Conflito no Oriente Médio eleva risco de petróleo a US$ 200 e acende alerta global
Escalada militar e bloqueio no Estreito de Ormuz pressionam oferta e podem provocar choque energético sem precedentes
A intensificação do conflito no Oriente Médio já leva analistas internacionais a considerar como cenário central a possibilidade de o petróleo atingir US$ 200 por barril. A escalada das ações militares envolvendo os governos de Donald Trump e Benjamin Netanyahu contra o Irã ampliou os riscos para o abastecimento global de energia e para o crescimento econômico mundial, segundo especialistas ouvidos pela Al Jazeera.
Menos de três semanas após o início dos ataques, em 28 de fevereiro, o foco do mercado deixou de ser se o barril ultrapassaria os US$ 100 — agora, a preocupação é até onde os preços podem chegar diante do agravamento geopolítico. No dia 9 de março, o Brent, referência global, encostou nos US$ 120 e se mantém acima dos US$ 100 desde o dia 13.
A tensão ganhou novo impulso após um ataque israelense ao campo de gás South Pars, no Irã, em 18 de março, seguido por retaliações iranianas contra instalações energéticas no Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Como resultado, os preços voltaram a subir, superando os US$ 108 por barril.
O principal ponto de pressão é o Estreito de Ormuz, responsável por cerca de 20% do fluxo mundial de petróleo. Com o bloqueio imposto pelo Irã e ameaças a navios, o tráfego na região foi drasticamente reduzido, elevando a apreensão nos mercados.
Para a analista Vandana Hari, da Vanda Insights, os preços já dão sinais de escalada mais intensa: petróleos de referência do Oriente Médio superaram US$ 150, o que coloca o patamar de US$ 200 “no horizonte”. Segundo ela, a trajetória dependerá diretamente do tempo de fechamento do Estreito de Ormuz.
A dificuldade dos Estados Unidos em articular uma coalizão internacional para reabrir a rota agrava o cenário. Poucos navios — principalmente de Índia, Paquistão, Turquia e China — conseguem atravessar a região, enquanto países tentam negociar diretamente com o Irã para garantir passagem.
Mesmo com a liberação de cerca de 400 milhões de barris das reservas estratégicas por membros da Agência Internacional de Energia, o impacto ainda é insuficiente para compensar a queda na oferta. Estimativas do OCBC Group Research apontam para um déficit global de cerca de 10 milhões de barris por dia.
Consultorias como a Wood Mackenzie já indicavam que o Brent poderia alcançar US$ 150 em breve, e que um cenário de US$ 200 não está descartado ainda em 2026. Especialistas ressaltam que, se a interrupção no fluxo por Ormuz persistir, preços próximos a esse nível se tornam plausíveis.
Impactos na economia global
Um choque dessa magnitude teria efeitos amplos. O Fundo Monetário Internacional estima que cada aumento de 10% no preço do petróleo, mantido por um ano, eleva a inflação global em 0,4 ponto percentual e reduz o crescimento econômico em 0,15 ponto.
O recorde nominal do Brent foi registrado em 2008, durante a crise financeira global, quando atingiu US$ 147,50 por barril — valor que, corrigido pela inflação, equivaleria hoje a cerca de US$ 224.
Segundo Adi Imsirovic, especialista em energia da Universidade de Oxford, um petróleo a US$ 200 funcionaria como um forte freio para a economia mundial, afetando inflação, emprego e até a oferta de produtos como fertilizantes e plásticos.
Divergências no mercado
Apesar da tendência de alta, há divergências entre analistas. Para Sasha Foss, da Marex, o avanço até US$ 200 é improvável, já que preços elevados tendem a estimular o aumento da produção em países como Estados Unidos, Canadá, Brasil e Guiana, além da criação de rotas alternativas.
Outro fator que pode conter a escalada é a chamada “destruição de demanda”, quando o consumo diminui diante de preços muito altos. Embora o petróleo tenha baixa elasticidade, há um limite a partir do qual a demanda começa a recuar, pressionando os preços para baixo.
Nesse cenário de forças opostas — oferta restrita e possível retração do consumo —, o futuro do petróleo dependerá sobretudo da evolução do conflito e da reabertura do Estreito de Ormuz, hoje o principal gargalo da segurança energética global.