TSE propõe selo para premiar institutos de pesquisa mais acurados nas eleições; setor critica e chama ideia de “confundir ciência com bola de cristal”

Ministro Nunes Marques apresentou o “Selo Acurácia Eleitoral” em reunião com representantes dos institutos. ABEP rebateu a proposta e questiona se cabe à Justiça Eleitoral arbitrar a qualidade científica das pesquisas

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Nunes Marques, lançou nesta terça-feira (14) uma proposta que promete agitar o ambiente das pesquisas eleitorais a menos de quatro meses das eleições de outubro: a criação de um “Selo Acurácia Eleitoral” para reconhecer publicamente os institutos de pesquisa que mais acertarem os resultados das urnas. A ideia foi apresentada em reunião com representantes do setor — e a reação foi imediata.

Proposta Selo: Acurácia Eleitoral (TSE)
Quem sugeriu: Min. Nunes Marques (presidente do TSE)
Data Terça-feira, 14 de julho de 2026
Prazo para sugestões Até sexta-feira, 17 de julho
Quem criticou ABEP — Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa
Contexto Reunião pós-suspensão de pesquisa da AtlasIntel

A reunião que motivou o anúncio foi convocada para discutir novas regras para a divulgação de levantamentos eleitorais após o próprio TSE suspender a publicação de uma pesquisa da AtlasIntel para presidente da República, por suposto descumprimento das normas eleitorais vigentes. O episódio acendeu o debate sobre os limites da regulação judicial sobre o trabalho dos institutos.

Entenda o contexto — caso AtlasIntel: o TSE suspendeu a divulgação de uma pesquisa da AtlasIntel para presidente da República por suposto descumprimento das regras eleitorais. A decisão gerou críticas de institutos e especialistas, que questionaram a legalidade e a proporcionalidade da medida. A reunião desta terça foi convocada justamente para debater novos parâmetros após o episódio.
Como funcionaria o Selo Acurácia Eleitoral

O TSE reconheceria publicamente os institutos com “maior grau de aderência aos resultados oficiais” das eleições.

Os critérios para definir os vencedores ainda serão construídos: o TSE abriu prazo até sexta-feira (17) para receber sugestões.

O objetivo declarado é valorizar boas práticas e estimular o aperfeiçoamento técnico das pesquisas eleitorais.

O reconhecimento seria concedido após as eleições de outubro, com base na comparação entre os resultados projetados e os apurados pelas urnas.

“Trata-se de um mecanismo que visa à valorização das boas práticas e ao permanente aperfeiçoamento técnico das pesquisas eleitorais, por meio do reconhecimento público às empresas que demonstrarem elevada acurácia em seus resultados.”

— Ministro Nunes Marques, presidente do TSE

Mas a proposta não chegou bem ao setor. A Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa (ABEP), entidade que reúne os principais institutos do país, reagiu com uma nota dura — e com um argumento metodológico que vai ao coração da discussão: pesquisa eleitoral não é previsão, é fotografia do momento.

Argumento do TSEO selo premiaria empresas com maior aderência aos resultados oficiais, valorizando o rigor técnico e estimulando o aperfeiçoamento do setor. A iniciativa seria um instrumento de transparência e credibilidade para o eleitor, que poderia identificar quais institutos têm histórico mais preciso.

Argumento da ABEPPesquisas medem a intenção de voto no momento em que são feitas — e não são previsões do resultado final. Entre a coleta e a votação, eleitores mudam de opinião, deixam de votar ou alteram escolhas. Premiar quem “acertou” ignora essa variável e pode estimular práticas oportunistas em detrimento do rigor metodológico.

“Entre a entrevista e a votação, eleitores mudam de opinião, deixam de votar ou alteram seu comportamento. Exigir que uma pesquisa acerte o resultado é confundir ciência com bola de cristal.”

— ABEP, Associação Brasileira de Empresas de Pesquisa, em nota oficial

A ABEP foi além da crítica metodológica e entrou no terreno institucional: questiona se cabe à Justiça Eleitoral assumir o papel de “árbitro” da qualidade científica das pesquisas. A entidade defende que qualquer iniciativa dessa natureza seja construída em conjunto com a comunidade científica e os próprios institutos — e não imposta de cima para baixo. O risco apontado é que o modelo possa, paradoxalmente, desincentivar o rigor e favorecer quem “joga pelo resultado” em detrimento de quem aposta em robustez metodológica.

Antes de 14/07
TSE suspende pesquisa da AtlasIntel para presidente da República por suposto descumprimento das regras eleitorais. Episódio gera debate sobre regulação judicial do setor.
Terça, 14/07
Reunião entre TSE e representantes dos institutos de pesquisa. Nunes Marques apresenta proposta do Selo Acurácia Eleitoral. ABEP reage com nota crítica.
Sexta, 17/07 — prazo
TSE encerra prazo para receber sugestões sobre os critérios de definição dos vencedores do selo.
Outubro de 2026
Eleições municipais. O desempenho dos institutos nas pesquisas será o parâmetro para eventual concessão do selo — se a proposta avançar.

O debate chega em um momento sensível: com as eleições de outubro se aproximando, o ambiente de pesquisas eleitorais já estava tenso após a decisão do TSE sobre a AtlasIntel. A proposta do selo, ao invés de distensionar, parece ter aprofundado a desconfiança entre a Corte e os institutos — e a resposta da ABEP sinaliza que a construção de qualquer novo marco regulatório para o setor deverá ser disputada com intensidade nas próximas semanas.