Goiano por adoção supera 145 horas nos Alpes e conclui uma das ultramaratonas mais extremas do mundo

Radicado em Goiânia há cerca de 20 anos, Fernando Andrade percorreu mais de 360 quilômetros em quase seis dias na Tor des Géants, enfrentou mais de 25 picos nos Alpes e dormiu apenas cerca de dez horas durante toda a prova

Foram quase seis dias e seis noites entre montanhas, frio, privação de sono, desgaste físico e uma sucessão de subidas que pareciam não terminar. Radicado em Goiânia há aproximadamente duas décadas, o empresário e ultramaratonista Fernando Andrade concluiu a Tor des Géants 2026, uma das provas de resistência mais desafiadoras do calendário internacional de trail running.

A largada ocorreu no dia 13 de setembro, no Valle d’Aosta, na Itália. Fernando permaneceu aproximadamente 145 horas em prova, desde o meio-dia de domingo até por volta das 13 horas do sábado seguinte. Embora a distância oficial seja de aproximadamente 330 quilômetros, o relógio do atleta registrou 363,38 quilômetros ao longo do percurso, marca semelhante à registrada por outros participantes.

O trajeto levou os competidores por uma região cercada por quatro gigantes dos Alpes europeus: Monte Branco, Monte Rosa, Gran Paradiso e Cervino. Ao longo do desafio, Fernando enfrentou mais de 25 picos, quase todos acima dos 2 mil metros de altitude. O ponto mais elevado foi o Col Loson, a 3.295 metros.

Os números da edição ajudam a dimensionar a dificuldade. Dos 1.117 atletas que iniciaram a disputa, 690 chegaram ao fim, enquanto 427 abandonaram o percurso — uma taxa de desistência de 38,4%. Entre os sete brasileiros amadores que largaram, cinco conseguiram completar a prova. Uma atleta profissional brasileira também concluiu a competição.

Para Fernando, um dos maiores adversários não estava necessariamente na distância percorrida, mas na capacidade de continuar avançando quando o corpo exigia descanso. Durante praticamente seis dias de prova, ele estima ter dormido apenas cerca de dez horas.

Administrar o sono em meio ao esforço contínuo tornou-se parte fundamental da estratégia. Além da privação de descanso, o ultramaratonista precisou lidar com alimentação, hidratação, ritmo, equipamentos e as oscilações físicas e emocionais provocadas por centenas de quilômetros nas montanhas.

As subidas intermináveis também estiveram entre as principais dificuldades encontradas. O percurso acumulou mais de 25 mil metros de ganho de elevação e submeteu os participantes a mudanças constantes de altitude. Durante as madrugadas, o frio nas montanhas acrescentava mais um elemento a uma equação que exigia resistência física e, sobretudo, controle mental.

A experiência se transformou em um confronto permanente entre a vontade de parar e a decisão de seguir. Quando o desgaste físico se acumulava e o sono se tornava cada vez mais difícil de administrar, permanecer em movimento passou a exigir uma força que ia além do condicionamento construído durante os meses de treinamento.

Uma trajetória construída quilômetro após quilômetro

A conclusão da Tor des Géants representa mais um capítulo de uma trajetória construída progressivamente no esporte de resistência. Fernando já havia enfrentado provas de 42, 80, 110, 133 e 176 quilômetros.

Em 2025, concluiu a HOKA UTMB Mont Blanc, tradicional prova do trail running internacional, com percurso por França, Itália e Suíça. Na ocasião, percorreu 176 quilômetros, com mais de 10 mil metros de ganho de elevação, permanecendo aproximadamente 43 horas em prova.

Na Tor des Géants, o desafio ganhou uma nova dimensão. Além de praticamente dobrar a distância de sua experiência anterior, Fernando precisou permanecer por quase seis dias em atividade, administrar poucas horas de sono e superar um desnível acumulado superior a 25 mil metros.

Boa parte da preparação para o desafio foi realizada em Goiânia. Durante meses, o treinamento buscou desenvolver não apenas resistência física, mas estratégias para lidar com o cansaço, a alimentação, o descanso e as decisões que precisariam ser tomadas depois de dezenas, e posteriormente centenas, de quilômetros.

De Maringá a Goiânia

Natural de Maringá, no Paraná, Fernando viveu em Florianópolis, Brasília, Bournemouth, na Inglaterra, e La Rochelle, na França, antes de se estabelecer em Goiânia, onde reside há cerca de 20 anos. Além de ultramaratonista, é faixa-preta de jiu-jitsu e mergulhador.

Fora das montanhas, construiu sua trajetória no ambiente empresarial. Administrador, com MBA em Gestão de Projetos, atua há mais de duas décadas na área, também como professor de MBA e de cursos voltados ao setor financeiro. Atualmente, é sócio e CEO da A8 Business Consult, empresa dedicada à gestão e estruturação de negócios.

A conexão entre os desafios empresariais e o esporte também deu origem ao livro Um CEO ultramaratonista, no qual Fernando relaciona experiências vividas nas provas de longa distância a temas como planejamento, tomada de decisão, gestão de crises, persistência e capacidade de agir diante de cenários adversos.

Depois de 145 horas nos Alpes, mais de 360 quilômetros registrados e apenas cerca de dez horas de sono, Fernando voltou a colocar esses conceitos à prova longe das salas de reunião. Desta vez, diante de montanhas acima dos 3 mil metros, temperaturas baixas e um percurso no qual quase quatro em cada dez participantes não chegaram ao fim.

Cruzar a linha de chegada da Tor des Géants significou, portanto, mais do que completar uma ultramaratona. Representou o desfecho de quase seis dias de uma disputa constante contra o cansaço, o sono e os próprios limites, uma experiência em que, a cada nova montanha, continuar era uma decisão que precisava ser tomada novamente.