A Copa das apostas: a FIFA e a nova economia política do futebol

Por Marco Antonio Bettine de Almeida, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

ACopa do Mundo de 2026 já ocupa um lugar singular na história do futebol. Realizada simultaneamente nos Estados Unidos, Canadá e México, ela representa não apenas a maior edição do torneio em número de seleções, jogos e receitas, mas também a consolidação de um novo modelo econômico baseado na convergência entre esporte, plataformas digitais, dados e mercados financeiros. Entre as transformações mais significativas desse processo destaca-se a institucionalização das apostas esportivas como parte integrante da estratégia comercial da FIFA.
relação entre futebol e apostas não é nova. Desde os primeiros sistemas de prognósticos esportivos do século 20, o jogo sempre esteve conectado a formas de especulação econômica. O que se modifica na Copa de 2026 é a posição ocupada por esse setor dentro da arquitetura institucional do futebol global. Se durante décadas as entidades esportivas procuraram manter certa distância simbólica em relação às casas de apostas, atualmente observa-se um movimento de integração formal entre a governança do esporte e a indústria global do gambling. Como observou o Financial Times, o mercado mundial de apostas esportivas tornou-se um dos segmentos de crescimento mais acelerado da economia do entretenimento, impulsionado pela digitalização, pela expansão dos aplicativos móveis e pela liberalização regulatória em diversos países.

Essa aproximação tornou-se explícita quando a FIFA anunciou a Betano como patrocinadora oficial da Copa do Mundo de 2026 para mercados estratégicos da Europa e da América do Sul. A decisão amplia uma relação iniciada em 2022 e sinaliza o reconhecimento institucional de um setor que passou a ocupar posição central na economia do esporte contemporâneo. Reportagens da Reuters e do The Athletic destacaram que a entrada das empresas de apostas no círculo dos patrocinadores globais da FIFA representa uma mudança histórica na composição das receitas do futebol internacional.

A transformação, contudo, vai muito além do patrocínio. Em janeiro de 2026, a FIFA firmou um acordo global com a Stats Perform para a distribuição oficial de dados da Copa do Mundo destinados ao mercado licenciado de apostas esportivas. A decisão revela uma mudança estrutural na forma como o valor econômico do futebol é produzido. Os eventos que ocorrem dentro de campo, passes, finalizações, deslocamentos, faltas, escanteios e métricas de desempenho, deixam de ser apenas informações esportivas para se converterem em ativos digitais comercializáveis em tempo real.

Sob essa perspectiva, a Copa de 2026 confirma tendências mais amplas do capitalismo contemporâneo. Shoshana Zuboff mostrou que os dados comportamentais se tornaram uma das principais matérias-primas da economia digital. No futebol, o próprio fluxo do jogo converte-se em fonte permanente de extração econômica.

A dinâmica pode ser compreendida também a partir do conceito de dataficação desenvolvido por José van Dijck e aprofundado por Nick Couldry e Ulises Mejias. Segundo esses autores, atividades humanas passam a ser sistematicamente transformadas em dados passíveis de armazenamento, circulação e comercialização.

O jogo deixa de ser apenas um evento cultural compartilhado para tornar-se simultaneamente uma plataforma de captura de dados, circulação financeira e especulação permanente. O acontecimento esportivo converte-se, ao mesmo tempo, em ativo financeiro.

Nesse sentido, a parceria da FIFA com empresas de apostas e distribuidoras globais de dados não representa apenas uma estratégia comercial. Ela expressa a expansão da racionalidade econômica para o interior de uma prática cultural historicamente associada ao lazer, à sociabilidade e à construção de identidades coletivas. O que Habermas denominou colonização do mundo da vida manifesta-se aqui na transformação do futebol em uma infraestrutura de monetização contínua, na qual os significados culturais do jogo passam a coexistir, e, por vezes, a subordinar-se, às exigências dos mercados de dados, das plataformas digitais e da economia global das apostas. jornal.usp.br