Estudo aborda experiências adversas na infância em transtornos alimentares

Por Jônatas Oliveira, doutorando pela Faculdade de Medicina da USP

A pesquisa brasileira sobre Transtornos Alimentares (TA) convive com um desafio persistente: ainda são poucos os estudos em que pessoas com TA foram ouvidas a partir de metodologias de pesquisas qualitativas. Recentemente orientei um estudo qualitativo intitulado Experiências adversas na infância nos relatos sobre aceitação e desvalorização em pacientes com compulsão alimentar, no qual, pela primeira vez, eventos adversos na infância foram estudados qualitativamente. O primeiro estudo brasileiro sobre trauma foi publicado em 1994 e, desde então, nada mais neste tema foi explorado em pessoas com TA.
Para não evocar desconfortos com uma entrevista diretiva no assunto, delineei uma metodologia a partir do modelo consagrado na área de TA, que parte do seguinte pressuposto: pessoas com TA apresentam supervalorização da forma/corpo, peso e seu controle. Logo, pensando na infância e nos eventos adversos, a pergunta central do estudo foi: “Quais eventos podem provocar supervalorização da forma/corpo, peso e seu controle?”. E assim, a entrevista pediu para que os participantes narrassem sobre momentos de aceitação e desvalorização, e como essas vivências se conectam a preocupações com imagem corporal e comportamentos alimentares na vida adulta.

A análise temática foi conduzida de forma indutiva, com foco em padrões recorrentes e sentidos compartilhados nos relatos. O roteiro reuniu oito perguntas que funcionaram como eixo do estudo e também como convite à elaboração pessoal: “O que significa ser aceito para você?”, “O que significa ser desvalorizado para você?”, “Você viveu momentos na infância em que não foi aceito?”, “Você viveu momentos na infância em que foi desvalorizado?”, “Você vê uma relação entre aceitação e desvalorização na sua experiência com o transtorno alimentar?”.

Ao solicitar definições pessoais de aceitação e desvalorização, o roteiro abriu espaço para que vulnerabilidades emocionais e dinâmicas interpessoais formativas fossem narradas com vocabulário próprio. As perguntas sobre infância favoreceram a retomada de episódios marcantes sem impor um termo técnico para descrevê-los. As perguntas sobre início dos sintomas, dietas e consequências ajudaram a organizar a sequência entre experiências, interpretações e comportamentos ao longo do tempo.

A análise identificou seis temas: desaprovação e inadequação; desconsideração e valor pessoal; negligência, exclusão e adversidade; corpos indesejados e estigma; comportamentos do transtorno alimentar como controle e evitação; e o peso psicossocial do TA. Mesmo com uma amostra pequena, alguns eventos apareceram repetidamente nos relatos: abuso emocional foi reportado quatro vezes, negligência emocional três vezes, negligência física duas vezes e bullying escolar três vezes. O estudo descreve como experiências de não aceitação e desvalorização, vividas em ambientes familiares e em grupos de pares, foram associadas a modos de se relacionar com o corpo e a comida na vida adulta.

Nos relatos, dietas e mudanças alimentares surgiram como práticas vinculadas a preocupações de saúde e também a expectativas de reconhecimento social. O corpo apareceu como um território atravessado por vergonha e vigilância, com consequências para a autoestima e para a regulação emocional. Nessa trajetória, comer, restringir, evitar e buscar controle assumiram funções psicológicas relacionadas ao manejo de emoções intensas, ao esforço de reconstruir valor pessoal e à tentativa de previsibilidade em contextos percebidos como instáveis.

O artigo descreve ciclos de vergonha, auto-objetificação e estigma internalizado que podem ser intensificados por rejeição, negligência e humilhação corporal, mantendo esquemas disfuncionais e sofrimento psicossocial. No plano clínico, o estudo reforça a importância de integrar história de vida ao cuidado e de considerar, na condução terapêutica, alvos como aceitação, valorização e compaixão. No plano científico, a pesquisa sugere a necessidade de estudos futuros com amostras maiores e mais diversas para refinar achados e ampliar aplicabilidade clínica no Brasil. jornal.usp.br