Ômega-3 e AAS têm efeito semelhante ao de antibióticos contra periodontite grave
Estudo com 109 pacientes acompanhados por um ano aponta alternativa promissora para casos selecionados e pode contribuir para reduzir o uso de antimicrobianos
A combinação de ômega-3 com ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose apresentou eficácia semelhante à de antibióticos no tratamento da periodontite grave. O resultado é de um estudo apoiado pela FAPESP que acompanhou 109 pacientes durante um ano e aponta uma possível alternativa terapêutica para casos selecionados, especialmente diante da crescente preocupação mundial com a resistência aos antimicrobianos.
Publicado em maio no Journal of Periodontology, o trabalho avaliou pacientes com periodontite em estágio avançado, doença inflamatória crônica provocada pelo acúmulo de bactérias abaixo da gengiva. Sem tratamento adequado, a condição pode comprometer os tecidos que sustentam os dentes, provocar perda óssea, mobilidade dentária e, nos casos mais graves, levar à perda dos dentes.
“Os pacientes com doença grave apresentam bolsas muito profundas, que funcionam como reservatórios para bactérias associadas à doença. É um quadro bastante desafiador de tratar”, explica a cirurgiã-dentista Nídia Cristina Castro dos Santos, professora e pesquisadora do Einstein Hospital Israelita e primeira autora do estudo.
A pesquisa também contou com cientistas da Universidade Guarulhos (UNG), Universidade de Taubaté (Unitau), Faculdade de Odontologia de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FORP-USP) e Universidade Harvard, nos Estados Unidos.
Quatro estratégias de tratamento
Os 109 participantes foram distribuídos aleatoriamente em quatro grupos. Todos passaram pela instrumentação subgengival, procedimento conhecido como raspagem e considerado tratamento padrão da periodontite. O que mudou foi a terapia complementar adotada.
O grupo-controle recebeu placebo. Outro grupo utilizou os antibióticos metronidazol e amoxicilina três vezes ao dia durante 14 dias, associação que apresenta boas evidências científicas para casos graves da doença.
Um terceiro grupo recebeu diariamente 3 gramas de ômega-3 e AAS em baixa dose durante seis meses. O quarto combinou as duas estratégias: antibióticos durante duas semanas e ômega-3 com AAS por seis meses.
Os pacientes foram reavaliados após três meses, seis meses e um ano.
Ao final do acompanhamento, 58% daqueles tratados com antibióticos atingiram a meta clínica definida pelos pesquisadores: apresentar, no máximo, quatro bolsas periodontais profundas remanescentes.
Entre os pacientes que utilizaram ômega-3 e AAS, o resultado foi praticamente idêntico, de 57,7%. No grupo submetido apenas à raspagem e ao placebo, o percentual foi de 23,1%.
A combinação das duas estratégias — antibióticos mais ômega-3 e AAS — não proporcionou benefício adicional.
“O uso de antibióticos não é considerado o padrão-ouro do tratamento. Embora a associação entre metronidazol e amoxicilina apresente bons resultados nos casos mais severos, seu uso deve ser avaliado caso a caso por causa dos riscos relacionados à resistência bacteriana e aos possíveis efeitos adversos”, afirma Castro.
Controle da inflamação
Os resultados reforçam uma linha de pesquisa que investiga formas de controlar a periodontite não apenas combatendo as bactérias, mas também modulando a resposta inflamatória do organismo.
Diferentemente dos anti-inflamatórios tradicionais, que bloqueiam determinadas vias da inflamação, o ômega-3 participa da formação de moléculas envolvidas na resolução natural do processo inflamatório e no reparo dos tecidos. O AAS em baixa dose, por sua vez, potencializa a produção desses mediadores.
A hipótese era de que a combinação ajudaria o organismo a controlar de forma mais eficiente a inflamação crônica provocada pela periodontite.
“Nós imaginávamos que a combinação de antibióticos e ômega-3 teria o melhor desempenho no controle da periodontite desses pacientes. Também acreditávamos que o resultado do grupo que usou o ômega-3 com o AAS ficaria um pouco abaixo do grupo dos antibióticos. O resultado foi surpreendente porque as duas terapias tiveram um desempenho muito parecido, abrindo um novo caminho para o tratamento desses pacientes”, relata Castro.
Um estudo anterior apoiado pela FAPESP já havia encontrado indícios desse efeito. Em experimentos com ratos com doença periodontal, pesquisadores observaram que a suplementação com ômega-3, principalmente quando associada à atividade física, reduziu a inflamação e a perda óssea decorrentes da infecção.
Benefícios permaneceram após o tratamento
Outro resultado considerado relevante foi a duração dos efeitos. Mesmo seis meses após o término da suplementação, os pacientes continuaram apresentando benefícios semelhantes aos observados ao final do tratamento.
Para os pesquisadores, o dado indica que a modulação da resposta inflamatória pode produzir efeitos prolongados. Os mecanismos envolvidos, entretanto, ainda precisam ser melhor investigados.
Segundo Magda Feres, autora principal do estudo, professora titular da Escola de Medicina Dentária de Harvard e do Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UNG, os achados podem ser especialmente importantes para pacientes que não conseguem utilizar determinados antibióticos.
“A combinação de ômega-3 e aspirina em baixa dose alcançou benefícios clínicos comparáveis aos do protocolo com metronidazol e amoxicilina, o que abre uma alternativa real para quem não pode usar antibióticos, especialmente pacientes com alergia ou intolerância a esses medicamentos”, afirma.
A possibilidade também ganha relevância diante do avanço da resistência bacteriana aos antibióticos, considerada uma das principais ameaças globais à saúde pública.
“Mostrar que é possível tratar a periodontite grave modulando a resposta do próprio organismo é uma informação nova e relevante, que contribui para preservar os antibióticos para quando forem realmente indispensáveis”, destaca Feres.
Resultados ainda precisam ser confirmados
Apesar dos resultados positivos, os pesquisadores ressaltam que o estudo não significa que os antibióticos possam ser substituídos imediatamente pelo ômega-3 e pelo AAS na prática clínica.
A pesquisa envolveu pacientes sem doenças sistêmicas importantes, e novos estudos serão necessários para verificar se os resultados se repetem em diferentes populações e para identificar quais pacientes podem se beneficiar mais de cada estratégia.
Análises microbiológicas também estão em andamento para avaliar como os diferentes tratamentos alteram as bactérias presentes nas bolsas periodontais. Dados preliminares indicam redução de espécies relacionadas à doença e aumento de microrganismos associados à saúde da gengiva.
“É um avanço importante, mas não um ponto final. A mensagem, portanto, é de otimismo cauteloso: temos uma alternativa promissora e cientificamente plausível ao antibiótico em casos selecionados. A substituição de rotina virá com mais evidências”, conclui Feres.
O estudo Immunomodulators, associated or not with systemic antibiotics, to treat periodontitis: A 1-year multicenter, placebo-controlled, double-blind, randomized clinical trial foi publicado no Journal of Periodontology.