Os livros são sustentáveis e perenes

Por Marisa Midori Deaecto, professora da Escola de Comunicações e Artes da USP

Em mensagem publicada nas redes sociais, a escritora Tamara Klink fez um apelo que surpreendeu tanto aos fãs, quanto aos profissionais e amantes do livro: “Não comprem mais esse livro. Ele está na lista dos mais vendidos no Brasil há três meses e está no topo dessa lista há pelo menos dois. E, nessa altura, preciso ser coerente. Já tem muitos livros Bom Dia Inverno circulando pelo Brasil todo e, se vocês puderem, se tiverem acesso a uma biblioteca, se têm pessoas da família, colegas, pessoas do trabalho, façam esses livros circularem, é para isso que eles servem, para isso que existem”.
Para além do caráter inusitado dessa declaração – afinal, autores e editores costumam esperar que os livros sejam vendidos e festejar quando se tornam best sellers –, há, aqui, uma percepção nova sobre a condição de existência do livro que merece algumas considerações. Ao afirmar que “é muito triste, para um livro, acabar em uma biblioteca e só ser lido uma vez”, a autora de Bom Dia Inverno contradiz a vocação cumulativa das bibliotecas. Como advertiu Umberto Eco em diversas ocasiões – ele mesmo, autor de best sellers – não se deveria jamais perguntar a um bibliófilo se ele havia lido todos os livros que possuía, afinal de contas, a razão de existência dos livros ultrapassa as fronteiras da leitura. Bibliotecas são guardiãs da memória do mundo, da “memória vegetal”, na acepção do semioticista italiano, logo, os livros que repousam, silenciosos, nas estantes, apenas cumprem o seu papel na história, antes de se converterem em testemunhos das civilizações. Mas essas certezas já não existem mais, como demonstra Tamara Klink.

Há algo inquietante em seu apelo, quando diz: “Porque o mais legal de qualquer livro ou de qualquer objeto (…) é ele circular e cumprir sua função pelo máximo de tempo possível para ele fazer jus aos gastos de recursos e energia do planeta”. Ocorre que livros não são “qualquer objeto”, entre outras muitas razões, porque são perenes. E, convém repetir, mesmo que não haja nenhum leitor à sua espreita, os livros preexistem, em estado de repouso, nas estantes de uma biblioteca. Os livros sobrevivem às civilizações.

Mas há algo ainda espetacular, que talvez acalme os corações e as mentes de jovens comprometidos com o futuro do planeta: livros são tecnologias totalmente adaptadas ao ecossistema, desde as suas formas mais antigas. As tabuletas sumérias são o produto das cidades de argila, erguidas nas bordas dos rios Tigre e Eufrates. A planta Cyperus papyrus, em abundância no Delta do Nilo, concorreu para a fundação e o progresso da civilização escrita entre os egípcios. Na baixa Antiguidade, os pergaminheiros acompanharam de perto a expansão dos centros copistas, até se instalarem nos burgos medievais, berço das universidades. O papel de trapo conquistou a Europa Moderna, ao se confirmar como a matéria-prima por excelência do sistema editorial constituído desde a invenção dos tipos móveis, por Gutenberg. Somos parte dessa mesma civilização do papel, mesmo que os velhos trapos tenham sido substituídos pelas fibras de celulose em meados do século 19. Enfim, não há registros, nesses mais de cinco mil anos de história, de impactos ambientais expressivos provocados pela fabricação dos suportes que deram origem aos livros em suas múltiplas formas. Provam-no, nos dias atuais, o uso disseminado do papel certificado e o alto grau de domínio tecnológico e segurança ambiental que envolvem as fábricas de celulose e papel – embora as primeiras sejam mais poluentes e o plantio de eucaliptos ocupe áreas gigantescas que poderiam ser aproveitadas para a produção de alimentos.

Essas preocupações estão longe de ser ilegítimas. Na verdade, elas mobilizam agentes e entidades ligadas à produção editorial em todo o mundo. A International Publishers Association (IPA), em parceria com a ONU, lançou, na Feira de Frankfurt, em 2023, o SDG Publishers Compact (Pacto de Editores para os ODS). O que isso significa? Que os agentes do livro devem firmar um pacto voluntário para alinhar as suas operações aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) até 2030. Na prática, espera-se que os editores se comprometam a reduzir o desperdício de papel, mitigar emissões na distribuição e priorizar a publicação de materiais que ensinem sobre clima, saúde e igualdade. O movimento francês Éditeurs Écolo-Compatibles, uma coalizão de editoras independentes como La Plage, Rue de l’Échiquier, Salamandre, Plume de Carotte, Éditions Terran, Pour Penser, Le Souffle d’Or e Yves Michel apresenta-se como um exemplo concreto dessas ações.

Elas compartilham metas estritas de eco-design (écoconception), uso exclusivo de tintas vegetais, papéis reciclados ou certificados (FSC/PEFC) e produção local para evitar o transporte transfronteiriço. Afinal de contas, por mais sustentável que se apresente, há sempre espaço para melhorias. Há sempre espaço para se criar ações em nome da bibliodiversidade.

Após a repercussão negativa de seu discurso, a escritora se retratou perante ao público: “Errei em não ver outros pontos de vista. Precisamos da leitura. Precisamos de editores. Pequenos, grandes e independentes. Sou leitora antes de ser autora e não levei em conta toda a cadeia que alimenta as editoras. Agradeço a cada um que faz a leitura ir mais longe do que a prateleira”. É meritória a sua retração, fundada, sobretudo, na valorização dos profissionais da cadeia editorial. No entanto, não há razão para desculpas, pois as inquietações da escritora são legítimas e refletem esse momento de instabilidade provocado pelas revoluções nas tecnologias de informação e comunicação. De repente, o livro se tornou mais um, entre tantos outros suportes de leitura. E, ainda assim, ele não é como os outros.

No mais, por verdadeira que seja a crítica da autora ao consumismo desenfreado, não custa nada se render a alguns cálculos simples. Se cada leitor em potencial de Bom Dia Inverno recorresse à livraria para a aquisição de seu livro, ele certamente encontraria nas prateleiras algum outro título de sua predileção. E, então, é possível que essa primeira visita se convertesse em um hábito.

Ora, um primeiro gesto poderia dar novo fôlego às livrarias independentes do país e alavancar a existência de tantas outras, até mesmo em cidades que jamais conheceram um ponto especializado de venda de livros.

Agora, imagine, Tamara, se cada cidadão brasileiro, na faixa de 15 a 70 anos, comprasse seu livro: aproximadamente 145 milhões de exemplares seriam distribuídos por todo o País! No futuro não muito distante, Bom Dia Inverno repousaria nas estantes de todas as bibliotecas brasileiras, exemplares seriam repassados de pais para filhos, discutidos nas igrejas, nos clubes de leitura, seriam relidos, reinventados e até mesmo reciclados. E quando chegassem aos sebos, teriam sua vida renovada. Os livros são objetos únicos. Nem mesmo a depreciação do seu valor monetário, no mercado de segunda mão, afeta o seu capital simbólico. Até mesmo do ponto de vista mercadológico os livros se reinventam.

Diferente é a natureza do e-reader. Embora esse pequeno suporte eletrônico tenha a capacidade de armazenar uma biblioteca inteira, seu ciclo de vida é muito curto, seus componentes não são recicláveis – aliás, eles são em boa parte altamente poluentes – e a energia que consome se torna danosa para o meio ambiente. Uma pesquisa desenvolvida por Dowd-Hinkle, no Rochester Institute of Technology, em 2012, foi possível demonstrar que o uso do Kindle em relação ao livro impresso tem maior impacto sobre o aquecimento global e sobre a destruição da camada de ozônio em todas as situações testadas. Ora, diferentemente dos e-readers, os livros não consomem energia na medida em que são lidos. É possível ainda pensar, com base no ciclo de vida do papel, que os livros sequestram o CO2 da atmosfera ao conservar inerte – por séculos a fio – a biomassa extraída das árvores. Tais resultados sugerem que, talvez, Tamara Klink pudesse propor aos seus leitores um dia de abstenção dos componentes eletrônicos e das redes sociais. Um dia de leitura e de conexão com a natureza certamente nos faria refletir sobre o quanto nos tornamos reféns dos mecanismos que comprometem a nossa própria existência no planeta.

Por fim, ao dizer em alto e bom som “Não comprem mais esse livro”, Tamara Klink agiu de forma desprendida e coerente com a sua visão de mundo. É claro que do ponto de vista do ecossistema do livro seus temores parecem exagerados. Do ponto de vista mercadológico, bem, sua postura traiu os instintos mais profundos do autor, entendido aqui como uma figura jurídica, que guarda interesses materiais sobre o produto de seu trabalho intelectual, mediante contrato firmado com o editor.

A voz de Tamara Klink é o apelo de uma geração sinceramente preocupada com o futuro do planeta, que não vê desculpas para o consumismo desenfreado e predatório, ao mesmo tempo que busca uma saída para o individualismo crescente. Dentre tantos aspectos meritórios da iniciativa da escritora, é preciso ressaltar a valorização do livro como um bem comum. Seu uso coletivo e as marcas de leitura que este suporte conserva são registros da memória do mundo. A “memória vegetal” de que fala Umberto Eco e da qual compartilhamos como partícipes de uma civilização da escrita. jornal.usp.br