Resíduo de lúpulo da indústria cervejeira é aproveitado na produção de protetor solar
Subproduto do lúpulo utilizado na fabricação de cerveja pode ganhar uma nova aplicação: a produção de cosméticos mais sustentáveis e acessíveis. Um estudo desenvolvido na Universidade de São Paulo (USP) aponta que o resíduo dessa matéria-prima tem potencial para ser incorporado em formulações de protetores solares.
A pesquisa teve início a partir do grande volume de resíduos gerados e descartados pela indústria cervejeira. O trabalho multidisciplinar reuniu especialistas da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF-USP), com foco em produtos naturais e fotoproteção.
Durante o processo de fabricação da cerveja, o lúpulo é adicionado tanto na fervura do mosto quanto, em alguns casos, após a fermentação — etapa conhecida como dry hopping, responsável por intensificar o aroma da bebida. Nessa fase, nem todos os compostos presentes nos pellets (flores secas e prensadas) são extraídos, fazendo com que o material descartado ainda concentre substâncias bioativas relevantes.
Entre esses compostos estão ácidos amargos, óleos essenciais e, principalmente, polifenóis — conhecidos por suas propriedades antioxidantes, capazes de ajudar na proteção da pele contra os efeitos nocivos da radiação ultravioleta.
Com base nisso, os pesquisadores utilizaram o resíduo de lúpulo como matéria-prima. O material passou por extração com etanol, secagem e análises químicas. Para efeito de comparação, também foi produzido um extrato a partir de lúpulo não utilizado na fabricação da cerveja.
Na etapa seguinte, os extratos foram incorporados, separadamente, a formulações de protetores solares em creme, combinados com filtros UVB e UVA tradicionais. Diferentes composições foram testadas com ingredientes comuns da indústria cosmética, buscando identificar a combinação mais eficaz.
A avaliação da eficácia fotoprotetora foi realizada por meio de espectrofotometria de refletância difusa, um método reconhecido internacionalmente, capaz de medir o fator de proteção solar (FPS) e a proteção de amplo espectro.
Os resultados indicaram que o extrato obtido a partir do resíduo apresentou desempenho superior ao do lúpulo “puro”. Segundo os pesquisadores, isso pode estar relacionado à eliminação de compostos voláteis durante o processo cervejeiro, o que concentra substâncias com maior potencial fotoprotetor.
Apesar dos resultados promissores, os cientistas destacam que a aplicação comercial ainda depende de novas etapas, como testes de estabilidade, padronização dos compostos e ensaios clínicos para comprovar segurança e eficácia.
O estudo representa uma alternativa inovadora para o reaproveitamento de resíduos industriais, contribuindo para o desenvolvimento de cosméticos mais sustentáveis e com potencial de menor custo ao consumidor.