Maioria dos argentinos se declara oposição a Milei e 60,1% querem mudança em 2027
Pesquisa da CEOP Latam aponta desgaste do governo: 52% se dizem opositores, enquanto recuperação da renda, endividamento e defesa da indústria nacional aparecem entre as principais preocupações
O governo do presidente argentino Javier Milei enfrenta um cenário de crescente rejeição entre a população. Pesquisa da CEOP Latam, divulgada pelo canal argentino C5N, aponta que 52% dos entrevistados se consideram atualmente opositores à administração. Além disso, 60,1% defendem algum tipo de mudança de rumo político nas eleições presidenciais de 2027.
Os números indicam que o descontentamento ultrapassa os setores que já haviam votado contra Milei nas eleições de 2023 e começa a alcançar parte do eleitorado que ajudou a levá-lo à Presidência.
Milei perde apoio entre antigos eleitores
Entre os entrevistados que atualmente se identificam como opositores ao governo, 94% dos que votaram em Sergio Massa em 2023 permanecem nesse campo.
O levantamento mostra, porém, uma mudança significativa dentro da própria base que elegeu Milei: 18% dos eleitores que votaram no atual presidente agora se consideram opositores ao governo.
A rejeição também aparece entre outros segmentos do eleitorado. Segundo a pesquisa, 15% dos eleitores vinculados ao macrismo se encontram atualmente na oposição. Entre aqueles que votaram em outras forças políticas, o percentual chega a 69%.
Os dados revelam um desafio para Milei diante da disputa eleitoral de 2027: além de preservar seu núcleo mais fiel, o presidente terá de tentar reconquistar uma parcela dos eleitores que anteriormente apoiaram seu projeto e agora demonstram insatisfação.
Recuperação da renda vira prioridade
A situação econômica aparece no centro das preocupações. Entre os entrevistados que se declaram opositores, 74% consideram que a recuperação da renda da população deve ser a principal prioridade do próximo governo.
O resultado mostra que as preocupações econômicas vão além dos índices de inflação e atingem diretamente as condições de vida das famílias, especialmente salários, poder de compra e capacidade de arcar com as despesas cotidianas.
Nesse grupo, a corrupção é apontada como prioridade por apenas 9% dos entrevistados. A inflação também perde espaço diante da preocupação com a recomposição dos rendimentos.
Endividamento das famílias amplia insatisfação
O endividamento familiar é outro fator associado ao desgaste do governo. Entre os opositores ouvidos pela pesquisa, 99% atribuem à atual administração algum grau de responsabilidade pela situação, enquanto 97% defendem algum tipo de intervenção estatal para enfrentar o problema.
Essa percepção contrasta com a orientação econômica liberal defendida pelo governo Milei, baseada na redução da participação do Estado e em maior protagonismo dos mecanismos de mercado.
Os resultados indicam que, dentro do grupo opositor pesquisado, existe forte expectativa por maior atuação estatal no enfrentamento de problemas econômicos que atingem diretamente as famílias.
Soberania e indústria nacional ganham espaço
A defesa dos recursos estratégicos e da indústria argentina também aparece com força no levantamento. Cerca de 97% dos entrevistados que se identificam como opositores consideram necessário priorizar a soberania nacional, a proteção dos recursos estratégicos e políticas públicas de estímulo à produção industrial.
O mesmo percentual rejeita a estrangeirização de recursos considerados essenciais ao país. Para esses entrevistados, a transferência desses ativos para o controle estrangeiro representa perda de riquezas que deveriam permanecer sob domínio argentino.
Os dados apontam, portanto, para uma forte resistência, entre os opositores consultados, a políticas de abertura econômica sem mecanismos de proteção à indústria e aos recursos nacionais.
60,1% defendem mudança política em 2027
Considerando o conjunto dos entrevistados, 60,1% afirmam desejar mudanças políticas nas eleições de 2027. Desse total, 44% querem que uma força de oposição assuma o governo e adote uma direção diferente da atual, enquanto 16,1% defendem mudanças, mas consideram que determinados aspectos da administração Milei deveriam ser preservados.
A tendência também aparece entre os eleitores independentes. Nesse segmento, 58,5% manifestam preferência por um futuro governo de oposição com perfil moderado.
O levantamento da CEOP Latam indica, assim, um cenário de desgaste político para Javier Milei e coloca questões econômicas no centro do debate eleitoral argentino. Recuperação da renda, endividamento das famílias, fortalecimento da indústria e defesa dos recursos nacionais aparecem como temas capazes de influenciar a disputa presidencial de 2027.
Ao mesmo tempo, os números mostram que o desafio eleitoral do atual presidente não se limita à mobilização de sua base tradicional: passa também pela tentativa de recuperar parte dos argentinos que votaram em Milei em 2023, mas que, segundo a pesquisa, hoje se posicionam no campo da oposição.