Superbactérias avançam além dos hospitais e acendem alerta para saúde pública no Brasil
Estudos identificam microrganismos multirresistentes no rio Tietê, em animal doméstico e em infecção de pele fatal, reforçando a urgência de vigilância e uso criterioso de antibióticos.
Bactérias resistentes a múltiplas classes de antibióticos, antes associadas quase exclusivamente a hospitais, vêm sendo detectadas em ambientes urbanos, animais de estimação e até em infecções comunitárias graves. Pesquisas apoiadas pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) revelam a dimensão do desafio e apontam para a necessidade de estratégias integradas de enfrentamento.
Um dos estudos identificou, no rio Rio Tietê, em São Paulo, um clone da bactéria Acinetobacter baumannii altamente resistente a antibióticos, inclusive aos carbapenêmicos — medicamentos considerados de última linha. A linhagem também apresentou genes de virulência, combinação que aumenta sua capacidade de causar infecções graves e dificulta o tratamento. O trabalho foi publicado na revista One Health.
A coleta foi realizada pela Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), no âmbito do projeto OneBR, banco de dados genômico coordenado por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP). A hipótese é que a bactéria tenha chegado ao rio por meio de efluentes hospitalares. Especialistas alertam que algumas linhagens já demonstram resistência não apenas a antibióticos, mas também a processos convencionais de tratamento de resíduos.
Outro estudo, divulgado na revista Veterinary Microbiology, descreve a morte de uma cadela da raça spitz alemão infectada por uma variante de Klebsiella pneumoniae (ST323) produtora de enzima que confere ampla resistência a antimicrobianos. O animal foi internado com gastroenterite hemorrágica e evoluiu para complicações severas, como pancreatite e peritonite, não resistindo ao quadro infeccioso.
Apesar de não ter recebido carbapenêmicos durante o tratamento, a bactéria identificada apresentava resistência a essa classe de fármacos, evidenciando a complexidade da disseminação dos mecanismos de resistência. Pesquisadores consideram a possibilidade de transmissão entre humanos e animais domésticos, especialmente em contextos de internações prolongadas.
O caso mais dramático envolveu uma jovem de 18 anos que morreu após desenvolver sepse decorrente de infecção por Staphylococcus aureus resistente à meticilina. A linhagem, conhecida como USA300-NAE, está associada a infecções de pele e tecidos moles. A paciente procurou atendimento médico com torcicolo persistente e uma espinha no rosto e faleceu pouco mais de 24 horas depois da internação. A análise genética foi publicada na revista The Lancet Microbe.
Os episódios reforçam o conceito de Saúde Única, que integra saúde humana, animal e ambiental. Especialistas defendem maior rigor na prescrição de antibióticos, ampliação do acesso a diagnósticos laboratoriais rápidos e investimentos em vigilância molecular, ainda restrita a universidades e grandes hospitais.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a resistência antimicrobiana está entre as principais ameaças globais à saúde. Estimativas indicam que, em 2019, infecções por bactérias multirresistentes estiveram diretamente associadas a 1,27 milhão de mortes no mundo e contribuíram para quase 5 milhões de óbitos.
Para pesquisadores envolvidos nos estudos, conter o avanço das superbactérias exigirá não apenas o desenvolvimento de novos medicamentos, mas também políticas públicas de educação, melhoria nos sistemas de saneamento e fortalecimento da vigilância epidemiológica no país.