Feminismo, guerra e islamofobia: por que precisamos ouvir as mulheres muçulmanas
Por Francirosy Campos Barbosa, professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP
Chegar ao 8 de Março, data internacional de luta das mulheres, assistindo a imagens de meninas mortas em ataques a uma escola é um retrato brutal do nosso tempo. Em contextos de guerra, os corpos femininos e infantis tornam-se os mais vulneráveis à violência, à destruição e ao terror. Mulheres raramente têm um dia de paz e quando conflitos armados se intensificam, sua vulnerabilidade se multiplica.
No mês passado, assisti ao filme A Voz de Hind Rajab, lançado em 2024. O documentário retrata, com sensibilidade e rigor, os últimos momentos de Hind Rajab, uma menina palestina de cinco anos que ficou presa em meio aos bombardeios na Faixa de Gaza. A narrativa se constrói a partir de áudios reais, ligações telefônicas e registros de emergência. São essas vozes que revelam o desespero de Hind e de sua família enquanto tentavam, em vão, conseguir ajuda.
Em uma das cenas mais dolorosas, Hind está dentro de um carro, cercada pelos corpos de seus familiares mortos. Ela liga pedindo socorro. Em determinado momento, a atendente tenta tranquilizá-la, dizendo que seus parentes estavam apenas dormindo. Hind responde com uma lucidez devastadora para uma criança de sua idade: “Eles estão mortos”.
Saí do cinema profundamente abalada. Caminhei pelas ruas de São Paulo, quase sem direção, ainda nos meus últimos dias de férias, tentando processar o que havia acabado de assistir. Aquelas imagens, aquelas vozes, aquela solidão infantil diante da morte eram difíceis de suportar. Era impossível não pensar em quantas outras histórias semelhantes permanecem invisíveis, sem filme, sem registro, sem memória.
Nos últimos anos, a escalada da violência no Oriente Médio ou, como muitos preferem denominar, na Ásia Ocidental, tornou esse cenário ainda mais dramático. Desde o agravamento da guerra em Gaza, em 2023, o mundo assiste a uma catástrofe humanitária que atinge diretamente a população civil.
Entre os episódios mais recentes está o ataque a uma escola de meninas em Minab, no Irã, que deixou mais de 165 vítimas e expôs, mais uma vez, como crianças e mulheres continuam pagando o preço mais alto nas disputas geopolíticas. Tragédias como essa revelam o impacto devastador das dinâmicas de poder e das estratégias militares conduzidas por Estados envolvidos ou aliados em conflitos na região, entre eles Estados Unidos e Israel, cujas ações e políticas têm sido amplamente criticadas por intensificarem a violência e a instabilidade.
Essas tragédias também revelam algo que muitos já denunciavam: o sofrimento palestino e de outras populações da região frequentemente não mobiliza a mesma comoção internacional. Em muitos casos, a resposta global oscila entre a indiferença e a tentativa de justificar a violência. O resultado é um processo de desumanização no qual pessoas deixam de ser vistas como vidas e passam a ser tratadas como números, estatísticas ou “danos colaterais”.
Do ponto de vista dos direitos humanos, a proteção de civis deveria ser o princípio central em qualquer conflito armado. Mulheres e crianças deveriam ocupar lugar prioritário nas agendas internacionais de proteção. No entanto, o que se observa são deslocamentos forçados, fome, destruição de casas, colapso de sistemas de saúde, inclusive de saúde materna, violência sexual e a perda de redes comunitárias fundamentais para a sobrevivência.
Nesse cenário, surge também um debate importante dentro do feminismo global: por que a situação de mulheres muçulmanas aparece tão raramente nas agendas de solidariedade internacional? E quando aparece, por que tantas vezes é enquadrada dentro da narrativa de que essas mulheres precisam ser “salvas”?
Intelectuais como Lila Abu-Lughod e Saba Mahmood já criticaram duramente essa lógica. A ideia de que mulheres muçulmanas precisam ser resgatadas pelo Ocidente diz muito mais sobre as ansiedades políticas e culturais do próprio Ocidente do que sobre a realidade dessas mulheres.
No imaginário de parte do feminismo branco ocidental, mulheres muçulmanas são frequentemente representadas como vítimas passivas, incapazes de agir ou decidir por si mesmas. Mas essa narrativa não representa solidariedade. Na verdade, muitas vezes reproduz uma espécie de missão civilizatória contemporânea, profundamente marcada por heranças coloniais.
Essa lógica de “salvamento” reduz experiências complexas a uma imagem única , geralmente associada ao uso do véu islâmico, e ignora a diversidade de contextos que atravessa a vida dessas mulheres: diferenças de classe, raça, país, regimes políticos, guerra, migração e ocupação militar.
O resultado é uma forma de comoção seletiva. Certas violências provocam indignação quando se parecem com experiências reconhecíveis no Ocidente. Outras são tratadas como complexas demais ou simplesmente ignoradas, especialmente quando exigiriam questionar políticas internacionais, alianças militares ou narrativas dominantes na mídia.
Recentemente, a mídia feminista e outros meios de comunicação divulgaram análises sobre um suposto novo código do Taliban que permitiria que homens batessem em mulheres, desde que não lhes quebrassem os ossos. Como pesquisadora, procurei acessar o documento original para compreender o contexto e a formulação exata dessa norma, e não apenas os textos que o comentavam. No entanto, não consegui localizar a fonte primária.
Isso significa que boa parte do debate tem se baseado em interpretações e comentários, e não necessariamente na análise direta do documento. Não estou dizendo que o Taliban não seja capaz de adotar medidas violentas contra as mulheres, aliás, seu histórico nesse sentido é conhecido. O que chamo atenção é para a necessidade de verificar as fontes. Em temas tão sensíveis, trabalhar com documentos primários é um princípio básico de rigor acadêmico e de responsabilidade no debate público.
Outro aspecto fundamental desse debate é compreender que a islamofobia não pode ser vista apenas como intolerância religiosa. Na prática, ela funciona frequentemente como um processo de racialização.
Pessoas passam a ser identificadas como muçulmanas a partir de marcadores como aparência, nome, origem ou vestimenta. Sobre esses corpos são projetados estereótipos que associam o Islam ao atraso, à violência ou à misoginia. Essa lógica cria uma imagem homogênea e desumanizante.
No caso das mulheres, essa dinâmica torna-se ainda mais evidente por meio da chamada hijabfobia, a hostilidade direcionada especificamente a mulheres que usam o véu. O hijab acaba se tornando um marcador visível que atrai, ao mesmo tempo, discursos racistas, xenofóbicos e islamofóbicos.
Entre janeiro e fevereiro de 2026, dois episódios de violência contra mulheres muçulmanas ganharam repercussão no Brasil. O primeiro ocorreu em um supermercado em São Paulo, onde uma mulher muçulmana foi verbalmente agredida; o vídeo circulou nas redes sociais e mostra sua irmã, que não é muçulmana, defendendo-a do agressor.
O segundo caso aconteceu em um shopping em Foz do Iguaçu — a segunda cidade com maior população muçulmana do país —, onde um homem agrediu verbal e fisicamente duas mulheres, chegando a arrancar o lenço de uma delas.
Casos como esses estão sendo registrados no 3º Relatório de Islamofobia no Brasil, que o Gracias – Grupo de Antropologia em Contextos Islâmicos e Árabes – está produzindo, que reúne relatos de mulheres muçulmanas sobre experiências de discriminação e violência. O questionário ainda está disponível para participação de mulheres muçulmanas e os resultados serão publicados em breve.
Reconhecer essa realidade é fundamental também para o movimento feminista. Não basta defender abstratamente a liberdade religiosa. É preciso enfrentar estruturas concretas de exclusão, como discriminação no mercado de trabalho, exclusão educacional, vigilância estatal e políticas que restringem o direito de mulheres escolherem como se vestir. Vale destacar que a maioria de mulheres muçulmanas que usam hijab, embora tenham diploma de nível superior, acabam optando em ser autônomas, ou trabalhando em negócios das famílias, por causa da dificuldade em conseguir emprego em suas áreas.
Isso nos leva ao debate recorrente: o uso do hijab. A luta pelos direitos das mulheres não significa retirar o véu de suas cabeças. Um feminismo coerente deve combater qualquer forma de imposição — tanto obrigar uma mulher a usar o véu quanto obrigá-la a retirá-lo.
O véu pode ter múltiplos significados: fé, identidade, pertencimento, estética ou resistência política. Em alguns contextos, pode ser imposto por estruturas familiares ou estatais. O papel do feminismo deveria ser ampliar a liberdade de escolha, não restringi-la.
Em países onde o véu é proibido, ele se torna um marcador racializado que produz exclusão social. Mulheres muçulmanas enfrentam dificuldades para acessar escolas, empregos e serviços públicos. Já em contextos onde o uso do véu é obrigatório, ele pode se transformar em instrumento de controle sobre o corpo feminino. É preciso estar atento aos diversos contornos de opressão que podem ser atribuídos, mas sobretudo é fundamental ouvir as mulheres muçulmanas sobre suas escolhas, sejam adeptas ou não do lenço.
Nos dois casos, o problema não está na vestimenta religiosa em si, mas nas estruturas de poder que tentam decidir sobre o corpo das mulheres.
Ao longo da história, mulheres muçulmanas têm produzido suas próprias formas de resistência e reflexão política. No início do século 20, por exemplo, a egípcia Huda Shaarawi fundou a União Feminista Egípcia e lutou pela educação, pela participação política e por reformas legais para mulheres.
Hoje, aquilo que muitos chamam de feminismo islâmico retoma algumas das perguntas centrais colocadas por essas pioneiras: quem interpreta as leis e costumes que governam a vida das mulheres?
Esses debates acontecem hoje em um cenário global marcado pela islamofobia, por guerras e por intensos fluxos migratórios. Nesse contexto, o chamado feminismo islâmico dialoga com outras correntes feministas, especialmente com os feminismos decoloniais, ao questionar estruturas de poder herdadas do colonialismo e ao denunciar como militarização, racismo e desigualdades globais atravessam a vida das mulheres.
Pode-se compreender o feminismo islâmico como uma forma de ação decolonial, que não necessariamente compartilha as mesmas agendas do feminismo liberal e tampouco constitui um bloco homogêneo. Há grande diversidade nas formas de luta e organização entre mulheres muçulmanas. Muitas participam ativamente desses debates e mobilizações por direitos, ainda que nem sempre se identifiquem ou se autodenominem feministas.
No fundo, a questão central é simples: mulheres muçulmanas não são sujeitos passivos aguardando salvação. Elas são protagonistas de suas próprias lutas.
Ouvi-las, reconhecer suas experiências e respeitar a pluralidade de caminhos para a emancipação feminina é um passo fundamental para construir um feminismo verdadeiramente global, um feminismo capaz de enfrentar não apenas o patriarcado, mas também o racismo, a guerra e as heranças coloniais que continuam moldando o mundo em que vivemos. jornal.usp.br