Obesidade atinge mais da metade dos brasileiros e cirurgia bariátrica segue como tratamento eficaz
Especialista explica quando procedimento é indicado e esclarece mitos sobre o procedimento
O Dia Mundial da Obesidade, celebrado em 04 de março, reforça um alerta importante: a doença segue em crescimento no Brasil e já atinge milhões de pessoas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional de Saúde, indicam que cerca de 25% dos brasileiros adultos vivem com obesidade. Já o Atlas Mundial da Obesidade 2024 aponta que mais de 60% da população adulta do país apresenta excesso de peso.
A condição é reconhecida como doença crônica, multifatorial e associada a mais de 50 comorbidades, incluindo diabetes tipo 2, hipertensão arterial, apneia do sono, doenças cardiovasculares e esteatose hepática.
Com o avanço dos novos medicamentos para perda de peso, uma dúvida comum surge: a bariátrica perdeu espaço? Segundo o cirurgião do aparelho digestivo Thiago Tello, especialista na área, que atua no Instituto de Neurologia de Goiânia e no Hospital Encore, em Aparecida de Goiânia, ainda não há estudos que comprovem redução oficial na procura pelo procedimento. A percepção clínica, no entanto, indica mudança no comportamento dos pacientes.
“Ainda não existem estudos mostrando redução formal na procura pela cirurgia bariátrica. Porém, no dia a dia do consultório e em conversas com colegas, percebemos uma diminuição na busca pelo procedimento, possivelmente relacionada ao avanço das medicações”, explica.
Apesar disso, o procedimento continua sendo considerada padrão-ouro em casos específicos. Ela é indicada principalmente para pacientes com obesidade grau 3 (IMC igual ou superior a 40 kg/m²), ou para aqueles com IMC acima de 35 kg/m² associado a duas doenças relacionadas à obesidade, como diabetes tipo 2, hipertensão, apneia do sono grave ou doença cardiovascular. Também pode ser indicada para pacientes com IMC entre 30 e 35 kg/m² quando há comorbidades metabólicas importantes e de difícil controle clínico.
“A técnica não deve ser vista como último recurso, mas como parte de uma abordagem escalonada e personalizada. Em alguns casos, pode inclusive ser uma opção primária apropriada, especialmente quando a obesidade já está associada a doenças graves”, ressalta Tello.
Ele explica que a decisão deve ser individualizada, considerando gravidade do quadro, presença de comorbidades, resposta às terapias clínicas e perfil de risco do paciente.
Medicamentos substituem a cirurgia?
Os medicamentos podem integrar o tratamento e até serem utilizados antes ou depois da intervenção, mas não garantem resultados permanentes, especialmente quando não há mudanças consistentes no estilo de vida. Segundo o especialista, parte dos pacientes acaba recorrendo a cirurgia por não atingir o peso desejado ou por dificuldade em controlar as doenças associadas.
Outro ponto é o acesso. A bariátrica é oferecida pelo SUS e tem cobertura obrigatória pelos planos de saúde, enquanto as medicações mais recentes ainda apresentam custo elevado.
Controle de doenças e qualidade de vida
Além da perda de peso, a abordagem impacta diretamente o controle das doenças associadas. “Um dos principais objetivos é tratar as comorbidades, com melhora significativa — e, em alguns casos, remissão — de diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia, apneia do sono e esteatose hepática”, destaca o cirurgião.
Por se tratar de uma doença crônica, a obesidade pode envolver reganho de peso em qualquer abordagem. A bariátrica apresenta as menores taxas a longo prazo, mas a manutenção dos resultados depende de mudanças no estilo de vida e de acompanhamento multidisciplinar.
Nos últimos anos, as indicações foram ampliadas. Pacientes com IMC entre 30 e 35 kg/m² já podem ser considerados candidatos quando apresentam comorbidades graves, como diabetes tipo 2 de difícil controle, apneia do sono grave, doença cardiovascular ou esteatose hepática com fibrose.
Também houve flexibilização da idade mínima em situações específicas, ampliação das técnicas autorizadas e reforço da exigência de que o procedimento seja realizado em hospitais de alta complexidade, por cirurgiões com Registro de Qualificação de Especialidade (RQE).
Para Thiago Tello, ainda persiste o mito de que a bariátrica é apenas uma medida extrema para emagrecer. “Não se trata de estética, mas de uma estratégia terapêutica consolidada, com respaldo científico, capaz de melhorar a qualidade de vida, reduzir o peso e tratar doenças associadas à obesidade”, conclui.