Crise interna força campanha de Lula a rever estratégia para o segundo turno

Resultado apertado no primeiro turno provoca cobranças dentro do PT e leva equipe do presidente a discutir mudanças na articulação política, comunicação digital e atuação nos estados.

A campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou em uma fase de reavaliação depois do resultado do primeiro turno das eleições presidenciais. Com 45,16% dos votos válidos, Lula ficou atrás do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que obteve 47,03%, cenário que aumentou a pressão sobre a equipe responsável pela candidatura.

Nos dias seguintes à votação, integrantes do PT e de partidos aliados passaram a discutir ajustes na condução da campanha, desde a organização política até a comunicação nas redes sociais. O objetivo é preparar uma estrutura mais articulada para a disputa do segundo turno, marcado para 25 de outubro.

A situação ganhou maior dimensão depois de Lula manifestar publicamente insatisfação com a condução da campanha. Em declaração na quarta-feira (7), o presidente afirmou que a organização ficou abaixo do que esperava e classificou esta como a campanha menos organizada de que participou desde 1989.

A crítica foi direcionada ao presidente nacional do PT, Edinho Silva, responsável pela coordenação da campanha. Apesar dos questionamentos, a substituição do coordenador não aparece, neste momento, como a principal alternativa. A tendência discutida entre aliados é ampliar o núcleo de decisões e redistribuir funções.

Pressão por maior articulação política

Uma das apostas para a nova etapa da campanha é aumentar a participação de lideranças políticas com influência nos estados e experiência eleitoral.

Entre os nomes que podem ganhar espaço estão o ex-governador do Ceará e atual ministro da Educação, Camilo Santana, além do ministro da Casa Civil, Rui Costa. A expectativa é que lideranças do Nordeste tenham atuação mais direta na mobilização regional.

O senador Otto Alencar (PSD-BA), que conversou com Lula sobre os próximos passos da campanha, defendeu justamente uma estrutura que envolva políticos de diferentes regiões.

A ideia é ampliar a presença da candidatura nos estados e aproximar a coordenação nacional das estruturas locais. São Paulo também aparece como uma frente considerada estratégica, com participação prevista de nomes como Fernando Haddad e Geraldo Alckmin.

As dificuldades de articulação, porém, já provocaram situações de desencontro entre integrantes da campanha. Parlamentares paulistas, por exemplo, teriam recebido convocações para compromissos em locais diferentes, sinal de que a comunicação interna ainda enfrenta problemas.

Redes sociais entram no centro da estratégia

A comunicação digital também deve passar por mudanças. A campanha avalia ampliar a produção de conteúdos rápidos para as redes sociais, principalmente vídeos gravados pelo próprio presidente.

O formato busca aproximar Lula dos eleitores e, ao mesmo tempo, acelerar a produção e a distribuição das mensagens. A estratégia inclui vídeos mais espontâneos, com linguagem adequada às plataformas digitais.

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), é apontado como um dos defensores desse modelo. Em uma das gravações recentes, Lula fez um chamado direto aos apoiadores para intensificar a mobilização nas ruas.

A campanha também começou a se aproximar de parlamentares eleitos que possuem forte presença nas redes. Entre os nomes envolvidos está Ana Elisa, de 21 anos, eleita deputada federal pelo PT de Minas Gerais com 524 mil votos.

Outra possível novidade na equipe é Bruno Monteiro, secretário de Cultura licenciado da Bahia, que participou da campanha de Jerônimo Rodrigues ao governo estadual. Ele tem interlocução com integrantes do governo federal e pode contribuir na área de comunicação política.

A participação da primeira-dama Janja Lula da Silva também está sendo discutida internamente, em meio às avaliações sobre o funcionamento da comunicação da campanha.

Segurança pública ganha espaço no discurso

Além da reorganização interna, a campanha começa a dar maior atenção a temas que podem influenciar o eleitorado no segundo turno. Entre eles está a segurança pública.

Lula passou a adotar um discurso mais direto sobre o combate à criminalidade e sobre a necessidade de combinar proteção à população e repressão aos criminosos.

A segurança deve permanecer entre os assuntos prioritários da campanha nas próximas semanas, especialmente diante da importância que o tema vem adquirindo no debate eleitoral.

Outro assunto em discussão é a relação entre os Poderes e o funcionamento do Judiciário. A campanha avalia como abordar as críticas ao Supremo Tribunal Federal e as repercussões relacionadas ao caso Banco Master.

Nesse ponto, porém, não existe consenso entre os aliados. Parte da equipe considera que o assunto pode favorecer a estratégia do campo bolsonarista e, por isso, defende cautela na abordagem.

Programas sociais devem ser usados para buscar votos

A defesa das políticas sociais também deverá ocupar espaço maior na comunicação do segundo turno. Aliados de Lula avaliam apresentar ao eleitorado as diferenças entre os projetos dos dois candidatos, especialmente em relação aos programas de transferência de renda e outras políticas públicas.

A estratégia busca reforçar a imagem do governo entre os segmentos que dependem dessas ações e, ao mesmo tempo, ampliar a vantagem da candidatura entre eleitores que ainda não definiram o voto.

Para isso, a campanha pretende combinar a presença de Lula nas ruas com uma atuação mais intensa nas redes sociais e uma mobilização maior das lideranças políticas nos estados.

Pouco tempo para reorganizar a campanha

O resultado do primeiro turno obrigou a campanha de Lula a acelerar decisões que já vinham sendo discutidas internamente. Agora, o desafio é transformar as mudanças planejadas em uma operação eleitoral mais coordenada em um período curto.

A prioridade é reduzir os ruídos internos, melhorar a comunicação entre a direção nacional e os estados e ampliar a capacidade de mobilização dos partidos aliados.

Com o segundo turno marcado para 25 de outubro, Lula e sua equipe terão pouco mais de duas semanas para reorganizar a campanha e tentar reverter a vantagem obtida por Flávio Bolsonaro na primeira votação.

A disputa entra, assim, em uma nova fase, na qual organização, presença territorial e comunicação digital deverão ter peso decisivo na busca pelos votos que ainda estão em aberto.