O que ainda sustenta um voo
Por Marcelo Duarte, professor do Museu de Zoologia da USP
Era início de abril. Eu voltava do almoço, por volta das 13 horas, em direção ao Museu de Zoologia (MZ) da USP, no bairro do Ipiranga, sob um dia ensolarado e ainda quente, quando coletei um exemplar de Rekoa meton (Cramer, 1779). Tratava-se de uma fêmea, e sua presença naquele ponto tem um significado claro do ponto de vista documental.
É o segundo registro da espécie no Ipiranga depositado no acervo do MZ. O primeiro corresponde a um macho coletado em julho de 2013. Trata-se de um pequeno licenídeo (família de borboletas com cerca de 6 mil espécies, de pequeno porte e coloração frequentemente metálica), amplamente distribuído, com ocorrência documentada desde o México, passando por toda a América Central e grande parte da América do Sul, incluindo Brasil, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela e Guianas.
Ainda assim, não se trata de um registro trivial. Em uma metrópole como São Paulo, a presença de uma borboleta como essa não interessa apenas pela raridade, mas pelo que ainda deixa entrever sobre as condições de permanência da vida em ambientes intensamente transformados.
Rekoa meton pode ser encontrada desde o nível do mar até cerca de 2 mil metros de altitude, embora seja considerada rara acima de mil metros nos extremos norte e sul de sua distribuição. Ocorre em ambientes úmidos e secos, o que sugere certo grau de generalismo em relação ao hábitat. Há também indícios de alguma capacidade dispersiva, com registros em localidades insulares e em ambientes onde a espécie não parece se estabelecer de forma permanente.
Do ponto de vista comportamental, os machos parecem ser territoriais, pousando sobre arbustos no início da tarde, possivelmente em contexto reprodutivo. Parte dos exemplares examinados na literatura apresenta danos simétricos nas asas posteriores, interpretados como marcas de tentativas frustradas de predação. Para o Brasil, a espécie está documentada em diversos Estados, entre eles Amazonas, Maranhão, Ceará, Mato Grosso, Goiás, Distrito Federal, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo e Santa Catarina. O único registro mencionado por Robbins para o Estado de São Paulo carece de localidade precisa, figurando apenas com a indicação de altitude de cerca de 700 metros e sem referência a município ou ponto de coleta. Os registros com coordenada definida na cidade são mais recentes. A espécie foi listada no parque do Instituto Butantan, e os dois exemplares do acervo do MZ confirmam sua presença também no Ipiranga, contribuindo para um mapeamento mais detalhado da distribuição urbana da espécie na cidade.
Um aspecto ecológico relevante é justamente o que ainda não se sabe. Não há registros publicados de plantas hospedeiras das larvas de R. meton, nem de fontes florais utilizadas pelos adultos. Sua biologia trófica permanece, portanto, desconhecida. Isso não diminui o interesse do registro, mas impede que a presença da espécie no Ipiranga seja interpretada à luz de dependências ecológicas específicas, como seria possível para outras espécies do gênero. O que se pode dizer é que R. meton encontrou no entorno do MZ condições suficientes para estar ali. Quais exatamente, a ciência ainda não sabe responder.
São Paulo impõe pressões severas à manutenção de comunidades de Lepidoptera. A impermeabilização do solo, as ilhas de calor, a poluição atmosférica, o tráfego e a fragmentação da vegetação criam, em grande parte do território urbano, condições desfavoráveis à persistência dessas comunidades. A literatura especializada é consistente ao mostrar que sua permanência em contextos urbanos depende de fatores precisos, entre eles a conectividade entre áreas verdes, disponibilidade de recursos florais, estrutura da vegetação e acesso à água. Esses fatores não estão ausentes na cidade, mas sua distribuição é irregular e sua disponibilidade, em muitos setores, é insuficiente. O que sustenta a fauna de borboletas em São Paulo são fragmentos.
A região do MZ ilustra bem essa condição. O Parque da Independência, onde o museu se localiza, integra uma paisagem mais ampla que inclui o Parque da Aclimação, o Ibirapuera e, mais ao sul, o Jardim Botânico e o Parque Estadual das Fontes do Ipiranga (Pefi). O Pefi, com seus 540 hectares de floresta ombrófila densa, é considerado o maior fragmento de Mata Atlântica em área urbana da Região Metropolitana de São Paulo. Esses espaços não formam uma rede ecologicamente contínua, mas funcionam como pontos de suporte em uma matriz que, sem eles, seria inteiramente inóspita.
Em ecologia da paisagem, fragmento está associado à perda e à ruptura de hábitats originalmente contínuos, resultando em áreas menores, isoladas e ecologicamente empobrecidas, reconhecidamente sujeitas a efeitos de borda, perda de espécies e isolamento genético frequentemente irreversíveis. Mas, para os organismos que ainda persistem nas cidades, fragmentos são o que resta de habitável, não no sentido de uma qualificação positiva do ambiente, mas enquanto descrição da situação dos organismos que nele ainda encontram sombra, umidade relativa menos extrema, plantas hospedeiras, recursos florais e heterogeneidade estrutural suficiente para permitir deslocamento e reprodução. Sua presença naquela tarde não era um acidente, era o resultado de uma cadeia de dependências ainda parcialmente satisfeitas naquele entorno.
Não há heroísmo nisso. Persistência, do ponto de vista biológico, não é uma virtude, é uma consequência. Um organismo permanece onde ainda encontra as condições necessárias à sua manutenção. Quando essas condições desaparecem, ele desaparece junto. O que a observação de campo revela, portanto, não é resiliência em sentido abstrato, mas a existência de suportes concretos que ainda não foram inteiramente removidos.
Essa lógica não se restringe ao plano ecológico, e essa aproximação não pretende reduzir o social ao biológico, mas evidenciar uma estrutura comum de deterioração. Em qualquer ambiente adverso, a permanência não é um atributo intrínseco dos organismos ou das pessoas. Ela depende da manutenção de suportes que, quando se degradam progressivamente, reduzem as possibilidades de continuidade antes que qualquer ruptura definitiva se torne visível.
A psiquiatra francesa Marie France Hirigoyen, em seu livro Le Harcèlement Moral (1998), publicado no Brasil como Assédio Moral: A Violência Perversa no Cotidiano, definiu o assédio moral como qualquer conduta abusiva que, pela repetição ou sistematização, comprometa a dignidade ou a integridade física ou psíquica da pessoa. No Brasil, a médica do trabalho Margarida Maria Silveira Barreto foi pioneira ao investigar a humilhação reiterada no ambiente laboral em sua dissertação de mestrado Uma Jornada de Humilhações (2000), na qual documentou, com base empírica, seus efeitos sobre a saúde dos trabalhadores.
A estrutura, nos dois casos, é a mesma. Ambientes hostis raramente eliminam de uma só vez. Eles operam por degradação progressiva, reduzindo os suportes disponíveis até que a permanência se torne inviável. No caso da fauna urbana, esses suportes são ecológicos e envolvem abrigo, recursos e heterogeneidade ambiental. No caso das pessoas submetidas a formas persistentes de violência institucional ou relacional, esses suportes assumem outra natureza e incluem vínculos, reconhecimento, escuta, mediação e limites capazes de conter o desgaste. A ausência dessas condições não se reduz a um desconforto menor nem a um ruído relacional. Uma metanálise publicada na Occupational and Environmental Medicine estabeleceu associação consistente entre estressores psicossociais no trabalho e risco elevado de comportamento suicida; e um estudo longitudinal com mais de 1.800 trabalhadores acompanhados ao longo de cinco anos demonstrou que vítimas de assédio moral apresentam o dobro de risco de desenvolver ideação suicida. A banalização desse tipo de violência não se sustenta diante do que a evidência científica vem demonstrando.
Naquela tarde de abril, ficou evidente que Rekoa meton só estava ali porque aquele entorno ainda oferecia condições mínimas de suporte. Não por força própria, nem por acaso, mas porque fragmentos de abrigo, recurso e heterogeneidade ambiental ainda não haviam sido inteiramente eliminados. O mesmo princípio vale para qualquer forma de vida em ambiente adverso, humana ou não. A permanência não se explica pela capacidade de resistir ao insuportável. Ela se explica pela existência de condições que ainda tornam o ambiente, ao menos parcialmente, habitável.
Preservar essas condições não é um gesto secundário. É o que determina se a vida, em qualquer de suas formas, encontra onde continuar. jornal.usp.br