Árvores gigantes desafiam limites da natureza para levar água até o topo

Estudo revela que espécies de até 70 metros desenvolveram adaptações que garantem o transporte de água e as tornam tão resistentes à seca quanto árvores menores

Árvores gigantes das florestas tropicais, com altura equivalente à de edifícios de até 30 andares, conseguem transportar água da raiz até a copa sem perder eficiência e não são mais vulneráveis à seca do que árvores de menor porte. A descoberta, publicada na revista Science, derruba uma das principais hipóteses da botânica sobre os limites do crescimento dessas espécies.

Além de ampliar o conhecimento sobre o funcionamento das maiores árvores tropicais do planeta, o estudo ajuda a explicar como elas continuam crescendo apesar das limitações impostas pela gravidade e reforça sua importância para o equilíbrio climático, já que armazenam grandes quantidades de carbono e contribuem para o ciclo das chuvas.

Até então, acreditava-se que árvores muito altas enfrentavam dificuldades para transportar água até as folhas, o que reduziria a fotossíntese, limitaria o crescimento e aumentaria a suscetibilidade à seca. No entanto, os pesquisadores identificaram que essas espécies desenvolveram adaptações internas capazes de compensar esse desafio.

O principal mecanismo está no xilema — tecido responsável pelo transporte de água e nutrientes. À medida que a árvore cresce, os canais condutores tornam-se mais largos, reduzindo a resistência ao fluxo de água. Na prática, é como aumentar o diâmetro de uma mangueira para levar água a uma distância maior.

As folhas também apresentam adaptações. Apesar de estarem submetidas a um potencial hídrico mais baixo devido à altura, elas desenvolveram maior tolerância à desidratação, mantendo o funcionamento fisiológico sem comprometer significativamente a fotossíntese.

Segundo Paulo Bittencourt, professor da Universidade Cardiff e pesquisador colaborador da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o resultado surpreendeu a equipe.

“Era amplamente aceito que árvores maiores enfrentavam maior dificuldade para transportar água e, por isso, seriam mais vulneráveis às secas. Descobrimos que elas possuem mecanismos internos capazes de compensar esse desafio”, afirma.

O pesquisador destaca ainda a importância ecológica dessas árvores. Embora representem apenas cerca de 1% dos indivíduos das florestas tropicais, elas armazenam mais da metade do carbono presente nesses ecossistemas e exercem papel fundamental na regulação do clima.

Escalando gigantes da floresta

A pesquisa analisou 38 árvores da família Dipterocarpaceae, pertencentes a cinco espécies, na Reserva Florestal Kabili-Sepilok, na ilha de Bornéu, na Malásia. Os exemplares variavam entre 7 e 71 metros de altura e estão entre as árvores com flores mais altas do mundo.

O trabalho de campo exigiu uma operação especializada de escalada. Profissionais treinados coletaram galhos em copas com mais de 70 metros de altura, muitas vezes durante a noite, para garantir condições adequadas às medições.

Segundo Bittencourt, trata-se de uma atividade extremamente complexa, que exige preparo técnico, conhecimento da floresta e avaliação constante das condições de segurança durante a subida.

A experiência adquirida em Bornéu também foi levada à Amazônia brasileira, onde escaladores de comunidades ribeirinhas passaram por treinamento para colaborar em pesquisas semelhantes. Parte dos resultados desses estudos deve ser divulgada ainda em 2026.

Resistência às mudanças climáticas

Para avaliar os efeitos da seca, os cientistas acompanharam o crescimento das árvores antes, durante e depois do forte evento de El Niño de 2023-2024, um dos mais intensos já registrados.

As medições mostraram que as árvores mais altas não apresentaram redução de crescimento superior à observada nas menores durante o período de estiagem. Isso indica que a altura, por si só, não aumenta a vulnerabilidade dessas espécies ao estresse hídrico.

Os pesquisadores sugerem que fatores como o microclima da copa, o sombreamento e outras adaptações fisiológicas podem ser mais importantes para determinar a sobrevivência das árvores durante secas extremas.

Para Rafael Oliveira, do Centro de Ecologia Integrativa da Unicamp, os resultados apontam para uma nova compreensão sobre a resposta das florestas às mudanças climáticas.

“Os achados mostram que outros mecanismos fisiológicos e anatômicos podem ser mais importantes do que a altura para explicar a sobrevivência dessas árvores. Isso permitirá desenvolver modelos mais precisos sobre o funcionamento das florestas em um clima cada vez mais seco”, afirma.

Os cientistas também investigam outros fatores que podem favorecer essa resistência, como a capacidade das folhas mais altas de absorver água diretamente da neblina e do orvalho, contribuindo para manter a hidratação mesmo em períodos de estiagem.

O estudo representa um avanço importante para a compreensão da biologia das árvores gigantes e oferece novas evidências para orientar estratégias de conservação das florestas tropicais diante das mudanças climáticas.