Exame de sangue pode antecipar resposta à imunoterapia contra melanoma avançado

Pesquisa do Hospital de Amor identificou marcadores de inflamação associados à eficácia do tratamento antes da primeira dose. Descoberta pode ajudar a personalizar terapias e otimizar recursos do SUS

Pesquisadores do Hospital de Amor identificaram um conjunto de marcadores sanguíneos que pode ajudar a prever quais pacientes com melanoma avançado têm maior probabilidade de responder à imunoterapia. A análise, realizada antes da primeira dose do medicamento, considera sinais de inflamação no organismo e características genéticas do tumor. Os resultados foram publicados na revista científica Clinical and Translational Oncology.

O estudo analisou 136 pacientes com melanoma avançado ou metastático atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) entre 2016 e 2024. A pesquisa foi coordenada por Lidia Rebolho Arantes, do Centro de Pesquisa em Oncologia Molecular do Hospital de Amor, e contou com o trabalho de Bruna Sorroche, primeira autora do artigo.

Embora represente menos de 4% dos tumores malignos de pele, o melanoma é o tipo mais letal dessa categoria devido à sua capacidade de se espalhar para outros órgãos. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), a estimativa é de 9.360 novos casos por ano no Brasil entre 2026 e 2028. Dados do Ministério da Saúde apontam cerca de 2 mil mortes anuais relacionadas à doença.

O diagnóstico precoce é determinante para o prognóstico. De acordo com o National Cancer Institute (NCI), dos Estados Unidos, a sobrevida em cinco anos supera 90% quando o melanoma é identificado inicialmente, mas cai para aproximadamente 35% nos casos metastáticos.

Inflamação pode influenciar a resposta ao tratamento

A imunoterapia revolucionou o tratamento do melanoma avançado ao estimular o próprio sistema imunológico a combater as células cancerígenas. Uma das estratégias utilizadas é a terapia anti-PD-1, que bloqueia mecanismos empregados pelo tumor para escapar da ação das células de defesa.

Apesar dos avanços, entre 40% e 60% dos pacientes com melanoma não respondem ao tratamento. Além disso, o custo elevado e as limitações de acesso dificultam a oferta da terapia em larga escala no sistema público de saúde.

Para Lidia Rebolho Arantes, identificar previamente quem tem maior probabilidade de se beneficiar da imunoterapia pode contribuir para evitar tratamentos ineficazes, reduzir o sofrimento dos pacientes e direcionar melhor os recursos disponíveis.

Atualmente, a avaliação da possível resposta ao tratamento considera, entre outros fatores, características do próprio tumor, como a presença da proteína PD-L1. No entanto, esse indicador não é suficiente para determinar quais pacientes terão benefícios. Pessoas com tumores sem expressão detectável dessa proteína podem responder à terapia, enquanto outras com expressão positiva podem não apresentar resultados satisfatórios.

A pesquisa do Hospital de Amor amplia essa abordagem ao investigar também as condições do sistema imunológico do paciente. Antes do início da imunoterapia, os cientistas analisaram amostras de sangue para medir a quantidade de diferentes células sanguíneas e os níveis de citocinas, proteínas envolvidas na comunicação entre as células do organismo.

Marcadores ajudam a identificar o perfil imunológico

Os resultados indicaram que pacientes com menor resposta à imunoterapia apresentavam um perfil sanguíneo associado a maior inflamação. Entre os sinais identificados estavam níveis elevados de interleucina-6 (IL-6), uma citocina relacionada a processos inflamatórios, e maior quantidade de monócitos, células que participam das respostas imunológicas.

O grupo também observou níveis mais baixos de interleucina-10 (IL-10), outra citocina envolvida na regulação da resposta imune. A combinação desses indicadores pode ajudar a caracterizar um ambiente biológico menos favorável à ação do tratamento.

Outro fator considerado relevante foi a mutação genética BRAF V600, associada, na análise, a maiores taxas de resposta à imunoterapia.

Segundo Bruna Sorroche, os marcadores não indicam apenas a capacidade do tumor de escapar do sistema imunológico, mas também ajudam a avaliar o quanto o organismo está preparado para reagir quando os mecanismos de bloqueio da defesa são interrompidos pelo medicamento.

Próxima etapa é validar os resultados

Os pesquisadores pretendem ampliar a investigação com um número maior de pacientes para confirmar a utilidade dos marcadores identificados. A validação é necessária antes que os resultados possam ser incorporados à prática clínica.

A perspectiva é desenvolver uma ferramenta semelhante a uma “calculadora biológica”, capaz de combinar diferentes indicadores para estimar a probabilidade de resposta à imunoterapia.

Se confirmada em estudos posteriores, a estratégia poderá auxiliar médicos na escolha do tratamento e contribuir para uma utilização mais eficiente dos recursos do SUS. A proposta também poderá favorecer decisões terapêuticas mais individualizadas, considerando tanto as características do tumor quanto as condições do sistema imunológico de cada paciente.

Os pesquisadores ressaltam, porém, que os resultados ainda precisam ser validados em estudos maiores. Portanto, os marcadores identificados representam uma possibilidade promissora de previsão da resposta ao tratamento, mas ainda não constituem uma ferramenta de uso clínico rotineiro.

Referência científica: A baseline systemic inflammatory signature predicts anti-PD-1 response in advanced melanoma, publicado na revista Clinical and Translational Oncology.