Resíduos da laranja podem virar fonte de compostos de alto valor
Pesquisa da UFSCar utiliza técnicas sustentáveis para recuperar substâncias bioativas presentes em rejeitos da indústria de suco, entre elas a hesperidina, de ação antioxidante e anti-inflamatória
Resíduos gerados pela indústria de suco de laranja podem deixar de ser apenas um problema ambiental e se transformar em matéria-prima para a obtenção de compostos de alto valor econômico. Pesquisa desenvolvida no Departamento de Química da Universidade Federal de São Carlos (DQ-UFSCar) conseguiu identificar e extrair substâncias bioativas utilizando métodos mais eficientes e sustentáveis.
Entre os compostos recuperados está a hesperidina, flavonoide encontrado principalmente na casca da laranja e conhecido por suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias. O estudo também identificou substâncias como D-limoneno, valenceno e carboidratos solúveis. Os resultados foram publicados no periódico científico Foods.
A produção industrial de suco gera grande quantidade de resíduos, incluindo cascas, sementes, bagaço, óleos essenciais e águas residuais. Apesar do potencial químico desses materiais, boa parte ainda é pouco aproveitada.
Foi a partir desse cenário que pesquisadores da UFSCar investigaram alternativas baseadas nos princípios da química verde para recuperar substâncias de interesse e, ao mesmo tempo, reduzir os impactos ambientais associados ao descarte dos resíduos.
O trabalho foi conduzido pelos professores Antonio Gilberto Ferreira e Maria Fátima das Graças Fernandes da Silva, do DQ-UFSCar, com colaboração de Vânia G. Zuin Zeidler, do Institute of Sustainable Chemistry, na Alemanha. A pesquisa recebeu financiamento da FAPESP e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).
“Embora a indústria citrícola gere um grande volume de resíduos, parte significativa desses subprodutos ainda é pouco explorada em relação ao seu potencial químico”, afirma Ferreira.
Tecnologia para aproveitar melhor os resíduos
Um dos desafios enfrentados pelos pesquisadores foi a complexidade química dos materiais descartados nas diferentes etapas da produção do suco. Para analisar essas misturas sem recorrer a processos excessivamente demorados ou agressivos, o grupo utilizou técnicas como a ressonância magnética nuclear (RMN).
O método permite examinar misturas complexas com pouco preparo das amostras e sem destruí-las. Combinada à cromatografia, técnica utilizada para separar e identificar substâncias químicas, a RMN possibilitou acompanhar a presença de hesperidina, D-limoneno e valenceno durante o processamento industrial e identificar quais resíduos apresentavam maior potencial de aproveitamento.
Outra estratégia empregada foi a extração assistida por micro-ondas, que permitiu recuperar compostos bioativos com menos etapas e maior eficiência. A técnica também reduz a necessidade de procedimentos mais agressivos, contribuindo para tornar o processo ambientalmente mais sustentável.
Hesperidina com alto grau de pureza
As análises mostraram que substâncias de interesse econômico permanecem presentes até mesmo no bagaço descartado pela indústria. Utilizando a extração assistida por micro-ondas, os pesquisadores conseguiram obter hesperidina com elevado grau de pureza.
Os resultados apontaram pureza de 87,66% nas análises por ressonância magnética nuclear e de 84,30% por cromatografia.
Também foram identificados outros compostos de interesse industrial, como alfa-pineno, sabineno, beta-mirceno e linalol, substâncias utilizadas em diferentes segmentos produtivos.
O estudo ainda ajudou a esclarecer um problema relacionado ao tratamento de um resíduo líquido conhecido como “água amarela”, gerado nas etapas finais da produção do suco. Os pesquisadores detectaram elevada concentração de limoneno nesse material.
Segundo Ferreira, a descoberta permitiu identificar o limoneno como um dos principais fatores que dificultavam a fermentação necessária ao tratamento dessa biomassa antes do descarte adequado.
Economia circular
Os resultados reforçam a possibilidade de ampliar a economia circular na indústria citrícola. Em vez de simplesmente descartar os resíduos, parte deles pode ser reaproveitada para a obtenção de moléculas utilizadas em diferentes setores industriais.
Além de reduzir impactos ambientais e ajudar a solucionar problemas relacionados ao tratamento dos rejeitos, as técnicas estudadas podem abrir novas oportunidades econômicas para a cadeia produtiva da laranja.
Na prática, aquilo que sobra da fabricação do suco pode ganhar uma nova finalidade: transformar-se em matéria-prima para produtos de maior valor agregado, aliando aproveitamento econômico, inovação e sustentabilidade.