Falta de EPIs aumenta risco de acidentes em pequenas obras e reformas
Equipamentos de proteção representam menos de 2% do valor de uma reforma, segundo a Rede da Construção; especialista alerta que lesões oculares podem causar perda definitiva da visão
O uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) deve ser uma prioridade em qualquer obra, independentemente do tamanho ou da duração do serviço. Nas pequenas construções, reformas residenciais e atividades realizadas por profissionais autônomos, porém, os cuidados com a segurança ainda são frequentemente negligenciados. Dados do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) mostram que, em 2025, houve crescimento de 9% no número de acidentes de trabalho em comparação a 2024.
Em Goiás, foram registrados 24.303 acidentes de trabalho em 2024. Desse total, 64% foram acidentes típicos, como cortes, quedas, queimaduras e choques elétricos. Os acidentes de trajeto representaram 25% dos casos, enquanto as doenças relacionadas ao trabalho corresponderam a 1,6%. Os dados são do Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho (AEAT), elaborado pelo Ministério da Previdência Social.
Nos grandes canteiros de obras, o uso de equipamentos de segurança costuma estar incorporado à rotina devido a fiscalização e a quantidade de trabalhadores envolvidos. Nas pequenas obras e reformas, onde também podem ocorrer acidentes graves, a prevenção nem sempre recebe a mesma atenção.
A rotina dos pedidos nos balcões das lojas de materiais de construção confirma essa realidade. Segundo a gerente da loja Rede da Construção Beira Mata, Tatiane Faria dos Santos, embora a procura por óculos, máscaras e botinas seja frequente, a conscientização ainda é pequena.
“A incidência de acidentes pela falta de uso de EPI é muito alta, especialmente na linha de frente. Isso ocorre por falta de informação de preocupação dos responsáveis e da alta informalidade da profissão”, explica a gestora.
O engenheiro civil e de segurança do trabalho Ricardo Ferreira destaca que, nas grandes obras, o uso dos equipamentos de segurança já está mais consolidado, mas profissionais autônomos também precisam compreender os riscos das pequenas intervenções.
“O uso de luvas, cinto de segurança, óculos e capacetes podem prevenir acidentes que podem acontecer por um descuido e provocar uma cegueira, por exemplo. Os profissionais da área da construção precisam entender que é segurança individual e precisa ser levada a sério”, destaca o engenheiro.
Olhos estão entre as áreas mais vulneráveis
Fragmentos de concreto, madeira, metal, poeira, produtos químicos e faíscas podem causar lesões oculares que variam de irritações superficiais à perda definitiva da visão.
O presidente da Sociedade Goiana de Oftalmologia (SGO), Dr. Leiser Franco, explica que os riscos estão presentes em diferentes atividades profissionais. “Os acidentes oculares mais comuns são a entrada de corpos estranhos, como partículas metálicas, madeira, poeira, areia e fragmentos de concreto; queimaduras químicas por ácidos ou produtos alcalinos; queimaduras térmicas; lesões causadas por radiação ultravioleta, como em soldadores; e traumas contusos ou perfurantes”, explica o presidente da SGO.
Segundo o especialista, essas ocorrências são mais frequentes na construção civil, metalurgia, serralherias, marcenarias, agricultura, mineração, indústrias químicas, oficinas mecânicas e atividades de soldagem. Profissionais da saúde e de laboratórios também estão expostos a respingos de produtos químicos e materiais biológicos.
“A ausência ou o uso incorreto dos equipamentos de proteção pode resultar desde lesões superficiais, como abrasões da córnea, até danos extremamente graves”, alerta Leiser Franco.
Entre as possíveis consequências estão corpos estranhos presos na córnea, úlceras, infecções, queimaduras químicas, perfuração do globo ocular, descolamento de retina, catarata traumática, hemorragias internas e perda parcial ou definitiva da visão.
O oftalmologista ressalta que não existe um único modelo de óculos capaz de proteger contra todos os riscos. Para impactos de partículas, são indicados óculos com lentes de policarbonato e proteção lateral. Em atividades com produtos químicos, podem ser necessários óculos de vedação completa ou protetores faciais. Na soldagem, as lentes devem possuir filtros específicos para radiação ultravioleta e infravermelha.
“Vale destacar que usar um óculos inadequado também representa risco. Um equipamento sem certificação ou incompatível com a atividade pode transmitir uma falsa sensação de segurança e não oferecer proteção suficiente contra impactos, respingos químicos ou radiação”, afirma o presidente da SGO.
Além de ser adequado à atividade, o equipamento deve possuir Certificado de Aprovação (CA), estar íntegro, limpo e ajustado corretamente ao rosto do trabalhador.
Tatiane Faria ressalta que a segurança é, na verdade, um investimento de baixo impacto no orçamento: um kit básico de proteção representa menos de 2% do valor de uma reforma média. Em conformidade com a NR-6, a norma regulamentadora que define os itens obrigatórios, a rede destaca como essenciais, independente do tamanho da obra:
Capacete: Proteção vital contra quedas de objetos e impactos.
Botinas com biqueira: Evitam esmagamentos de dedos e perfurações por pregos.
Luvas de proteção: Essenciais para manuseio de químicos (cimento) e materiais cortantes.
Óculos de segurança: Protegem contra partículas volantes (estilhaços de cerâmica e madeira).
Máscara respiratória: Filtra a poeira tóxica e vapores de tintas e solventes.
Protetor de Coluna (Cinturão): Previne lesões crônicas por carregamento de peso, garantindo longevidade na carreira.
Como agir em caso de acidente ocular
A primeira conduta depende do material que atingiu os olhos. Em situações envolvendo poeira ou pequenas partículas, pode-se lavar a região com soro fisiológico ou água corrente limpa em abundância.
Nos acidentes com produtos químicos, a irrigação deve ser iniciada imediatamente e mantida por pelo menos 15 a 30 minutos, antes mesmo da procura por atendimento médico. Caso exista um objeto perfurando o olho ou suspeita de perfuração, ele não deve ser retirado. O olho deve ser protegido, sem pressão sobre a região, e o trabalhador precisa ser encaminhado imediatamente para atendimento oftalmológico.
Também não se deve esfregar os olhos, tentar retirar corpos estranhos aderidos com pinças ou outros objetos, utilizar colírios por conta própria ou interromper precocemente a lavagem nos acidentes químicos.
Dor intensa, diminuição da visão, sensibilidade excessiva à luz, dificuldade para manter o olho aberto, sangramento, deformidade, saída de líquido, vermelhidão intensa e persistência da sensação de corpo estranho são sinais de alerta. “Muitos acidentes parecem leves inicialmente, mas podem evoluir com complicações importantes”, explica o presidente da SGO.
O médico relembra o caso de um trabalhador que realizava um serviço considerado simples com uma ferramenta metálica e decidiu não usar os óculos de proteção por acreditar que a atividade seria rápida. “Durante o trabalho, um pequeno fragmento metálico foi lançado em alta velocidade e perfurou o olho. Apesar da cirurgia de urgência e de todo o tratamento realizado, ele ficou com uma perda visual permanente”, relata Leiser Franco.
Para o presidente da SGO, o episódio demonstra que o equipamento deve ser utilizado mesmo em tarefas rápidas ou rotineiras. “O uso do equipamento de proteção não deve depender da duração da atividade ou da experiência do trabalhador. Basta um único segundo para que uma lesão irreversível aconteça”, conclui o Dr. Leiser Franco.