Cientistas alertam para avanço de fungos resistentes e defendem ações globais urgentes

Pesquisadores de diversos países defendem que o combate à resistência de fungos a medicamentos seja tratado como prioridade no novo Plano de Ação Global sobre Resistência Antimicrobiana da Organização Mundial da Saúde (OMS), previsto para ser atualizado ainda este ano. O alerta foi publicado na revista científica Nature Medicine e destaca os riscos crescentes para a saúde humana.

Segundo os autores do estudo, a resistência antifúngica está se expandindo entre microrganismos causadores de doenças graves, reduzindo a eficácia dos tratamentos disponíveis e aumentando a mortalidade associada às infecções fúngicas.

Entre os pesquisadores que assinam o artigo está o infectologista Arnaldo Lopes Colombo, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Ele defende a criação imediata de uma força-tarefa internacional reunindo especialistas em saúde humana, animal e ambiental para enfrentar o problema de forma integrada.

A resistência antimicrobiana ocorre quando bactérias, fungos e outros microrganismos deixam de responder aos medicamentos utilizados para combatê-los. Embora as bactérias resistentes recebam maior atenção da comunidade científica, os especialistas alertam que os fungos resistentes representam uma ameaça crescente e ainda pouco reconhecida.

O problema ganhou destaque durante a pandemia de COVID-19, quando infecções fúngicas secundárias contribuíram para agravar o quadro clínico de pacientes internados em unidades de terapia intensiva.

Um dos desafios para o desenvolvimento de novos antifúngicos é a semelhança biológica entre fungos e seres humanos. Como ambos possuem células complexas, torna-se mais difícil criar medicamentos que ataquem apenas os fungos sem causar efeitos indesejados ao organismo humano.

Os pesquisadores também chamam atenção para o papel do uso indiscriminado de fungicidas na agricultura, na indústria e na medicina veterinária. Segundo o estudo, a exposição frequente dos fungos a essas substâncias favorece o surgimento de cepas resistentes, que podem comprometer tratamentos médicos e até impactar a segurança alimentar.

Para enfrentar o problema, o grupo propõe uma estratégia baseada no conceito de Saúde Única (One Health), que integra ações voltadas à saúde humana, animal e ambiental. Entre as medidas sugeridas estão o fortalecimento da vigilância epidemiológica, a ampliação do acesso a testes diagnósticos rápidos, o incentivo ao desenvolvimento de novos medicamentos e a garantia de acesso equitativo aos tratamentos.

Os cientistas também defendem a capacitação de laboratórios hospitalares para monitorar a resistência antifúngica, a adoção de protocolos para prevenir a disseminação desses microrganismos em hospitais e a criação de programas nacionais de uso racional de antifúngicos na medicina humana, veterinária e no setor agropecuário.

A expectativa dos autores é que a atualização das diretrizes da OMS incorpore essas recomendações e fortaleça a resposta global a uma ameaça considerada cada vez mais urgente para a saúde pública.