Hipotireoidismo está associado a maior frequência e gravidade da apneia do sono
Estudo com 761 moradores de São Paulo aponta possível relação bidirecional entre as condições e indica melhora na duração e na qualidade do sono entre pacientes que fazem reposição hormonal
Pessoas com hipotireoidismo apresentam maior frequência e gravidade de apneia obstrutiva do sono (AOS), distúrbio caracterizado por interrupções repetidas da respiração durante a noite. É o que aponta um estudo realizado por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com apoio da FAPESP.
A pesquisa, publicada na revista Sleep, analisou dados de 761 participantes do Estudo Epidemiológico do Sono de São Paulo (EPISONO). Todos passaram por exames laboratoriais e polissonografia, considerada o exame padrão-ouro para avaliação do sono.
O hipotireoidismo foi identificado em 12,6% dos participantes. Entre eles, 49,5% também apresentavam apneia obstrutiva do sono.
“Esperávamos que a prevalência de apneia do sono fosse considerável entre pessoas com hipotireoidismo, mas o resultado foi mais elevado do que imaginávamos”, afirma Ellen Maria Sampaio Xerfan, pós-doutoranda do Departamento de Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina (EPM-Unifesp) e primeira autora do estudo.
Segundo a pesquisadora, trabalhos anteriores apontavam prevalência média entre 30% e 40% de apneia nesse grupo, enquanto a nova análise encontrou o distúrbio em praticamente metade dos participantes com hipotireoidismo.
Relação entre tireoide e sono
O hipotireoidismo ocorre quando a tireoide produz quantidade insuficiente de hormônios responsáveis pela regulação de diversas funções do organismo. Cansaço, sonolência, ganho de peso, pele seca, queda de cabelo, constipação e dificuldade de concentração estão entre os sintomas mais comuns.
Já a apneia obstrutiva do sono provoca episódios repetidos de interrupção da respiração, queda nos níveis de oxigênio e fragmentação do sono. Além de ronco, sonolência durante o dia e problemas de concentração, a condição está relacionada ao aumento do risco de doenças cardiovasculares e metabólicas.
Os pesquisadores observaram que os participantes com hipotireoidismo apresentaram sono mais fragmentado, maior número de despertares e maior ocorrência de apneia. Além disso, quanto maiores os níveis de TSH – hormônio utilizado para avaliar o funcionamento da tireoide –, maior foi a probabilidade de formas mais graves de apneia.
A análise também identificou o movimento inverso: características relacionadas à pior qualidade do sono e à maior gravidade da apneia estavam associadas a uma probabilidade maior de hipotireoidismo. Os resultados sugerem, portanto, uma possível relação bidirecional entre as condições.
“O sono e a tireoide estão ligados a mecanismos fundamentais de homeostase. Existe uma interação complexa entre os sistemas, e tanto alterações de sono podem influenciar a regulação hormonal quanto disfunções da tireoide podem afetar a qualidade de sono”, explica Xerfan.
Para Monica Levy Andersen, professora da EPM-Unifesp e orientadora do estudo, os resultados reforçam a importância de uma avaliação mais ampla dos pacientes.
“Hoje, quando um paciente procura atendimento, raramente o sono é investigado de forma aprofundada. Muitas vezes ele relata cansaço, alterações metabólicas ou outros sintomas, mas nem sempre se considera que um distúrbio do sono possa estar contribuindo para esse quadro”, afirma.
Tratamento melhora duração do sono
O estudo também avaliou os efeitos da reposição hormonal utilizada no tratamento do hipotireoidismo. Entre os participantes diagnosticados com a doença, aqueles que estavam em tratamento dormiam, em média, 49 minutos a mais por noite em comparação aos não tratados.
Também permaneciam cerca de 22 minutos a mais no estágio N3, conhecido como sono profundo e relacionado a processos como recuperação física, reparação dos tecidos e consolidação da memória.
Segundo Xerfan, os resultados sugerem efeito positivo da reposição hormonal sobre a arquitetura do sono.
A levotiroxina, utilizada no tratamento do hipotireoidismo, auxilia na normalização dos níveis dos hormônios tireoidianos e esteve associada tanto ao aumento da duração total do sono quanto à melhora de sua organização.
As pesquisadoras ressaltam, porém, que tratar o hipotireoidismo não substitui o diagnóstico e o tratamento específico da apneia.
“As evidências sugerem que tratar o hipotireoidismo pode contribuir para a melhora de alguns parâmetros do sono, mas isso não dispensa a avaliação e o tratamento específico da apneia do sono. São duas condições distintas, que podem interagir e potencializar riscos cardiovasculares”, explica Andersen.
A atenção simultânea às duas doenças é especialmente importante porque ambas, quando não tratadas adequadamente, estão associadas ao aumento do risco cardiovascular. Enquanto a apneia provoca quedas repetidas na oxigenação e maior sobrecarga do sistema cardiovascular, o hipotireoidismo pode favorecer alterações metabólicas e ganho de peso.
Os pesquisadores pretendem agora acompanhar os participantes do EPISONO para investigar mais profundamente essa relação, incluindo a possibilidade de tratamentos para apneia provocarem mudanças nos parâmetros da função tireoidiana.
Para Xerfan, os resultados deixam um alerta para a prática clínica: profissionais que acompanham pacientes com apneia devem considerar a avaliação da função tireoidiana, enquanto pessoas com hipotireoidismo podem se beneficiar da investigação de possíveis distúrbios do sono.
O diagnóstico precoce e o tratamento adequado das duas condições podem contribuir para melhorar a qualidade de vida e reduzir riscos à saúde.