A volta da Petrobras à distribuição de combustíveis: entenda por que esta notícia anunciada por Lula é tão importante
Presidente anuncia intenção de comprar uma distribuidora e recoloca em debate uma decisão criminosa do governo Bolsonaro: a privatização da BR Distribuidora
O presidente Lula anunciou a intenção de fazer a Petrobras voltar ao mercado de distribuição de combustíveis por meio da aquisição de uma distribuidora. A declaração, feita a quatro dias do primeiro turno da eleição presidencial, tem uma dimensão que vai muito além de uma eventual operação empresarial: significa reconstruir um instrumento estratégico perdido pela estatal com a privatização da BR Distribuidora durante o governo de Jair Bolsonaro.
A iniciativa surge também em um momento de volatilidade internacional dos preços do petróleo, decorrente da guerra no Oriente Médio. O governo vem utilizando diferentes instrumentos para impedir que a escalada das cotações internacionais seja integralmente transferida para a população brasileira, incluindo a manutenção de um auxílio de R$ 2,12 por litro de diesel.
Lula defende que a Petrobras tenha novamente presença direta na distribuição, um dos segmentos fundamentais da cadeia de combustíveis. Hoje, a estatal é extremamente relevante na produção e no refino, mas não possui mais a antiga estrutura que levava sua atuação diretamente até a distribuição e os postos.
É justamente nesse ponto que se encontra a importância estratégica do anúncio.
O desmonte da BR Distribuidora
A BR Distribuidora foi durante décadas um dos principais braços da Petrobras. Criada em 1971, permitia que a companhia atuasse de maneira integrada, do petróleo extraído no campo até a distribuição dos derivados no mercado nacional.
O processo de privatização começou antes do governo Bolsonaro, com a abertura de capital de 2017, quando 28,75% das ações foram vendidas. Mas foi em julho de 2019 que a Petrobras, já sob Bolsonaro, perdeu o controle da companhia ao vender mais 30% do capital. A operação movimentou R$ 8,56 bilhões, segundo documentos analisados pelo Tribunal de Contas da União. A participação da Petrobras caiu para menos de 50%, transferindo efetivamente o controle da distribuidora ao mercado privado.
A própria Petrobras registrou posteriormente a operação como a primeira privatização de uma empresa estatal brasileira realizada por meio do mercado de capitais.
O processo seria concluído em 2021, quando a Petrobras vendeu sua participação remanescente. A antiga BR passou a se chamar Vibra Energia e a Petrobras deixou completamente o capital da empresa.
Vista do ponto de vista estratégico, a privatização da BR foi um crime contra os interesses nacionais. O Brasil abriu mão de uma companhia construída durante décadas, com enorme capilaridade, conhecimento do mercado e presença em praticamente todo o território brasileiro. Quando ocorreu a perda de controle, a BR era a maior distribuidora do país, tinha cerca de 30% do mercado, quase 8 mil postos e atuação em 99 aeroportos, segundo informações registradas pelo próprio TCU.
Não se tratava, portanto, simplesmente de vender ações. O Estado brasileiro abriu mão de um instrumento capaz de conectar a produção e o refino da Petrobras ao mercado consumidor.
“Por que vender a BR? O que ganhamos com a privatização?”, questionou Lula ao anunciar sua intenção de reconstruir a presença da Petrobras nesse segmento.
Por que uma distribuidora faz diferença
O preço que chega ao posto não depende exclusivamente da Petrobras. Entre a refinaria e o consumidor existem distribuição, mistura obrigatória de biocombustíveis, tributos e margens de revenda.
Isso significa que reduzir o preço na refinaria não garante automaticamente que toda a redução chegue à bomba.
Uma Petrobras novamente presente na distribuição ampliaria sua capacidade de acompanhar a formação dos preços ao longo da cadeia e de competir diretamente em um mercado estratégico. Não significaria que o governo passaria a determinar administrativamente o preço cobrado por todos os postos, mas devolveria à estatal presença empresarial em um elo do qual ela se retirou.
A questão ganhou ainda mais relevância diante das transformações recentes do mercado brasileiro de combustíveis. Levantamento publicado em setembro mostrou que derivados vendidos por algumas refinarias privatizadas chegaram a apresentar preços muito superiores aos praticados pela Petrobras. Especialistas ouvidos na reportagem apontaram que a venda de ativos isolados produziu, em determinados mercados regionais, elevada concentração em vez da concorrência esperada.
É justamente esse tipo de experiência que reforça a discussão sobre o papel estratégico de uma companhia integrada.
Petrobras do poço ao consumidor
A lógica defendida por Lula é recuperar parte da integração histórica da Petrobras.
Uma empresa de petróleo não precisa necessariamente se limitar à extração do óleo ou ao refino. As grandes companhias internacionais do setor atuam em diferentes etapas da cadeia porque essa integração proporciona escala, informações sobre o mercado, capacidade logística e maior resiliência diante das oscilações internacionais.
A BR cumpria exatamente esse papel para a Petrobras.
Ao privatizá-la, o Brasil separou dois negócios que durante décadas haviam operado de forma integrada. Agora, para voltar ao segmento, a Petrobras terá de desembolsar recursos para comprar uma distribuidora — justamente o tipo de ativo do qual abriu mão poucos anos atrás.
Esse paradoxo ajuda a dimensionar o custo estratégico da privatização.
Governo tenta impedir abusos
O anúncio de Lula ocorre no momento em que o governo também endurece a fiscalização sobre os preços dos combustíveis.
O Executivo elevou de R$ 14 milhões para até R$ 500 milhões a multa máxima aplicável a práticas abusivas no setor. A medida alcança produtores, importadores, distribuidoras, transportadoras e postos que aumentem injustificadamente suas margens ou se recusem a abastecer o mercado mesmo dispondo de estoques.
Segundo dados divulgados pelo governo, centenas de estabelecimentos estão sendo fiscalizados diante da preocupação de que recursos públicos destinados a amortecer a alta internacional acabem apropriados ao longo da cadeia sem chegar ao consumidor.
O problema é particularmente importante quando o Estado utiliza subsídios ou reduz impostos. Se não houver concorrência suficiente e fiscalização, parte do benefício pode ficar retida nas margens empresariais.
A presença direta da Petrobras na distribuição adicionaria mais um instrumento a essa estratégia.
Dois projetos para a Petrobras
A discussão também explicita diferenças entre os projetos econômicos presentes na eleição presidencial.
Flávio Bolsonaro defende redução do tamanho do Estado, contenção dos gastos públicos e novas privatizações. Lula, por sua vez, sustenta uma estratégia desenvolvimentista em que empresas públicas como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa e BNDES funcionem como instrumentos de investimento e soberania econômica.
A divergência não é apenas ideológica. Ela envolve uma pergunta concreta: setores como petróleo, energia e combustíveis devem ser tratados apenas segundo a lógica privada de rentabilidade ou também como elementos da segurança econômica nacional?
Para Lula, a resposta passa pelo fortalecimento da Petrobras.
“Brasil não cabe no quintal de ninguém”, afirmou o presidente ao defender uma política econômica independente e rejeitar subordinação aos interesses de outras potências, inclusive dos Estados Unidos.
Uma decisão que vai além dos combustíveis
O retorno à distribuição também pode ganhar importância com a própria transformação da Petrobras em uma empresa de energia. Uma rede nacional de distribuição pode servir, no futuro, não apenas para gasolina, diesel e etanol, mas para biocombustíveis avançados, recarga elétrica e outros produtos ligados à transição energética.
Por isso, a decisão anunciada por Lula deve ser compreendida em perspectiva histórica.
O Brasil construiu durante décadas uma Petrobras integrada. Depois, desmontou partes dessa estrutura e privatizou ativos estratégicos sob a promessa de que a iniciativa privada produziria mais competição e eficiência.
Agora, diante de um novo choque internacional do petróleo, o país redescobre a importância de possuir instrumentos próprios para defender seu mercado interno.
A eventual compra de uma distribuidora não desfará automaticamente os efeitos da privatização da BR. Mas representará uma mudança profunda de direção: depois de anos de retirada, a Petrobras poderá voltar a ocupar o espaço que nunca deveria ter abandonado — a ligação direta entre sua enorme capacidade de produção e refino e o mercado brasileiro de combustíveis. www.brasil247.com