Redes sociais ampliam debate sobre saúde íntima, mas também espalham desinformação
Pesquisa do UNICEF mostra que quase nove em cada dez adolescentes brasileiros comparam o próprio corpo com o de outras pessoas; especialista alerta para os riscos de buscar informações em influenciadores em vez de profissionais de saúde
Quase nove em cada dez adolescentes brasileiros comparam o próprio corpo com o de outras pessoas, enquanto 60% demonstram algum grau de insatisfação com a própria aparência. Os dados são da pesquisa “Conversa sem filtro: autoestima e confiança com o corpo na adolescência”, realizada pelo UNICEF com 1.004 adolescentes em todo o país. O estudo também mostra que palavras como “feio”, “tristeza”, “gordo” e “vergonha” estão entre as mais associadas pelos jovens à própria imagem, revelando o peso da pressão estética nessa fase da vida.
O cenário coincide com a consolidação das redes sociais como uma das principais fontes de informação sobre saúde, sexualidade e autocuidado para adolescentes e jovens adultos. Embora tenham contribuído para ampliar o debate sobre temas antes considerados tabu, plataformas como Instagram, TikTok e YouTube também facilitaram a disseminação de conteúdos sem respaldo científico e reforçaram padrões estéticos difíceis de alcançar.
Para a cirurgiã plástica Dra. Renata Magalhães, especialista em cirurgia íntima, o ambiente digital representa um avanço importante ao estimular o diálogo sobre saúde íntima, mas exige senso crítico dos usuários.
“Hoje os jovens têm muito mais acesso à informação do que as gerações anteriores, o que é positivo. O problema é que nem todo conteúdo publicado nas redes sociais é produzido por profissionais qualificados ou baseado em evidências científicas.”
Segundo a especialista, dúvidas relacionadas à anatomia, tratamentos ou procedimentos devem ser esclarecidas por médicos habilitados.
“Quando o assunto é saúde íntima, a orientação deve vir de ginecologistas ou cirurgiões plásticos especializados. Antes de seguir qualquer dica encontrada na internet, é importante confirmar a informação com um profissional.”
Redes sociais também moldam a percepção sobre o corpo
Além da desinformação, especialistas alertam para outro efeito do consumo intenso de conteúdo digital: a comparação constante com imagens idealizadas.
Fotos produzidas com iluminação, filtros, edição e enquadramentos específicos acabam criando uma percepção distorcida da realidade, especialmente entre adolescentes, grupo que ainda está construindo sua identidade e autoestima.
“As redes sociais mostram o palco da vida das pessoas, não os bastidores. Aquela imagem publicada normalmente foi escolhida entre dezenas de outras, recebeu o melhor ângulo e, muitas vezes, algum tipo de edição. Comparar o corpo real com essa imagem não é saudável”, explica Renata Magalhães.
Para ela, esse comportamento pode fazer com que o jovem enxergue apenas aquilo que considera um defeito.
“Muitas pessoas deixam de valorizar suas próprias qualidades e passam a focar somente no que as incomoda. Isso favorece uma insatisfação permanente com o próprio corpo.”
Admiração deve servir de incentivo
Em vez de transformar influenciadores e celebridades em parâmetro de comparação, a médica recomenda utilizar essas referências como inspiração para desenvolver hábitos saudáveis.
“Se existe alguém que você admira, que isso sirva como motivação para cuidar mais de si mesmo, e não como motivo para se sentir inferior. Sempre haverá pessoas com características diferentes das nossas. O importante é reconhecer e valorizar aquilo que o seu corpo tem de positivo.”
Segundo ela, cultivar o sentimento de gratidão e reduzir as comparações constantes também contribui para fortalecer a autoestima.
Informação confiável é parte do cuidado com a saúde
Quando existe algum incômodo relacionado ao corpo ou à região íntima, a orientação é procurar uma avaliação profissional, em vez de recorrer apenas às informações encontradas nas redes sociais.
“Se alguma característica realmente incomoda e interfere na autoestima ou na qualidade de vida, vale buscar ajuda médica. Hoje existem tratamentos para diferentes situações, mas toda decisão precisa ser tomada com base em critérios técnicos, e não em tendências da internet.”
Como identificar informações confiáveis sobre saúde íntima
Especialistas recomendam alguns cuidados antes de seguir orientações encontradas nas redes sociais:
-
verifique se o conteúdo foi produzido por um médico ou profissional de saúde habilitado;
-
confirme se o especialista possui registro ativo no Conselho Regional de Medicina (CRM);
-
desconfie de promessas de resultados rápidos ou soluções milagrosas;
-
não utilize medicamentos ou realize procedimentos por recomendação de influenciadores;
-
em caso de dúvidas sobre anatomia, sexualidade ou saúde íntima, procure atendimento com um profissional qualificado.
Para Renata Magalhães, as redes sociais podem ser uma importante ferramenta de informação e educação, desde que sejam utilizadas de forma crítica. “Quanto mais cedo o jovem aprender a identificar fontes confiáveis, maiores são as chances de desenvolver uma relação saudável com o próprio corpo e tomar decisões baseadas em conhecimento, e não em padrões irreais ou desinformação.”