar de nova infecção externa.
A pesquisa amplia a compreensão sobre o comportamento do rinovírus e sugere que sua circulação pode ser mais complexa e silenciosa do que se imaginava, com impactos relevantes para a saúde pública e o manejo clínico de doenças respiratórias.