Hiperconectados, mas sozinhos: como as redes sociais estão mudando a forma como sentimos solidão

Medo de ficar de fora, busca por curtidas e estímulos constantes afetam concentração, autoestima e relações no mundo real

Basta abrir uma rede social para ter a impressão de que a vida está acontecendo em todos os lugares ao mesmo tempo. Alguém está viajando, outro comemora uma conquista profissional, amigos se reúnem em um evento. Enquanto a tela do celular se enche de atualizações, surge também uma sensação silenciosa: a de estar ficando de fora.

Esse sentimento tem nome. Conhecido como Fear of Missing Out, ou simplesmente FOMO , o fenômeno descreve o medo de estar perdendo experiências, oportunidades ou interações sociais importantes. Alimentado pela dinâmica das redes sociais, ele tem sido associado a quadros de ansiedade, estresse e ao uso compulsivo do ambiente digital.

Segundo Paulo Henryque de Carvalho Carneiro Geraldes, professor do curso de Psicologia da Estácio, o problema surge quando a necessidade de acompanhar tudo o que acontece nas redes começa a afetar o equilíbrio emocional.

“O FOMO é basicamente o medo de estar perdendo eventos, oportunidades ou interações sociais importantes. Esse sentimento pode funcionar como um gatilho para ansiedade crônica, depressão, insônia, dificuldade de concentração e um comportamento compulsivo de verificar as redes sociais o tempo todo”, explica.

A ilusão de conexão

Embora ampliem as possibilidades de comunicação, as redes sociais também podem gerar um efeito paradoxal: a sensação de estar conectado a muitas pessoas e, ao mesmo tempo, sentir-se sozinho. Isso acontece porque as interações digitais nem sempre substituem os vínculos construídos na convivência cotidiana.

“As conexões estabelecidas nas redes sociais não são como as conexões da vida real. Muitas vezes o que se cria é uma ilusão de conexão. A pessoa acompanha a vida de muita gente, mas faltam interações genuínas e profundas”, afirma.

Essa dinâmica, segundo Paulo Henryque, dialoga com as reflexões do sociólogo Zygmunt Bauman, que descreveu a sociedade contemporânea como marcada por relações cada vez mais fluidas e instáveis. Em sua ideia de “modernidade líquida”, os vínculos se tornam mais frágeis e facilmente descartáveis.

No ambiente digital, essa lógica aparece de forma clara: as pessoas podem se conectar, silenciar, bloquear ou excluir alguém com poucos cliques. Assim, embora o número de contatos aumente, nem sempre essas relações se transformam em vínculos mais profundos, o que pode intensificar a sensação de isolamento.

Comparação que afeta

Outro fator que contribui para a sensação de inadequação é a forma como a vida é apresentada nas redes sociais. Em geral, as pessoas compartilham apenas momentos positivos, criando versões filtradas da realidade. Fotos de viagens, conquistas profissionais e rotinas aparentemente perfeitas acabam se tornando referências para quem observa.

“Quando alguém compara a própria vida com essas imagens idealizadas, pode surgir um sentimento de inadequação. A pessoa sente que não tem o corpo ideal, o emprego ideal ou a vida ideal, e isso pode afetar a autoestima”, explica o docente.

Curtidas, comentários e notificações também exercem um papel importante no comportamento digital. Cada nova interação funciona como uma pequena recompensa. Segundo o professor, esses estímulos ativam no cérebro o chamado sistema de recompensa, responsável pela liberação de dopamina, neurotransmissor associado à sensação de prazer.

“Quando uma pessoa posta uma foto e recebe muitos likes, ocorre uma liberação de dopamina que gera uma sensação de recompensa. Isso reforça o comportamento de buscar validação social nas redes”, afirma o docente.

Estar sozinho ou sentir-se sozinho
A discussão sobre solidão também envolve uma distinção importante entre dois conceitos diferentes: estar sozinho e sentir-se sozinho.

Estar sozinho refere-se a um estado físico objetivo, quando a pessoa está momentaneamente sem companhia. Já sentir-se sozinho envolve uma dimensão emocional mais profunda. “A solidão é uma percepção subjetiva de desconexão. Uma pessoa pode estar rodeada de gente e ainda assim sentir que não está sendo compreendida”, explica o professor.

O uso excessivo das redes pode começar a impactar a saúde mental quando interfere na rotina. Entre os sinais estão irritabilidade quando não se tem acesso ao celular, necessidade constante de verificar notificações, dificuldade de concentração, isolamento da vida social presencial e sensação frequente de vazio emocional.

O que fazer
Apesar dos riscos, especialistas lembram que as redes sociais não são necessariamente prejudiciais. O impacto depende da forma como são utilizadas. Entre as estratégias recomendadas estão estabelecer limites de tempo para o uso das plataformas, fazer pausas periódicas — conhecidas como detox digital —, desativar notificações e priorizar encontros presenciais com amigos e familiares.

O professor também cita recursos que ajudam a reduzir estímulos no celular, como o aplicativo The Minimalist, que simplifica a interface do aparelho e pode contribuir para diminuir o uso compulsivo.

Quando o uso das redes começa a gerar sofrimento emocional ou prejuízos na rotina, a recomendação é procurar apoio profissional. Em uma sociedade cada vez mais mediada por telas, aprender a equilibrar o mundo digital com relações humanas reais tornou-se um desafio central para a saúde mental contemporânea.