Cientista também posta story

Por Giovanna Mafra, estudante de graduação do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP

Ao imaginar um cientista, ainda é comum recorrer a um estereótipo: um homem mais velho, de cabelo branco e jaleco, ou até mesmo a figura do “cientista maluco”. A associação com Albert Einstein pode até parecer inevitável. Mas cientistas, de fato, se parecem com isso?
Dados do Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPq mostram que os pesquisadores brasileiros têm uma diversidade tanto de idade quanto de gênero. Além disso, nem todo cientista usa jaleco. A ciência abrange uma ampla variedade de áreas, da biologia à física, da geografia à linguística, da sociologia à filosofia. Tudo aquilo que desperta perguntas e curiosidade é combustível para fazer ciência e pode se tornar objeto de investigação.

Um dos pilares da ciência é o compromisso com evidências. Não se trata de opinião, mas de dados, estatísticas, teorias e estudos que sustentam o que é afirmado. O conhecimento científico se constrói por meio de um método: a formulação de perguntas, a definição de objetivos, a investigação, a busca por fontes e a realização de experimentos, seja para comprovar hipóteses ou descobrir algo novo.

Mas o papel do cientista não termina na produção do conhecimento. Como destacou o divulgador científico brasileiro José Reis, “minha satisfação científica poderia estar satisfeita, mas o fruto de meu trabalho se perderia se este não fosse desenvolvido em íntimo contato com as populações…”. A ciência é feita para a sociedade e deve retornar a ela.

Durante muito tempo, consolidou-se a imagem do cientista na chamada “torre de marfim”: distante, utilizando uma linguagem complexa e inacessível. No entanto, a produção científica não chega ao público apenas por meio de artigos acadêmicos, ainda mais com o uso de vocabulário técnico e, em alguns casos, disponibilidade apenas em revistas de acesso pago.

Nesse contexto, a divulgação científica ganha papel central. Notícias, reportagens e conteúdos digitais tornam-se pontes entre o conhecimento produzido e a população. No entanto, essa mediação nem sempre ocorre de forma precisa.

Um exemplo recente ilustra esse problema: a repercussão de pesquisas sobre polilaminina associada a possíveis tratamentos para lesões medulares. Manchetes como “Professora desenvolve medicamento capaz de reverter lesão medular” podem levar à interpretação de que existe um tratamento pronto e comprovado. Entretanto, outras reportagens apontam que ainda não há confirmação sobre segurança e eficácia, ressaltando a importância da revisão por pares, que é uma etapa fundamental em que outros cientistas avaliam a pesquisa antes de sua validação.

Esse tipo de distorção evidencia como a simplificação excessiva pode gerar desinformação. Muitas vezes, a manchete se torna suficiente para formar uma opinião, sem que o conteúdo completo seja lido.

Estudos sobre desinformação ajudam a entender por que corrigir uma informação falsa nem sempre é suficiente. A chamada Lei de Brandolini indica que o esforço necessário para refutar uma informação incorreta é muito maior do que aquele necessário para criá-la e disseminá-la.

Esse fenômeno pode ser observado em experimentos como o de De Keersmaecker e Roets, no qual participantes foram convidados a avaliar uma pessoa desconhecida com base em informações posteriormente comprovadas como falsas. Mesmo após serem informados do erro, parte dos participantes manteve suas impressões iniciais, especialmente aqueles com menor capacidade de revisão crítica.

Os resultados mostram que a desinformação pode continuar influenciando julgamentos mesmo depois de corrigida, evidenciando que seu impacto não é facilmente revertido. Em outras palavras, corrigir uma informação falsa exige esforço adicional e nem sempre é suficiente para neutralizar seus efeitos iniciais.

Diante disso, torna-se essencial questionar as fontes de informação: quem está falando? Há formação ou conhecimento na área? A informação apresentada tem base científica?

É nesse ponto que o universo dos cientistas e o dos influenciadores digitais se encontram. Consumir ciência de quem faz ciência passa a ser uma necessidade. Se a rotina de tantos influenciadores é amplamente acompanhada, por que a rotina de quem produz conhecimento ainda é pouco visível?

Humanizar a ciência não é uma questão de vaidade, mas de aproximação. Por trás de cada pesquisa existe uma pessoa que investiga, erra, aprende e recomeça. E essas pessoas também estão nas redes sociais.

A ciência não precisa “descer da torre de marfim” porque nunca deveria ter sido colocada ali. Ela está presente nas escolas, universidades, ruas e, cada vez mais, nos ambientes digitais. Afinal, a ciência é produzida por pessoas reais, inseridas no mundo real.

Em um cenário marcado por achismos e pela rápida disseminação de informações, o papel do cientista na comunicação pública torna-se ainda mais relevante. Como aponta Natália Pasternak, em uma crônica, a desinformação muitas vezes começa com pequenos equívocos que, ao longo do tempo, se ampliam e se tornam difíceis de combater. Quando a comunidade científica tenta reagir, pode já ter perdido espaço e visibilidade. “E quando decidimos falar, porque a situação se tornou séria e perigosa, nossa voz tinha sumido. E nem sabíamos que não tínhamos voz, porque não estávamos acostumados a usá-la. E quando finalmente conseguimos falar, ninguém ouviu. E por que ouviriam? Ninguém sabia quem éramos. ‘Cientistas? Eles não querem ajudar a população’.”

Esse contexto evidencia a necessidade de ocupar novos espaços de comunicação. Se cientistas não participam ativamente desses ambientes, outras vozes passam a falar em seu lugar, nem sempre com o mesmo compromisso com a precisão.

Assim, a presença da ciência nas redes sociais deixa de ser opcional e passa a ser estratégica. Não se trata apenas de divulgar resultados, mas de tornar visível quem produz conhecimento e como ele é construído.

Ao ampliar essa presença, não se transforma apenas o acesso à informação científica, mas também a forma como a sociedade enxerga quem faz ciência. jornal.usp.br