Além das quadras e piscinas: TEAtivo se torna ferramenta de autonomia para crianças com autismo no NE

Ministério do Esporte promove capacitação para professores, unindo atividades como capoeira e natação ao desenvolvimento de habilidades que garantem mais qualidade de vida e independência

Atividades pedagógicas voltadas a pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) nas modalidades de atletismo, capoeira, futebol e natação foram apresentadas pelo professor André Luís Teixeira durante oficina da Capacitação para Formação dos Professores do TEAtivo Nordeste II.

De acordo com André Luís, os ganhos motores obtidos no TEAtivo podem ser levados para o dia a dia da criança na casa, na escola e na vida. “Isso melhora a qualidade de vida do indivíduo. Subir uma escada, subir no ônibus, atravessar uma rua: esse desenvolvimento, da parte psicomotora, é levado para a vida, uma qualidade de vida no seu dia a dia, nos afazeres, no trabalho.”

O professor apontou alguns sinais motores ou de interação social que professores de educação física podem observar em crianças que ainda não têm um diagnóstico fechado. “O andar na ponta dos pés, o olhar perdido ou desatento, a falta de coordenação motora e a hipersensibilidade”, destaca.

Professor e psicólogo, André Luís é uma figura conhecida no cenário brasileiro, especialmente por seu trabalho na disseminação de ferramentas de avaliação e intervenção para o Transtorno do Espectro Autista (TEA). Sua abordagem não é uma “metodologia fechada” com um nome específico – como o Método Denver ou Análise do Comportamento Aplicada (ABA) -, mas sim uma prática baseada em evidências que integra a ABA com o suporte direto a famílias e profissionais.

O trabalho desenvolvido por André Luís Teixeira tem como pilares a avaliação precoce, a análise do comportamento aplicada, o treinamento de familiares e o uso de tecnologias educacionais para ampliar o acesso à informação sobre o TEA.

Uma das principais características da atuação do especialista é a organização de instrumentos clínicos voltados ao rastreio e à avaliação do autismo. Entre as ferramentas utilizadas estão escalas validadas internacionalmente, como o M-CHAT, indicado para identificação precoce de sinais em crianças pequenas; o ABC (Autism Behavior Checklist), usado para avaliar gravidade e perfil comportamental; e o AQ-10, aplicado na identificação de traços de autismo em adultos.

Pais e cuidadores

Outro eixo central é o treinamento de pais e cuidadores. Segundo a metodologia defendida por André Luís Teixeira, o processo terapêutico não deve se limitar ao consultório, mas envolver também o ambiente familiar. A capacitação das famílias busca transformar a rotina doméstica em um espaço de estímulo contínuo, favorecendo a generalização das habilidades aprendidas durante as terapias para contextos como casa, escola e espaços de convivência social.

Coletividade, ritmo e socialização

“Atuo na modalidade de capoeira na Apae Natal desde o ano passado [2025], e estamos agora na segunda etapa do projeto TEAtivo. Vejo esta capacitação como um momento riquíssimo para nós, profissionais. Trabalhar com o Transtorno do Espectro Autista [TEA] exige, de fato, uma qualificação específica. Ter a oportunidade, por meio da Apae Brasil e do Ministério do Esporte, de aprender com profissionais de ponta que dominam o tema — como o professor André Luís — é o que nos permite melhorar nossa prática no dia a dia”, relata Manassés Araújo, professor de capoeira na Apae Natal e integrante do Programa TEAtivo.

Ele explica que na capoeira são atendidos 20 alunos, divididos em duas turmas, e os resultados ao se colocar em prática o que se aprende na capacitação são visíveis. “A capoeira é uma modalidade extremamente completa: trabalha o físico, o intelectual e, principalmente, a socialização. Sabemos que muitos autistas têm a particularidade de evitar o contato ou a aproximação, mas a capoeira necessita dessa interação.”

Manassés acrescenta que, com a musicalidade e as atividades em grupo, observa-se esses alunos superando limites a cada dia e desenvolvendo uma socialização que antes era um desafio. “Está sendo fantástico ver esse desenvolvimento, e aplicar o conhecimento técnico para potencializar essa modalidade ímpar dentro do projeto.”

Transversalidade do conhecimento

A professora de natação do núcleo do TEAtivo na Apae Natal Diva Gomes descreve bem o impacto dessa capacitação. “É transformador. Eu estou na Apae Natal desde 2018 e, inicialmente, meu trabalho era focado na dança. Mas nunca foi ‘dança por dança’. O meu olhar sempre foi voltado para a reabilitação. Em 2024, quando entrei no projeto TEAtivo a convite do professor Manassés, levei essa bagagem de reabilitação para dentro da natação. O que a oficina desta quarta nos oferece é justamente um ‘leque enorme’ de novas possibilidades. Às vezes, o professor está ali no dia a dia, na borda da piscina, e acaba ficando limitado à rotina. Essa formação amplia nossa visão – ela nos mostra que podemos ir muito além do que imaginávamos no desenvolvimento dessas crianças.”

Segundo Diva, a metodologia e os conhecimentos compartilhados durante a capacitação ajudam a mudar a vida dessas crianças. “A gente consegue perceber que o esporte, quando aliado a uma base técnica sólida de conhecimento sobre o autismo, torna-se uma ferramenta de mudança real. Com a capacitação, estamos conseguindo adaptar e ampliar o conhecimento que cada professor já possui na sua modalidade. No TEAtivo, aplicamos isso na água. Não é apenas ensinar a nadar, é usar a natação para gerar autonomia e bem-estar. Essa troca está sendo fundamental para que a gente saia daqui sabendo que podemos fazer ainda mais por cada aluno”, completa.

Felipe Félix, professor da modalidade futsal na Apae Natal e integrante do TEAtivo, atua no programa desde a implantação da primeira etapa, em 2024. “O projeto é algo maravilhoso, e este momento da capacitação é onde realmente expandimos nossos saberes para conduzir as atividades com mais precisão. Sempre temos dúvidas, o que é natural, pois o mundo é um ciclo social em que estamos aprendendo o tempo todo. Essa capacitação enriquece o profissional porque nos dá ferramentas para ‘encaixar’ melhor a nossa prática.”

Sobre a oficina com o professor André Luís Teixeira, ele a retrata como uma experiência fantástica. “Ele trouxe visões que se somam ao que já fazemos no dia a dia. Às vezes, você já realiza uma prática, mas ele oferece uma forma diferente de enxergar aquele comportamento ou aquela técnica, e esse novo encaixe facilita demais a nossa rotina com os alunos. É um aprendizado que otimiza o serviço e nos dá segurança para evoluir”, completa.