França/Marrocos: a Copa mudou, a xenofobia não

Por Marco Antonio Bettine de Almeida, professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

Quatro anos depois da semifinal de 2022, o novo confronto mostrou que o futebol continua reproduzindo as fronteiras raciais e pós-coloniais da sociedade francesa.
O confronto entre França e Marrocos, em 9 de julho de 2026, poderia ter sido apenas mais um grande jogo de Copa do Mundo. Duas seleções competitivas, formadas por jogadores cujas trajetórias atravessam diferentes países, línguas e tradições culturais, disputavam uma vaga na semifinal. Mas, antes mesmo de a bola rolar, a partida já havia sido transformada: um debate sobre imigração, segurança pública, identidade nacional e lealdade à França.

Não era uma novidade. Quatro anos antes, na semifinal da Copa de 2022, a campanha histórica do Marrocos também havia sido acompanhada por uma onda de discursos xenófobos e anti-imigração. Em setores da extrema direita francesa, o apoio de cidadãos franco-marroquinos à seleção africana foi apresentado como prova de que esses grupos sociais nunca teriam se integrado plenamente à França.

O jogo deixou, então, de ser entendido como uma disputa esportiva, passando a funcionar como uma espécie de teste de nacionalidade. Para muitos cidadãos franco-marroquinos, torcer pelo Marrocos tornou-se motivo de suspeita. A dupla pertença, ser francês e manter vínculos afetivos ou culturais com o país de origem de sua família, foi interpretada como divisão, deslealdade ou ameaça.

Em 2022, a revista conservadora Valeurs actuelles publicou o artigo France-Maroc, le match identitaire. O texto apresentava os conflitos urbanos ocorridos durante as celebrações como manifestação de uma suposta “francofobia” da juventude de origem magrebina. O Riposte Laïque, publicação vinculada à direita radical, foi ainda mais direto ao empregar a expressão “violências marroquinas”. A linguagem escolhida pelo jornal fora carregada de significado simbólico. A violência deixava de ser um comportamento praticado por indivíduos determinados e passava a ser apresentada como característica de uma nacionalidade.

Essa operação discursiva possui raízes profundas na história colonial francesa. Durante o período colonial, as populações do Norte da África foram classificadas, administradas e representadas como culturalmente inferiores, politicamente imaturas ou permanentemente ameaçadoras. A independência dos países do Magrebe encerrou a dominação jurídica direta, mas não eliminou os imaginários produzidos por ela.

Frantz Fanon, que analisou os efeitos psicológicos e políticos do colonialismo francês, mostrou que a ordem colonial não termina simplesmente com a retirada das administrações coloniais. Ela pode continuar presente nas hierarquias raciais, nas instituições e nas formas pelas quais determinados corpos são percebidos e tratados.

É exatamente isso que se observa quando um cidadão francês de origem europeia pode torcer, celebrar ou criticar a seleção sem ter sua nacionalidade colocada em questão, enquanto um cidadão francês de origem marroquina precisa demonstrar permanentemente sua fidelidade. A cidadania jurídica é a mesma, mas o reconhecimento social é desigual.

Edward Said chamou de orientalismo o sistema de representações por meio do qual o Ocidente construiu o árabe, o muçulmano e o oriental como seus opostos: irracionais, violentos, atrasados ou incapazes de compartilhar os mesmos valores. Nas coberturas de França/Marrocos, esse repertório reaparece em uma linguagem aparentemente atualizada. Já não é necessário recorrer abertamente à ideia de inferioridade racial: fala-se em “incompatibilidade cultural”, “fracasso da integração”, “comunitarismo”, “desordem” e “ameaça à identidade nacional”. É o que Étienne Balibar identificou como um racismo sem raças, no qual a cultura substitui a biologia como justificativa para a exclusão.

Em 2026, o novo confronto futebolístico demonstrou que essa estrutura pouco havia mudado. Antes da partida, meios ligados à direita identitária voltaram a associar a partida à imigração, à presença das diásporas nas ruas e ao risco de desordem. Novamente, bandeiras e manifestações públicas de pertencimento marroquino foram tratadas como sinais de integração incompleta.

Em uma coluna publicada no jornal espanhol El País, Martín Caparrós definiu França/Marrocos como uma “batalha dos imigrantes”. A formulação sintetizava um paradoxo central do futebol europeu: as seleções nacionais dependem cada vez mais de jogadores racializados, binacionais e descendentes de migrantes, enquanto parte do debate político continua tratando essas mesmas populações como ameaça à identidade nacional.

As arquibancadas também participam dessa produção de antagonismos. Nelas, preconceitos dispersos podem adquirir voz, ritmo e expressão coletiva por meio de cânticos, vaias, insultos e gestos. O adversário deixa, então, de representar apenas outra seleção: passa a encarnar as imagens de ameaça, desordem e estrangeiridade que circulam fora do estádio. No caso marroquino, a rivalidade esportiva pode se misturar facilmente a memórias coloniais e a discursos contemporâneos sobre imigração e identidade nacional.

O confronto revela, assim, um problema mais amplo da esfera pública contemporânea. Em vez de promover uma discussão sobre como diferentes vínculos culturais podem coexistir dentro da mesma comunidade política, parte do debate transforma a origem e o pertencimento em motivos de desconfiança. Em uma perspectiva habermasiana, a esfera pública democrática deveria favorecer a circulação de argumentos, a consideração recíproca e a formação pública da opinião e da vontade. Quando dominado por discursos de ódio, desordem e deslealdade, porém, o debate deixa de buscar entendimento e passa a mobilizar identidades contra identidades. A diversidade já não é tratada como uma realidade legítima da democracia, mas como risco para a unidade nacional.

Entre 2022 e 2026, França/Marrocos deixou de representar apenas um confronto esportivo. As duas partidas expuseram a permanência de uma estrutura pós-colonial que distribui de maneira desigual o direito de pertencer. O apito final encerrou o jogo, mas não eliminou a distância entre os “verdadeiros franceses” e aqueles cuja cidadania é questionada. A Copa tornou-se maior e mais diversa. A França também já é uma sociedade plural; o que ainda permanece incompleto é o reconhecimento igual dessa pluralidade. jornal.usp.br