Mercadante alerta para risco de expansão da “cultura da milícia” com Flávio Bolsonaro
Presidente do BNDES afirma que crime organizado está “infiltrado no estado” do Rio de Janeiro e adverte para risco de levar essa cultura para outras regiões do país
O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Aloizio Mercadante, afirmou que uma eventual eleição do senador Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência poderia ampliar para outras regiões do Brasil uma cultura política que, segundo ele, foi formada no Rio de Janeiro em meio à presença de milícias e outras organizações criminosas.
As declarações foram feitas nesta quarta-feira (23), durante a 5ª edição da J.Safra Investment Conference, em São Paulo. O evento reuniu autoridades, empresários e representantes do mercado financeiro para discutir economia, política e investimentos.
Ao analisar a situação política fluminense, Mercadante disse enxergar uma forte infiltração do crime organizado nas estruturas do Estado e relacionou esse cenário à disputa presidencial.
“Tem gente que se formou nessa cultura da milícia, nessa cultura do crime, que apoiou ali seis governadores que foram afastados. Vamos trazer essa cultura para os corações do Brasil?”, questionou.
O presidente do BNDES afirmou que o Rio de Janeiro reúne qualidades culturais e naturais reconhecidas, mas enfrenta, em sua avaliação, um problema estrutural provocado pela atuação de grupos criminosos.
“O Rio tem coisas encantadoras, aquelas montanhas, aquelas praias, aquela cultura, o jeito do carioca, a música, o talento, é uma coisa espetacular. Mas tem um problema político seríssimo, que é o crime organizado, é a milícia, é o tráfico, é o jogo do bicho, que é uma coisa que está infiltrada no Estado”, declarou.
Mercadante fala em risco de “mexicanizar o Brasil”
Ao ampliar sua análise para o cenário nacional, Mercadante utilizou o México como referência para advertir sobre o risco de organizações criminosas conquistarem maior influência sobre instituições públicas.
“Eu vou mexicanizar? O risco de mexicanizar o Brasil?”, questionou.
A comparação foi apresentada por Mercadante como um alerta sobre a possibilidade de estruturas políticas associadas, segundo ele, ao crime organizado no Rio de Janeiro adquirirem alcance nacional.
O dirigente do BNDES voltou a relacionar sua preocupação ao histórico político recente do estado.
“Tem gente que se formou nessa cultura da milícia, nessa cultura do crime (…) vamos trazer essa cultura para os corações do Brasil”, afirmou.
A referência ocorre em meio à adoção, pela Justiça Eleitoral fluminense, de medidas contra candidaturas suspeitas de ligação com organizações criminosas.
Em setembro, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) havia indeferido 15 registros de candidatura por entender que existiam indícios de vínculos com grupos criminosos. Entre os casos, 11 envolviam candidatos a deputado estadual, três a deputado federal e um a suplente de senador.
Parte das decisões foi fundamentada na chamada tese da “milícia de gravata”, empregada pela Justiça Eleitoral em casos envolvendo organizações voltadas a crimes contra a administração pública. Outros registros foram barrados por suspeitas de relação com milícias armadas. As decisões sobre registro eleitoral não equivalem, por si só, a condenações criminais e podem ser objeto de recurso.
Ao divulgar o balanço, o presidente do TRE-RJ, desembargador Claudio de Mello Tavares, afirmou que o tribunal havia atuado com rigor diante da tentativa de organizações criminosas de ocupar estruturas institucionais por meio das eleições.
Durante sua participação na conferência, Mercadante também fez outras críticas a Flávio Bolsonaro. O presidente do BNDES contestou, por exemplo, uma proposta atribuída ao candidato de permitir participação dos Estados Unidos em uma eventual transição de governo, afirmando que esse processo envolve informações estratégicas sobre defesa, minerais críticos, diplomacia, finanças, Banco Central e o sistema Pix.
Na avaliação de Mercadante, tanto a preservação da autonomia nacional quanto o enfrentamento ao avanço de organizações criminosas sobre o Estado devem ocupar posição central no debate político brasileiro. www.brasil247.com