Negociação entre EUA e Irã na Suíça é cancelada e aumenta incertezas sobre acordo nuclear

Cancelamento de reunião prevista para esta sexta-feira amplia dúvidas sobre a estabilidade do cessar-fogo e o futuro das negociações nucleares entre Washington e Teerã.

As negociações entre Estados Unidos e Irã que estavam previstas para ocorrer nesta sexta-feira (19), na Suíça, foram canceladas, aumentando as incertezas sobre a manutenção da trégua no Oriente Médio e o avanço de um novo acordo nuclear entre os dois países. As informações são da Reuters.

O encontro seria realizado na estação alpina de Burgenstock, mas acabou suspenso após o vice-presidente norte-americano, JD Vance, desistir da viagem. O Ministério das Relações Exteriores da Suíça confirmou o cancelamento da reunião, sem divulgar detalhes sobre os motivos.

Segundo a Casa Branca, a complexidade das negociações sempre representou um desafio. Em nota, um porta-voz do governo afirmou que a delegação dos Estados Unidos estava pronta para embarcar assim que os últimos detalhes fossem definidos.

A suspensão da reunião ocorre em um momento delicado para a diplomacia regional. O Irã havia sinalizado disposição para iniciar discussões técnicas após a assinatura, na quarta-feira, de um acordo provisório de 14 pontos que prorrogou por pelo menos 60 dias um cessar-fogo considerado frágil.

Antes do anúncio oficial, a agência iraniana Tasnim informou que Teerã aguardava sinais concretos de que Washington estava cumprindo os compromissos assumidos no acordo. Também não havia confirmação sobre o envio de uma delegação iraniana à Suíça.

Autoridades norte-americanas planejavam realizar uma cerimônia formal para consolidar o entendimento firmado entre os dois países. O governo iraniano, entretanto, questionou a necessidade do evento, argumentando que o acordo já havia sido assinado pelas lideranças dos dois países.

Pressões políticas e custos da guerra

Nos Estados Unidos, o acordo passou a enfrentar resistência entre aliados republicanos do presidente Donald Trump. Parlamentares do partido questionam se o governo concedeu benefícios excessivos ao Irã para encerrar um conflito que vinha enfrentando crescente rejeição da opinião pública, especialmente às vésperas das eleições legislativas de novembro.

Embora Trump tenha defendido anteriormente que a guerra terminaria apenas com a rendição incondicional iraniana, o acordo prevê medidas como flexibilização de sanções econômicas, desbloqueio de ativos bilionários e facilitação das exportações de petróleo do país persa.

O líder supremo iraniano, o aiatolá Mojtaba Khamenei, afirmou que o entendimento foi firmado por pressão política sobre Washington e alertou que as futuras negociações sobre o programa nuclear não serão simples.

“Se os Estados Unidos adotarem exigências excessivas, não aceitaremos”, declarou.

O acordo estabelece um prazo de 60 dias para que os dois países avancem nas discussões sobre o programa nuclear iraniano, com possibilidade de prorrogação. O texto também prevê a criação de um fundo de reconstrução de US$ 300 bilhões e outros mecanismos de apoio econômico ao Irã.

Além disso, o governo norte-americano pretende incluir nas negociações limitações ao desenvolvimento de mísseis de longo alcance por parte de Teerã.

Enquanto isso, o custo da guerra continua gerando preocupação em Washington. De acordo com o Wall Street Journal, o Departamento de Defesa informou ao Congresso que poderá precisar de cerca de US$ 80 bilhões adicionais para cobrir despesas relacionadas ao conflito.

Objetivos estratégicos permanecem indefinidos

Quando os Estados Unidos e Israel iniciaram a ofensiva militar contra o Irã, há cerca de quatro meses, Trump afirmou que os objetivos eram eliminar a capacidade nuclear iraniana, reduzir sua influência militar na região e enfraquecer grupos aliados de Teerã.

No entanto, analistas apontam que muitos desses objetivos ainda permanecem em aberto.

No acordo provisório, o Irã reafirmou que não pretende desenvolver armas nucleares, posição que vem sendo sustentada oficialmente há décadas, mas que continua sendo recebida com cautela por sucessivos governos norte-americanos.

O país também aceitou reduzir seus estoques de urânio altamente enriquecido e ampliar as inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). Contudo, recusou a proposta de transferir esse material para fora de seu território.

Apesar das dificuldades, autoridades americanas afirmam que ainda existe a possibilidade de construção de um acordo mais abrangente, que supere o pacto nuclear firmado em 2015 e abandonado pelos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Trump.

Petróleo e Estreito de Hormuz seguem no centro das atenções

Outro ponto considerado estratégico é o controle do Estreito de Hormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo e gás natural.

O governo iraniano informou que continuará administrando a passagem em cooperação com Omã e avalia a cobrança de taxas de serviço para embarcações que utilizem a rota após o período de negociações.

Com a retomada parcial da circulação de petroleiros pela região, os preços internacionais do petróleo registraram queda nesta sexta-feira. Antes do conflito, cerca de 20% do fornecimento global de petróleo e gás natural liquefeito passava pelo estreito.

Conflito no Líbano ameaça estabilidade do acordo

Embora as negociações envolvam diretamente Estados Unidos e Irã, a continuidade dos confrontos entre Israel e o grupo Hezbollah, no Líbano, representa um desafio adicional para a estabilidade regional.

Segundo a agência estatal libanesa NNA, ataques israelenses realizados nesta sexta-feira deixaram ao menos 15 mortos. Israel informou que as ações tinham como alvo posições do Hezbollah.

O acordo prevê o encerramento permanente das hostilidades no território libanês, mas o governo israelense já indicou que não pretende retirar suas tropas da região e apresentou um novo mapa com áreas ampliadas de ocupação.

A postura de Israel levanta questionamentos sobre a capacidade dos Estados Unidos de garantir o cumprimento dos termos negociados e reforça as incertezas sobre a sustentabilidade do cessar-fogo.

Com o cancelamento das conversas na Suíça, permanecem indefinidos os próximos passos das negociações entre Washington e Teerã, enquanto as disputas no Líbano, o programa nuclear iraniano e a segurança do Estreito de Hormuz continuam entre os principais fatores de instabilidade no Oriente Médio.