’Pequenas Tragédias’, longa-metragem goiano de Daniel Nolasco, recebe seis prêmios no Festival de Brasília
O longa-metragem recebeu prêmios de Melhor Direção, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante na Mostra Competitiva e Melhor Filme do Júri da Crítica
‘Pequenas Tragédias’, novo longa-metragem do cineasta goiano Daniel Nolasco, venceu seis prêmios no 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, no último sábado (19): Melhor Direção, Melhor Montagem, Melhor Trilha Sonora, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante e Melhor Filme do Júri da Crítica.
O prêmio de Melhor Ator foi para Guilherme Théo, que interpreta o próprio diretor na trama. “Essa semana, por três vezes, quase liguei para minha mãe, mas ela não está neste plano. Viva o Festival de Brasília, o Cinema Queer, o Cinema Goiano, o Cinema feito no interior do Brasil”, disse o ator, em seu discurso de agradecimento.
Aivan, que vive a personagem da travesti Monalisa, levou o troféu de Melhor Atriz Coadjuvante e enviou uma mensagem de agradecimento: “Nunca estudei música ou teatro, uma vez que não tinha condições financeiras. Aos 60 anos, ser contemplada com um prêmio do Cinema é uma imensa felicidade e gratidão.”
O prêmio de Melhor Filme do Júri da Crítica foi concedido pela Abracinne (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). A Melhor Montagem foi concedida a Luciano Carneiro. Esta foi a primeira vez em sua carreira que Daniel Nolasco foi contemplado com um prêmio de Melhor Direção.
“Como diretor e realizador, eu sou resultado de políticas públicas. Se não existissem as políticas de descentralização das políticas públicas, eu não seia possível. Uma pessoa que nasceu na região rural de Catalão – Goiás, filho de costureira, trabalhar com Cinema. Se não fosse isso, este momento jamais estaria acontecendo. É um direito nosso, que estamos fora do Eixo, no Centro-Oeste, em Goiás, ter acesso a estas políticas públicas. Precisamos ter o direito de contar as nossas próprias narrativas e construir nossas próprias imagens”, disse o diretor.
Não é a primeira vez que Nolasco chama atenção fora de Goiás. A filmografia do diretor já circulou por festivais internacionais com títulos como “Vento Seco” e “Apenas Coisas Boas”, consolidando-o como um dos nomes goianos mais relevantes do cinema autoral brasileiro contemporâneo, em especial no que diz respeito ao cinema Queer.
Sobre o filme
Em 2011, Daniel Nolasco deixou Catalão, no interior de Goiás, para estudar cinema no Rio de Janeiro e foi o primeiro de um grupo de amigos queers a sair da cidade. Dez anos depois, nenhum deles compartilhava mais aquele mesmo cotidiano: alguns haviam se mudado para outros centros urbanos e outros permaneceram ligados à cidade de diferentes maneiras.
Este é um dos pontos de partida da trama, que mistura tragédias, reflexões e um humor muito sarcástico. Com elementos tanto documentais quanto ficcionais, o filme volta o olhar para a cidade de Catalão e para as vivências da comunidade LGBTQUIAP+ em uma cidade interiorana de Goiás.
Assim, ‘Pequenas Tragédias’ reúne diferentes experiências queer ligadas à cidade de Catalão. Nolasco explicita como surgiu a vontade de abordar o tema: “Em 2019, fiquei por quatro meses em Catalão a trabalho, quando fui gravar o meu outro longa-metragem, ‘Vento Seco’. Foi quando descobri que as pessoas que formavam o meu antigo núcleo de amigos LGBTs não moravam mais lá. Comecei a me questionar porque todos tinham ido embora, a vida na cidade, pelo menos do ponto de vista material, era confortável. Com o tempo entendi que a fuga aconteceu por causa de algo mais subjetivo e forte – era um sentimento que é difícil explicar em palavras ou imagens, mas que qualquer pessoa dissidente que mora ali consegue entender”.
Na trama, a cidade deixa de funcionar apenas como cenário para ocupar o centro da narrativa. O filme observa aqueles que partiram, mas também aqueles que ficaram. E encontra em suas histórias diferentes formas de viver, desejar e construir vínculos em um lugar que – como dizem a própria sinopse do filme e o slogan da cidade – é “bom demais para viver”.
Aclamado pela crítica e pelo público
Desde a estreia, textos e comentários sobre o longa circulam em veículos oficiais da imprensa, da crítica cinematográfica e em sites dedicados ao público cinéfilo como o LetterBox.
Durante a exibição em Brasília, o público interagiu positivamente ao que via na telona. Foi possível ouvir risadas e alguns pequenos soluços ao longo da trama. Ao final, os aplausos aconteceram em uníssono. Nos jornais, sites e revistas que repercutiram o filme, não foi diferente. Estadão, Revista de Cinema, Meio Amargo e Jornal Opção foram alguns dos que repercutiram o filme.
Em Goiânia, o filme foi exibido no último domingo (20), em uma sessão especial com participação do diretor e da equipe, com um debate, ao final.
No jornal Estadão, o crítico Luiz Zanin intitulou o seu texto de “A força do cinema queer”. “Trata-se de um objeto cinematográfico de grande equilíbrio, independentemente de seu conteúdo, que pode agradar ou não ao público, dependendo, claro, do ponto de vista ou das opções de cada um. […] A experiência de ser gay numa dessas cidades questiona a imagem estereotipada que se possa ainda ter do Brasil, como país cordial e tolerante. Aqui é a intolerância e a violência que dominam. […] Formalmente, é uma obra muito bem estruturada e que trabalha com várias camadas de distanciamento crítico.”, escreve Zanin, que é um dos mais renomados escritores da crítica de cinema no Brasil.
Maria do Rosário, nome também já consagrado na crítica cinematográfica brasileira, escreve para o site da Revista de Cinema: “O filme […] impressionou por sua inventividade, humor corrosivo e pegada documental impregnada por envolvente ficção fabular. E com trilha sonora que une canções que vão de Ney Matogrosso (“Homem de Neanderthal”) a hits do agronejo. Sem esquecer cenas homoeróticas, já que ‘Pequenas Tragédias’ é um vigoroso exemplar de narrativas queer. […] A plateia se desmanchou em sonoras gargalhadas”.
Em Goiás, Pedro Lima de Andrade escreveu para o Jornal Opção sobre o longa-metragem: “No centro das memórias de Nolasco há um balanço muito claro da comédia que vem do patético, do moralismo barato dos moradores da cidade. […] É fascinante como o diretor cria, em sua forma híbrida, a mistura da narração com piadas sobre o ator que mentiu dizendo que andava de moto, mas não sabia, e exigiu uma mudança na gravação, com um humor que surge de tanta dor.”
Já o site Meio Amargo intitula a crítica de “Reinvente seus traumas”. “[…] Isso porque uma das principais ferramentas para reler suas dores reside no fetiche. […] Logo, o caminho para retomar estes traumas por uma perspectiva saudável consiste na erotização do outro. […] Esta estratégia nunca significa a adesão às atitudes dos sujeitos truculentos, pelo contrário. O longa-metragem não demonstra tesão na violência, mas na ilusão de modificar o passado (os abusos cometidos a terceiros). Neste releitura, não há uma única cena de agressão explícita – nem de sexo.”, escreve Bruno Carmelo, crítico de Cinema há 22 anos.
Trajetória
O diretor Daniel Nolasco é formado em Cinema e Audiovisual pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) de Catalão, agora UFCAT. Primeiro longa assinado por Nolasco, o documentário Paulistas, estreou em 2017 no Dok Leipzig. Depois vieram Mr. Leather e a primeira trama de ficção, Vento Seco, apresentado na Mostra Panorama do Festival de Berlim em 2020. Mais recentemente, dirigiu Apenas Coisas Boas, também ambientado na região de Catalão.
A produção mais recente é assinada por Daniel Nolasco e Cecília Brito, sócios na Rensga Filmes e parceiros em diferentes trabalhos. Cecília atua há mais de dez anos no audiovisual e reúne em sua trajetória curtas, longas e séries. Ao lado de Nolasco, trabalhou também em títulos como Mr. Leather e Apenas Coisas Boas. A coprodução é da Bebop Filmes, produtora goianiense, e da alemã Welt Filmes. A distribuição é da Embaúba Filmes.
Antes de chegar à estreia mundial no tradicional Festival de Brasília, ‘Pequenas Tragédias’ participou, ainda em fase de finalização, do Conexão Brasil CineMundi 2026, realizado durante a Mostra de Cinema de Tiradentes, onde recebeu o Prêmio Málaga WIP. Em março de 2026, o longa venceu também o principal Prêmio Málaga WIP Iberoamérica no evento, que acontece na Espanha.