“Taracá” e neologismos de aqui

Por Henrique Braga, doutor pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, e Marcelo Módolo, professor da FFLCH-USP

Ainvenção de palavras é, certamente, um dos fenômenos linguísticos mais encantadores. É raro quem não se interesse pela origem e formação de vocábulos, sobretudo quando há neles algo pitoresco, curioso. Embora esse nascimento de termos seja inerente às línguas e ocorra com certa frequência – os recentes “luxar” (com o sentido de “viver experiências luxuosas”) e “sextar” são exemplos –, os casos parecem ser mais reconhecidos e celebrados quando se dão no campo artístico, quando um romancista, um poeta, um letrista ousam praticar o ato criador.
Nesse tema, é impossível não lembrar Guimarães Rosa, que cunhou belezas como “sussurruído” (nome que deu ao som de várias pessoas sussurrando ao mesmo tempo), ou, mais contemporaneamente, Conceição Evaristo, pródiga na composição por justaposição (“corpo-escrita”, “brancos-donos”, “vida-liberdade”) e criadora do termo e do conceito “escrevivência”. No artigo de hoje, contudo, ousamos cruzar a fronteira – geográfica e linguística – que nos separa de irmãos hispanohablantes e dar uma espiada também no neologismo que dá nome ao mais recente álbum do cantor e compositor uruguaio Jorge Drexler: “taracá”.

“Estar acá”: tal como no português, aférese e junção prosódica

“Peraí, cê tendeu?” Nessa breve frase, temos três exemplos de aférese corriqueiros em nosso português do Brasil. Trata-se de um fenômeno fonético pelo qual a primeira sílaba de um vocábulo passa a ser suprimida. Na informalidade cotidiana, termos como “você”, “espera” e “entendeu” sofrem essa redução (nas formas “cê”, “péra” e “tendeu”).

No caso da língua portuguesa, esse processo ajuda a compreender certas transformações históricas do idioma. Em Os Lusíadas, no primeiro canto, encontram-se os célebres versos que rogam para que “Cesse tudo que a musa antiga canta/ Que outro valor mais alto se alevanta”. Na língua de Camões, circulava a forma “alevantar”, da qual se consolidou posteriormente “levantar”, por aférese do “a-” inicial. Fenômeno semelhante pode ser observado em variantes populares ainda presentes em certas regiões do Brasil, nas quais se ouvem formas como “ajuntar” e “alembrar”, ao lado das formas hoje mais correntes “juntar” e “lembrar”.

No caso de “taracá”, neologismo do cantautor uruguayo, a aférese é um dos fenômenos presentes na criação do neologismo: na expressão “estar acá” (“estar aqui”), o verbo perde sua sílaba inicial.

À aférese soma-se, em “taracá”, um processo de fusão fonética, isto é, de coalescência fonética entre segmentos. É o mesmo movimento que, em português, levou a expressão “ir em boa hora” a se converter, ao longo do tempo, em “ir embora”, ou que, na fala cotidiana, transforma “espere aí” em “peraí”, numa combinação de redução fonética e fusão prosódica. No neologismo de Drexler, “estar acá” origina, assim, “taracá”.

Do ponto de vista fonético, a formação do termo já está devidamente explicada e poderíamos nos dar por satisfeitos, por termos usado o neologismo castelhano como pretexto para tratar também da fonética na formação de palavras do nosso português brasileiro (perceberam?). No entanto, dada a complexidade e a beleza do fenômeno, não poderíamos deixar de explorar outro aspecto além do gramatical. Vejamos um pouco da semântica do termo.

“Estar acá y estar ahora”: a iconicidade do tambor chico que nos mantém presentes

O neologismo que dá título ao álbum “Taracá” não é nome de alguma canção específica no disco, mas reaparece na canção “El tambor chico”. No ritmo uruguaio candombe, o tambor chico é o instrumento de percussão responsável pela marcação do tempo.

Na letra, para referir-se ao som que tal tambor produz, Drexler recorre mais de uma vez ao neologismo, em versos como estes: “Con su cadencia tocadora (taracá, taracá, taracá)/ Que te hace estar acá y ahora (taracá, taracá, taracá)”.

Dessa forma, em um engenhoso jogo linguístico, o compositor promove um encontro entre forma e conteúdo. De um lado, sugere-se que o ato de tocar um tambor exige atenção, presença, algo a que muitas vezes se remete atualmente pelo estrangeirismo “mindfulness”. De outro, o próprio som produzido pelo tambor (“taracá, taracá, taracá”) se converte em um significante para o significado “estar acá”.

Assim, “taracá” desafia o princípio da arbitrariedade do signo linguístico, remetendo a outro fenômeno: o da iconicidade (grosso modo, é o que se dá quando a forma de uma expressão linguística “imita” ou “reflete” o seu conteúdo). Há uma iconicidade imagética em “taracá” ao evocar o som percussivo; além disso, ocorre uma espécie de “iconicidade pragmática”, já que a forma sonora, imitando o tambor, conduz o ouvinte a “estar presente”.

As línguas se fazem em seu acá y ahora

A criação de “taracá” nos lembra que as palavras não surgem apenas para nomear um mundo preexistente, mas também criar modos “de ser e de estar” (recorrendo a um famoso poeta da nossa música). A aférese e a junção fonética são mobilizadas pelo compositor para verter “estar acá” em “taracá”, transformando o som do tambor em linguagem e a linguagem em presença.

Unindo forma e conteúdo, Drexler nos convida a perceber aquilo que a própria língua, em sua evolução, tantas vezes evidencia: falar a língua de certo tempo e de certo lugar é uma forma de estar. Nossa variedade linguística contemporânea torna-se, assim, uma forma de estar aqui e agora. jornal.usp.br