Cinco anos de Talibã: uma história que não começou em 2021
Por Francirosy Campos Barbosa, professora da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP
Em 15 de agosto de 2026, completam-se cinco anos desde a retomada de Cabul pelo Talibã. É um momento oportuno para fazer um balanço histórico, sobretudo evitando duas simplificações recorrentes: tratar o Afeganistão como se sua história começasse em 2021 e explicar sua complexa realidade apenas pela religião ou pelo chamado “fundamentalismo islâmico”.
Antes de refletirmos sobre esses últimos cinco anos, é preciso voltar a uma história que muitas vezes permanece em segundo plano: a das sucessivas guerras, intervenções estrangeiras e violências que atravessaram o Afeganistão ao longo de décadas.
Entre 1979 e 1989, o país viveu a ocupação pela antiga União Soviética e a resistência dos mujahidin, nome pelo qual ficaram conhecidos diferentes grupos de combatentes afegãos que lutaram contra as forças soviéticas. Em meio à Guerra Fria, parte significativa desses grupos recebeu apoio financeiro, militar e logístico externo, sobretudo dos Estados Unidos, do Paquistão e da Arábia Saudita. O conflito teve consequências profundas para a sociedade afegã, provocando mortes, pobreza, deslocamentos populacionais e uma grave desestruturação social e política.
É importante, entretanto, distinguir os mujahidin do Talibã. Os primeiros não constituíam um movimento único, mas diferentes grupos e lideranças que compartilhavam a oposição à presença soviética. Após a retirada da União Soviética e, posteriormente, o colapso do governo afegão apoiado por Moscou, as disputas entre diferentes facções contribuíram para uma violenta guerra civil.
Foi nesse cenário de fragmentação política, violência e insegurança que surgiu, na década de 1990, o Talibã. A palavra taliban significa “estudantes” e remete à origem de parte de seus integrantes em escolas religiosas, as madrasas, muitas delas situadas no Paquistão. O movimento também incorporou antigos combatentes das guerras anteriores. Apresentando-se como uma força capaz de restaurar a ordem e pôr fim aos conflitos entre facções, o Talibã avançou rapidamente pelo território e, em 1996, conquistou Cabul, estabelecendo o primeiro Emirado Islâmico do Afeganistão.
Essa história ganharia um novo e decisivo capítulo após os atentados de 11 de setembro de 2001. Sob a justificativa da chamada “Guerra ao Terror”, os Estados Unidos lideraram uma invasão ao Afeganistão que derrubou o primeiro governo Talibã. Iniciava-se, então, outro longo período da história recente do país.
Entre 2001 e 2021, foram vinte anos de presença militar e intervenção internacional, acompanhados pela construção de um Estado afegão fortemente dependente de recursos externos. Em 2020, o Acordo de Doha, negociado entre os Estados Unidos e o Talibã, estabeleceu as bases para a retirada das tropas estadunidenses. No ano seguinte, com a saída das forças estrangeiras, assistiu-se ao rápido colapso do governo de Ashraf Ghani. Em 15 de agosto de 2021, o Talibã entrou novamente em Cabul.
O período entre 2021 e 2026 marca, portanto, a consolidação do segundo Emirado Islâmico e coloca em primeiro plano questões relacionadas a direitos, gênero, economia, reconhecimento internacional e uma nova configuração geopolítica regional.
Cinco anos depois da retomada de Cabul, o Talibã já não pode ser compreendido apenas como um movimento insurgente. Desde 2021, administra ministérios, fronteiras, impostos, forças de segurança e tribunais, além de manter relações diplomáticas com diferentes países. Na prática, governa o Afeganistão, embora seu reconhecimento internacional permaneça limitado. A ONU, por exemplo, continua se referindo ao governo Talibã como autoridade de facto. Essa situação evidencia uma distinção importante: exercer controle sobre um território e desempenhar funções de Estado não significa necessariamente possuir pleno reconhecimento e legitimidade internacional.
Os últimos cinco anos apresentam ainda um importante paradoxo. O fim da guerra entre o Talibã e as forças internacionais produziu uma redução significativa das mortes de civis diretamente relacionadas ao conflito armado, embora organizações como o Estado Islâmico – Província de Khorasan (ISIS-K) continuem realizando atentados. Para parte da população, portanto, o período posterior a 2021 significou menos exposição à guerra cotidiana e, simultaneamente, maior controle político, moral e social. É fundamental distinguir, nesse sentido, segurança física de liberdade política e garantia de direitos.
É sobretudo na situação das mulheres que esse controle se torna mais evidente. Desde 2021, sucessivas medidas restringiram o acesso de mulheres e meninas à educação, ao trabalho, à circulação e à participação na vida pública. Meninas permanecem impedidas de frequentar o ensino secundário e as mulheres foram excluídas das universidades. Ao longo desses cinco anos, muitas dessas restrições deixaram de aparecer como medidas isoladas e passaram a integrar, de maneira cada vez mais sistemática, as estruturas políticas, jurídicas e administrativas do Emirado.
Entretanto, reduzir essa situação à afirmação de que “o Islã oprime as mulheres” significa reproduzir uma leitura simplificadora e culturalista, que confunde as políticas do Talibã com o conjunto da tradição islâmica. É preciso observar como o movimento seleciona, interpreta e institucionaliza determinadas leituras religiosas para fundamentar suas políticas de gênero. Essa perspectiva está longe de representar um consenso entre os muçulmanos e pode ser confrontada com princípios importantes da própria tradição islâmica, como a valorização da busca pelo conhecimento, da justiça (‘adl) e da dignidade humana.
Desde os primeiros séculos do Islã, mulheres participaram ativamente da produção e da transmissão do conhecimento religioso. Um dos exemplos mais importantes é Aisha bint Abi Bakr, esposa do Profeta Muhammad, reconhecida como uma das principais autoridades intelectuais da primeira comunidade muçulmana. Aisha transmitiu numerosos hadiths, relatos sobre os ensinamentos, práticas e a vida do Profeta, e foi procurada por homens e mulheres para esclarecer questões religiosas, jurídicas e da vida cotidiana. Sua trajetória demonstra que a presença feminina no campo do conhecimento e da autoridade religiosa não é estranha à tradição islâmica, mas está presente desde seus primeiros tempos.
O próprio Alcorão dirige suas obrigações morais e espirituais tanto a homens quanto a mulheres e apresenta ambos como responsáveis por suas ações diante de Deus. Assim, as restrições impostas pelo Talibã à educação, ao trabalho e à presença pública das mulheres não devem ser tomadas como expressão automática do Islã, mas compreendidas como resultado de uma interpretação religiosa específica, atravessada também por relações de poder, contextos históricos e disputas políticas. Não por acaso, essas medidas são questionadas por estudiosos, autoridades religiosas e comunidades muçulmanas em diferentes partes do mundo.
Da mesma forma, as mulheres afegãs não podem ser apresentadas apenas como vítimas passivas dessas políticas. Ao longo desses cinco anos, elas têm construído diferentes formas de resistência e agência, por meio de redes de educação informal, manifestações, produção de conhecimento, ativismo dentro e fora do país e estratégias cotidianas para continuar estudando, trabalhando e participando da vida social. Mais do que falar por essas mulheres ou assumir uma posição de tutela sobre suas vidas, é necessário escutá-las e reconhecer suas próprias formas de organização, resistência e produção de conhecimento. Nesse momento, torna-se fundamental construir redes de solidariedade, e não de tutela, capazes de fortalecer suas demandas sem retirar delas o protagonismo sobre suas próprias lutas e escolhas.
Outro aspecto fundamental é a economia. O Afeganistão chegou a 2021 profundamente dependente da ajuda internacional, após duas décadas de intervenção estrangeira. Com a retirada das forças internacionais, o país enfrentou redução da ajuda externa, sanções, congelamento de ativos, desemprego e problemas econômicos estruturais que já existiam anteriormente. Embora alguns indicadores apontem para certa recuperação econômica, a pobreza, a insegurança alimentar e a dependência da ajuda humanitária continuam atingindo uma parcela expressiva da população.
Não é possível, portanto, atribuir a crise econômica exclusivamente ao Talibã. Ela precisa ser compreendida também como resultado de décadas de guerra, intervenção estrangeira, dependência econômica e instabilidade política. Isso não significa, contudo, ignorar a responsabilidade do atual governo: suas políticas, especialmente aquelas que restringem a educação e o trabalho das mulheres, também aprofundam desigualdades e limitam as possibilidades de desenvolvimento econômico e social do país.
Os cinco anos do segundo Emirado também produziram mudanças importantes na geopolítica regional. O caso do Paquistão é particularmente significativo. Durante décadas, o país foi um dos principais atores externos associados ao fortalecimento do Talibã. Entretanto, desde 2021, as relações entre Cabul e Islamabad tornaram-se progressivamente mais tensas, sobretudo em razão das acusações paquistanesas de que integrantes do Tehreek-e-Taliban Pakistan (TTP) utilizam o território afegão para organizar ataques no Paquistão, acusação rejeitada pelas autoridades afegãs.
Esse cenário mostra que o Talibã contemporâneo não pode ser compreendido simplesmente como um movimento insurgente subordinado aos interesses de atores externos. Depois de cinco anos no poder, constitui uma autoridade política que controla efetivamente o território afegão e procura estabelecer suas próprias relações regionais e internacionais.
Compreender o Afeganistão contemporâneo exige, portanto, enfrentar essas contradições. Menos guerra não significou necessariamente mais direitos; controle territorial não produziu automaticamente reconhecimento internacional; e maior autonomia política não eliminou a profunda vulnerabilidade econômica e humanitária do país.
Reconhecer e denunciar as violações de direitos que ocorrem atualmente no Afeganistão é imprescindível. Mas isso não pode implicar o apagamento da responsabilidade histórica dos Estados Unidos, da OTAN, do Paquistão, da antiga União Soviética e de outros atores internacionais nas condições políticas, econômicas e sociais que marcaram a história recente do país e contribuíram para o contexto no qual o segundo Emirado Islâmico emergiu.
Cinco anos depois, talvez esse seja um dos principais desafios para compreender o Afeganistão: olhar criticamente para o governo Talibã sem transformar o país em sinônimo do Talibã; denunciar as violações de direitos sem atribuí-las genericamente ao Islã; e analisar o presente sem apagar mais de quatro décadas de guerras, intervenções estrangeiras e disputas geopolíticas que ajudaram a produzi-lo. jornal.usp.br