Quem pode entrar nos Estados Unidos? A Copa das “pessoas certas”

Por Marco Antonio Bettine de Almeida, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

Poucas Copas do Mundo nasceram carregando uma contradição tão evidente quanto a de 2026. Concebida para simbolizar a integração continental e a cooperação entre três países, ela passou a conviver, desde seus primeiros dias, com fronteiras mais rígidas, controles migratórios reforçados e intensos debates sobre quem pode circular livremente pelo território norte-americano. O torneio que se apresenta como a maior celebração da globalização do futebol tornou-se, simultaneamente, um dos espaços mais visíveis das disputas contemporâneas sobre soberania, imigração e pertencimento.

Essa tensão já estava presente na própria candidatura vencedora da Fifa. Quando a entidade anunciou que Estados Unidos, Canadá e México sediariam conjuntamente a Copa do Mundo, o projeto recebeu um nome carregado de significado político: United 2026. A escolha não foi casual. A candidatura procurava projetar a imagem de uma América do Norte integrada, capaz de superar fronteiras nacionais em torno de um grande evento esportivo. Cooperação regional, circulação de torcedores, infraestrutura compartilhada e intercâmbio cultural apareciam como pilares de uma narrativa que prometia apresentar o futebol como símbolo de união entre povos.

Ao longo das últimas décadas, praticamente todas as Copas do Mundo passaram a refletir as grandes controvérsias políticas de seu tempo. Em 2018, na Rússia, o debate internacional concentrou-se no autoritarismo de Vladimir Putin e na utilização do torneio como instrumento de projeção internacional do Estado russo. Em 2022, no Catar, as discussões foram dominadas pelas condições de trabalho dos migrantes, pelos direitos humanos e pelas restrições aos direitos da população LGBTQIA+. A Copa de 2026 inaugura um novo cenário. A principal controvérsia já não está concentrada na construção dos estádios ou nas denúncias de corrupção envolvendo a Fifa, mas na tensão entre a lógica cosmopolita que sustenta o futebol global e o fortalecimento de políticas nacionalistas e restritivas de circulação no principal país-sede, os Estados Unidos.

A própria natureza da Copa do Mundo é profundamente cosmopolita. O torneio depende da circulação permanente de atletas, árbitros, jornalistas, dirigentes, turistas e milhões de torcedores provenientes de praticamente todos os continentes. Poucos acontecimentos contemporâneos conseguem reunir tantas nacionalidades compartilhando simultaneamente um mesmo espaço simbólico. Como observam autores como Roland Robertson, Arjun Appadurai e Ulrich Beck, a intensificação dos fluxos transnacionais transformou profundamente as formas de pertencimento e interação no mundo globalizado. Nesse contexto, a Copa tornou-se uma das expressões mais visíveis desse imaginário cosmopolita.

É justamente por isso que a edição de 2026 revela um paradoxo singular. Pela primeira vez, uma Copa do Mundo acontece em um contexto no qual a livre circulação, condição indispensável para o próprio funcionamento do torneio, passa a conviver com políticas que reforçam o controle das fronteiras. A imagem que sintetiza essa edição talvez seja justamente esta: de um lado, a fronteira fechada; de outro, a Copa aberta.

Essa contradição rapidamente deixou de ser apenas simbólica. Na véspera da abertura do Mundial, questionado sobre as dificuldades enfrentadas por visitantes para obtenção de vistos, Donald Trump afirmou que sua administração trabalhava para garantir a entrada das “pessoas certas” (the right people) nos Estados Unidos. A declaração estabeleceu uma relação direta entre política migratória e realização da Copa, alimentando preocupações expressas por organizações de direitos humanos e pela imprensa internacional quanto às dificuldades enfrentadas por atletas, jornalistas e torcedores estrangeiros. Aeroportos, consulados e postos de controle de fronteira passaram a integrar a própria experiência do Mundial.

Mais do que um episódio isolado, essas declarações evidenciam uma mudança mais profunda. A Copa de 2026 tornou-se palco do confronto entre duas racionalidades distintas.

De um lado, o futebol continua dependente da circulação internacional de pessoas, capitais e culturas. De outro, o fortalecimento de políticas soberanistas reafirma a centralidade das fronteiras nacionais como instrumento de controle da mobilidade humana. O conflito deixa de envolver apenas governos específicos e passa a revelar uma tensão estrutural entre globalização e nacionalismo.

Nesse cenário, também se destaca o papel desempenhado pela própria Fifa. Desde a apresentação da candidatura, a entidade procurou construir uma narrativa baseada na ideia de unidade continental. O lema United As One transformou-se na principal identidade simbólica da competição, reforçando valores de integração e convivência entre diferentes povos. Entretanto, à medida que as tensões migratórias ganharam visibilidade durante o torneio, essa narrativa passou a conviver com uma realidade política muito mais complexa. Sem confrontar diretamente as políticas migratórias adotadas pelo governo norte-americano, Infantino manteve o discurso de união, preservando a estabilidade institucional do evento e seus interesses comerciais. Como em outras edições recentes da Copa, a entidade mostrou sua capacidade de administrar simbolicamente conflitos políticos sem necessariamente enfrentá-los.

Não por acaso, parte significativa da imprensa internacional passou a interpretar o Mundial a partir do protagonismo político da Casa Branca. O jornal The Guardian, por exemplo, definiu o torneio como “Trump’s World Cup“, argumentando que as políticas migratórias, o nacionalismo e a crescente proximidade entre Gianni Infantino e Donald Trump passaram a moldar a percepção pública da competição. O futebol deixava de ser visto apenas como espetáculo esportivo para transformar-se também em um espaço de disputa simbólica, onde diferentes projetos de sociedade competem por legitimidade diante de uma audiência global.

A imagem da “Copa aberta” coexistindo com a “fronteira fechada” talvez permaneça como um dos símbolos mais duradouros desta edição e como um retrato das tensões que caracterizam a geopolítica do século 21. jornal.usp.br