O Brasil e o Mercosul: uma estratégia de política externa para o Sudeste Asiático
Por Alberto Maresca, pesquisador visitante no Instituto de Relações Internacionais da USP
Em março de 2024, o primeiro embaixador brasileiro dedicado à Associação de Nações do Sudeste Asiático (Asean), Henrique Archanjo Ferraro, apresentou suas credenciais ao secretário-geral do bloco em Jacarta. A cerimônia atraiu pouca atenção fora dos círculos diplomáticos. Deveria ter atraído mais.
Os países do Mercosul passaram duas décadas negociando o acordo comercial com a União Europeia, que está causando mais problemas do que benefícios, e possivelmente negligenciaram as oportunidades representadas por mercados alternativos no Sul Global, como a Asean. É importante destacar que os atuais Estados-membros da Asean (Brunei, Camboja, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar, Filipinas, Singapura, Tailândia e Vietnã) somam uma população total de 678 milhões de pessoas e um PIB combinado de US$ 3,9 trilhões. Esses indicadores sugerem que a América do Sul deveria se engajar seriamente com esses parceiros.
Se tomarmos o exemplo do Brasil, cabe notar que o engajamento com a Asean tem sido historicamente tênue. Em 2001, Fernando Henrique Cardoso foi o primeiro presidente brasileiro a realizar uma visita de Estado a um país-membro da Associação: a Indonésia. Ainda assim, a Malásia parece ser o país da Asean com maior interesse em intercâmbios com o Brasil. As relações diplomáticas remontam a 1959; a Malásia abriu sua embaixada em Brasília em 1981, sendo essa sua primeira missão residente na América Latina. O comércio bilateral atingiu um pico de US$ 4,4 bilhões em 2024, tornando o Brasil o maior parceiro comercial da Malásia na América Latina, segundo dados divulgados pelo Escritório Comercial da Embaixada da Malásia no Brasil. Além disso, já está em vigor a isenção de vistos entre os dois países. Tudo isso aponta para o que uma verdadeira relação Mercosul-Asean poderia representar.
Do ponto de vista comercial substancial, a complementaridade entre as economias do Mercosul e da Asean se reflete nas relações comerciais entre Brasil e Malásia. A Malásia exporta produtos tecnológicos, produtos químicos e máquinas para o Brasil, graças à capacidade de seus setores de TIC e comércio eletrônico, que contribuíram com aproximadamente 23,4% para a economia malaia em 2025. O Brasil, por sua vez, exporta soja, carne bovina, açúcar, café e minério de ferro, recursos estrategicamente importantes para quase todas as economias da Asean.
Cerca de 70% das exportações brasileiras de carne são certificadas como halal, uma vantagem estrutural em um país como a Malásia, nação de maioria muçulmana que funciona como um centro regional de certificação halal. Some-se a isso uma segunda camada: a capacidade de fabricação de semicondutores da Malásia é cada vez mais enquadrada como um potencial insumo para o impulso de reindustrialização do próprio Brasil sob o governo do presidente Lula. E a relação também flui nos dois sentidos no que diz respeito a capital, não apenas a bens. A maior mineradora brasileira, a Vale, opera no estado malaio de Perak. Ao mesmo tempo, a estatal petrolífera malaia Petronas tem presença consolidada no Brasil, com planos de expansão para o setor de distribuição de combustíveis.
As condições diplomáticas para ampliar essa relação são mais favoráveis do que em qualquer outro momento da última década. A política externa brasileira atual reposicionou explicitamente o Sul Global, e por extensão o Sudeste Asiático, como uma prioridade estratégica, uma mudança que, segundo autoridades malaias, tem sido sentida diretamente na postura de Brasília em relação à Asean. E mesmo em períodos anteriores, quando a política externa brasileira se tornou bastante avessa ao engajamento Sul-Sul, os canais institucionais do Itamaraty mantiveram intacta a relação com a Malásia.
Ampliar o caso da Malásia para um pleno marco comercial Mercosul-Asean encerra uma lógica subjacente em nível de bloco. A vantagem comparativa da América do Sul continua enraizada na abundância de recursos naturais. Não se trata apenas de proteínas, mas também de energia: petróleo e gás da Argentina e do Brasil, e energias renováveis do Paraguai, abastecendo uma região do Sudeste Asiático cuja demanda energética tem crescido em razão das disrupções energéticas provocadas pela crise de Ormuz. A Asean, por sua vez, oferece ao Mercosul um caminho para diversificar mercados de exportação e fontes de importação para além dos eixos tradicionais dos Estados Unidos, da União Europeia e da China.
Nada disso garante que um acordo Mercosul-Asean venha a ser negociado, muito menos ratificado. Mas o Brasil, como a maior economia do Mercosul e o mais novo parceiro diplomático da Asean, é o candidato óbvio para colocar formalmente a ideia sobre a mesa. As crescentes oportunidades de diversificação para as exportações sul-americanas apontam para o Sul Global como uma perspectiva natural. Por exemplo, a África oferece mercados carentes de produtos agrícolas diante do persistente desafio da segurança alimentar.
A Asean combina esse mesmo elemento com o adicional de fornecer produtos tecnológicos de alto valor agregado que, atualmente, simplesmente não podem ser fabricados de forma endógena dentro dos países do Mercosul. Além disso, depender dos Estados Unidos, da União Europeia e da China torna países com um firme propósito de autonomia, como o Brasil, excessivamente dependentes de um conjunto reduzido de atores. Embora o princípio ricardiano da vantagem comparativa explique a persistência da especialização em commodities na América do Sul, isso não deveria levar a negligenciar a importância estratégica de diversificar mercados de exportação e parcerias econômicas internacionais.
A vantagem comparativa explica por que os países sul-americanos continuam a se especializar em setores nos quais são competitivos internacionalmente, como produtos agrícolas e recursos minerais. Contudo, tal especialização não se traduz inevitavelmente em dependência estratégica. Economicamente, a dependência surge quando exportações, investimentos, finanças e tecnologia se concentram em um número limitado de parceiros capazes de exercer coerção política ou econômica, como se observou nas tarifas impostas pela segunda administração Trump ao Brasil, por razões políticas.
Essa dinâmica ilustra o que se denomina autonomia multipolar: uma lógica de política externa que amplia o leque de parceiros disponíveis para um país do Sul Global, reduzindo assim a capacidade de coerção de qualquer ator isolado. A autonomia, entendida dessa forma, não nasce do confronto, mas da diversificação: o cultivo deliberado de mercados, investidores e canais diplomáticos alternativos em todo o Sul Global. Para o Brasil, e para o Mercosul de modo mais amplo, uma estratégia voltada à Asean seria uma aplicação exemplar dessa lógica: não uma rejeição dos laços com o Norte Global, mas uma apólice de seguro contra a dependência excessiva dele. jornal.usp.br