Após abrir a campanha em Vila Euclides, Lula celebra descoberta de petróleo no Amapá
Visita do presidente à Margem Equatorial conecta soberania energética, retomada da Petrobras, industrialização e geração de empregos a um dos grandes eixos de um eventual governo Lula 4
Dois movimentos políticos separados por 24 horas ajudam a desenhar a estratégia com a qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pretende disputar um quarto mandato: a abertura de sua campanha à reeleição na histórica Vila Euclides, no ABC paulista, e a viagem desta segunda-feira (17) ao Amapá, onde visitará o navio-sonda da Petrobras que opera no bloco FZA-M-59, na Margem Equatorial.
Se na Vila Euclides Lula apresentou as linhas gerais de um novo ciclo baseado em educação, emprego, tecnologia e industrialização, no extremo Norte do país o presidente coloca no centro da agenda outro elemento decisivo de seu projeto: a recuperação da Petrobras como instrumento de desenvolvimento nacional e soberania energética.
A agenda oficial prevê a chegada de Lula a Macapá às 10h30. Às 10h50, o presidente parte para Oiapoque, com chegada prevista para 11h30. Às 13h, Lula visita o navio-sonda da Petrobras no bloco FZA-M-59, na Margem Equatorial. Depois da visita, às 15h, estão previstas intervenções no Aeroporto de Oiapoque.
A viagem ganha dimensão política adicional depois dos avanços na exploração de petróleo no Amapá e ocorre no momento em que Lula começa a apresentar ao país as prioridades de um eventual quarto governo.
Da Vila Euclides à Margem Equatorial
Na Vila Euclides, cenário das históricas greves do ABC de 1979 e 1980, Lula lançou sua candidatura à reeleição conectando o futuro que pretende construir às origens de sua trajetória política.
O presidente afirmou que o Brasil ainda está distante de realizar plenamente seu potencial e sintetizou a ambição de um novo mandato em uma frase: “nós vamos fazer desse país uma grande nação”.
Lula e o vice-presidente Geraldo Alckmin pretendem apresentar o programa de governo nas próximas semanas. Pelas indicações dadas pelo próprio presidente, industrialização, educação, geração de empregos, domínio tecnológico e agregação de valor aos recursos naturais brasileiros deverão ocupar posição central na plataforma.
É nesse contexto que a visita à Margem Equatorial adquire significado que ultrapassa a agenda energética.
O petróleo encontrado no Amapá pode representar, na visão defendida pelo governo, não apenas uma nova fronteira de produção, mas uma oportunidade para financiar investimentos, ampliar a infraestrutura, estimular a indústria naval, desenvolver fornecedores nacionais e acelerar a transição energética.
A mensagem política é clara: o Brasil deve transformar suas riquezas naturais dentro do próprio país, gerar empregos qualificados e utilizar os recursos produzidos pela exploração petrolífera para preparar a economia brasileira para uma nova era tecnológica.
Petrobras volta ao centro do projeto nacional
Nesse desenho, a Petrobras emerge como um dos grandes eixos de um eventual governo Lula 4.
Depois de anos em que a estatal foi submetida a uma estratégia centrada na venda de ativos, redução de investimentos e concentração de suas atividades, o governo Lula recolocou a empresa no centro da política energética e industrial brasileira.
A presença do presidente em um navio-sonda da companhia na Margem Equatorial reforça simbolicamente essa mudança de orientação.
A Petrobras deixa de ser tratada apenas como produtora e exportadora de petróleo e volta a ser concebida como instrumento de planejamento econômico, inovação tecnológica, geração de empregos, desenvolvimento regional e soberania nacional.
A experiência acumulada pela companhia em exploração em águas profundas e ultraprofundas é também um dos principais ativos tecnológicos brasileiros.
Foi justamente essa capacidade que permitiu ao país desenvolver o pré-sal e alcançar posição de destaque entre os grandes produtores mundiais. Agora, a Margem Equatorial aparece como uma possível nova etapa dessa trajetória.
O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, atribuiu o avanço no Amapá à liderança do presidente Lula e à condução política realizada pelo governo federal ao longo de mais de três anos. Segundo a avaliação apresentada pelo ministro, Petrobras e Advocacia-Geral da União tiveram papel fundamental no processo.
Petróleo, industrialização e soberania
A exploração da Margem Equatorial se conecta diretamente a outro ponto apresentado por Lula no lançamento de sua candidatura: a necessidade de o Brasil deixar de ocupar apenas a posição de fornecedor de matérias-primas.
Na Vila Euclides, o presidente defendeu que minerais e terras raras encontrados no território brasileiro sejam transformados em produtos industriais de maior valor agregado.
A mesma lógica pode ser aplicada ao petróleo.
Em vez de limitar a política energética à extração e exportação de óleo cru, um eventual governo Lula 4 poderá aprofundar uma estratégia baseada em refino, petroquímica, fertilizantes, indústria naval, engenharia nacional, pesquisa tecnológica e fortalecimento das cadeias brasileiras de fornecedores.
Essa orientação recupera uma característica histórica da Petrobras: sua capacidade de induzir investimentos muito além do setor petrolífero.
Cada grande projeto da estatal mobiliza uma extensa cadeia econômica que envolve estaleiros, siderurgia, máquinas e equipamentos, logística, serviços especializados, universidades, centros de pesquisa e milhares de fornecedores.
A Margem Equatorial, caso seu potencial seja confirmado e desenvolvido, poderá ampliar essa capacidade de indução econômica especialmente nas regiões Norte e Nordeste.
Uma nova fronteira econômica para o Norte
O potencial econômico não se limita à produção de petróleo.
Uma nova fronteira petrolífera pode significar investimentos bilionários em portos, aeroportos, logística, infraestrutura urbana, bases de apoio offshore e formação profissional.
Também poderá representar crescimento da arrecadação de royalties e participações governamentais, criando novas fontes de financiamento para estados e municípios.
Para o governo Lula, o desafio será impedir que essa riqueza reproduza modelos históricos de exploração nos quais os recursos naturais deixam os territórios produtores sem gerar transformação econômica proporcional.
A proposta defendida pelo governo é utilizar parte dos benefícios econômicos derivados do petróleo para financiar políticas públicas, reduzir desigualdades regionais e ampliar investimentos sociais.
Essa visão converge com o discurso apresentado por Lula na Vila Euclides.
Ao lançar sua campanha, o presidente voltou a colocar a educação no centro de sua estratégia de desenvolvimento. Lula reivindicou a expansão da rede federal de educação profissional e destacou a construção de centenas de institutos federais como parte de uma política destinada a preparar jovens para uma economia cada vez mais tecnológica.
A combinação entre recursos naturais, formação profissional e industrialização tende, assim, a formar um dos pilares programáticos da campanha.
Petróleo para financiar a transição energética
A defesa da exploração na Margem Equatorial também coloca o governo diante de um debate decisivo: como conciliar a produção de petróleo com os compromissos ambientais e a transição para uma economia de baixo carbono.
A posição defendida pelo governo é que as duas agendas não são necessariamente incompatíveis.
Segundo essa concepção, o Brasil pode utilizar os recursos provenientes do petróleo para financiar sua própria transformação energética, expandindo simultaneamente energia solar, eólica, biocombustíveis, hidrogênio de baixa emissão e outras tecnologias.
O país já dispõe de uma das matrizes elétricas mais renováveis entre as grandes economias e possui vantagens competitivas importantes em diferentes fontes de energia limpa.
Nesse modelo, a Petrobras também deverá passar por uma transformação.
A companhia tende a assumir progressivamente um papel mais amplo como empresa integrada de energia, sem abandonar a exploração de petróleo enquanto a demanda global pelo combustível permanecer relevante.
Essa transição exige investimentos em pesquisa, engenharia e novas tecnologias — áreas em que uma empresa estatal da escala da Petrobras pode funcionar como instrumento estratégico de longo prazo.
Lula aposta na combinação entre Estado e investimento
A visita ao Amapá também ajuda a revelar uma diferença importante entre o projeto econômico defendido por Lula e a agenda liberal que predominou em períodos anteriores.
O presidente aposta novamente na capacidade de grandes empresas públicas, bancos estatais, universidades, institutos federais e instrumentos de planejamento governamental para induzir investimentos privados e acelerar o desenvolvimento.
Não se trata apenas de aumentar a presença do Estado, mas de utilizá-lo para coordenar projetos de grande escala que dificilmente seriam executados exclusivamente pela iniciativa privada.
A Petrobras ocupa posição privilegiada nessa estratégia.
Sua capacidade financeira, tecnológica e operacional permite ao Brasil assumir riscos e desenvolver projetos de longo prazo em áreas consideradas estratégicas.
Foi esse modelo que permitiu à companhia desenvolver tecnologia própria para águas profundas e transformar o pré-sal em uma das maiores conquistas da engenharia brasileira.
Agora, Lula procura associar a retomada da estatal à construção de um novo ciclo de desenvolvimento.
O horizonte de um governo Lula 4
A sequência entre Vila Euclides e Amapá oferece, portanto, uma primeira imagem do discurso que deverá acompanhar Lula durante a campanha.
De um lado, a memória das lutas sindicais e a defesa de empregos, salários, educação e inclusão social. De outro, petróleo, minerais estratégicos, indústria, tecnologia e soberania.
O presidente também pediu apoio eleitoral a aliados como Fernando Haddad, Marina Silva e Simone Tebet e destacou a importância de construir maioria no Congresso para viabilizar seu programa.
A mensagem revela que Lula pretende transformar a disputa presidencial em uma discussão mais ampla sobre qual projeto econômico deverá orientar o Brasil nos próximos anos.
Nesse debate, a Petrobras tende a ocupar posição central.
A empresa reúne algumas das principais questões que estarão em disputa: controle nacional sobre recursos estratégicos, capacidade de investimento do Estado, industrialização, desenvolvimento tecnológico, transição energética e distribuição social da riqueza produzida pelo país.
A visita desta segunda-feira ao navio-sonda no Amapá transforma essas questões em uma imagem política poderosa.
Depois de retornar à Vila Euclides para anunciar que pretende disputar novamente a Presidência e construir uma “grande nação”, Lula segue para a Margem Equatorial para celebrar uma nova fronteira petrolífera e reafirmar a Petrobras como instrumento de soberania e desenvolvimento.
Se essa linha for incorporada ao programa que Lula e Alckmin apresentarão ao país, a reconstrução e expansão da Petrobras poderá se consolidar como um dos grandes eixos econômicos de um eventual Lula 4: uma estatal fortalecida, tecnologicamente avançada e vinculada a uma estratégia que pretende combinar petróleo, industrialização, empregos, redução das desigualdades e financiamento da transição energética brasileira. www.brasil247.com