Porta-enxerto inadequado pode reduzir em até 75% a produção de látex em seringueiras

Pesquisa da Unicamp e do IAC mostra que a escolha do porta-enxerto influencia diretamente a produtividade da seringueira e pode definir o sucesso econômico da plantação.

A produção de borracha natural no Brasil enfrenta um desafio silencioso que pode comprometer seriamente a produtividade das plantações de seringueira. Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas e do Instituto Agronômico revelou que a escolha inadequada do porta-enxerto — a planta utilizada como base para receber o clone enxertado — pode provocar perdas expressivas na produção de látex.

Publicado na revista científica The Plant Genome, o trabalho demonstrou que o porta-enxerto não atua apenas como sustentação física da planta, mas interfere diretamente nos mecanismos biológicos da seringueira, alterando sua capacidade produtiva e adaptação ao ambiente.

Embora os programas de melhoramento genético historicamente tenham priorizado apenas os clones mais produtivos, os pesquisadores identificaram que o desempenho final da cultura depende também da compatibilidade entre clone e porta-enxerto. Em alguns casos, uma combinação inadequada pode reduzir drasticamente a produção esperada.

Os testes mostraram, por exemplo, que o clone RRIM 600, amplamente utilizado no país, apresentou desempenho muito superior quando associado ao porta-enxerto PB 235. Nessa combinação, a produtividade média atingiu 76 gramas de borracha seca por árvore em cada sangria. Já plantas cultivadas sobre porta-enxertos não selecionados registraram rendimento significativamente menor.

Para chegar aos resultados, os cientistas analisaram a expressão gênica das árvores enxertadas e identificaram milhares de genes influenciados pela interação entre enxerto e porta-enxerto. Entre eles, genes relacionados diretamente à biossíntese da borracha natural e aos mecanismos de resposta ao estresse ambiental.

Segundo os pesquisadores, o desconhecimento sobre a importância do porta-enxerto ainda é comum no setor produtivo. Muitos agricultores escolhem apenas o clone da muda, sem receber orientação sobre qual base genética está sendo utilizada no viveiro. Como a seringueira leva cerca de dez anos para atingir plena produção, o prejuízo costuma ser percebido apenas no longo prazo.

Além do impacto econômico, o estudo aponta novas possibilidades para aumentar a competitividade da cultura da seringueira no Brasil. A adoção das combinações corretas poderá elevar a produtividade, melhorar a resistência das plantas à seca e reduzir vulnerabilidades a doenças.

Com base nos resultados, o IAC prepara materiais técnicos para orientar viveiristas e produtores rurais sobre as melhores combinações entre clones e porta-enxertos, numa tentativa de transformar o manejo da cultura no país.