Herpes-zóster pode aumentar risco de AVC e infarto nas semanas seguintes à infecção

Estudos indicam maior risco de eventos cardiovasculares nas primeiras semanas após o episódio; vacinação ajuda a prevenir a doença e pode oferecer benefícios indiretos à saúde cardiovascular 

A infecção pelo herpes-zóster tem sido associada ao aumento do risco de eventos cardiovasculares, como acidente vascular cerebral (AVC) e infarto. Uma publicação na revista científica Journal of Stroke identificou aumento de 78% no risco de AVC no primeiro mês após a infecção, de 43% nos primeiros três meses e de 20% ao longo do primeiro ano. Outro estudo detectou que pacientes com a infecção apresentaram 1,35 vezes mais chances de desenvolver infarto nos primeiros 30 dias após o diagnóstico.

O herpes-zóster é causado pela reativação do vírus varicela-zóster (VZV), que permanece latente no organismo após a infecção inicial, conhecida como varicela ou “catapora”. A doença costuma provocar dor e erupções cutâneas, geralmente em um lado do corpo. Antes do aparecimento das lesões, podem surgir sintomas como formigamento, coceira, sensação de queimação e aumento da sensibilidade na região afetada. 

“As lesões costumam apresentar-se na forma de vesículas agrupadas sobre uma base avermelhada, dolorosas, que evoluem para crosta posteriormente. A complicação mais comum do herpes-zóster é a neuralgia pós-herpética, dor que pode se estender por período prolongado causando inclusive prejuízo funcional”, destaca a infectologista pediátrica do Sabin Diagnóstico e Saúde, Sylvia Freire.

Saúde cardiovascular 

A médica afirma que os mecanismos que podem favorecer eventos cardiovasculares ainda estão sendo investigados, mas algumas hipóteses apontam para alterações inflamatórias e vasculares desencadeadas pela infecção. Entre elas estão a disfunção do endotélio, camada que reveste os vasos sanguíneos, a maior ativação das plaquetas e a tendência aumentada à formação de coágulos. 

A inflamação também pode contribuir para a instabilidade de placas de gordura nas artérias. Além disso, pesquisadores investigam a possibilidade de o próprio vírus provocar inflamação diretamente nos vasos sanguíneos, comprometendo a circulação cerebral e favorecendo a ocorrência de um AVC isquêmico. 

“A idade avançada e a imunossupressão são os principais fatores de risco para a doença”, explica. Entre os grupos mais vulneráveis ao herpes zoster estão idosos, pessoas com HIV, pacientes transplantados, pessoas com doenças oncológicas e indivíduos com doenças autoimunes e reumatológicas em tratamento com medicamentos imunossupressores.

Vacinação 

Diante da suspeita de herpes-zóster, é importante buscar avaliação médica precoce para possibilitar o diagnóstico e o início do tratamento antiviral. “A vacinação contra o herpes-zóster ajuda a prevenir a doença e reduzir o risco de complicações já bem estabelecidas, como a neuralgia pós-herpética. Além dessa proteção, estudos recentes sugerem que a vacinação também pode proporcionar benefícios indiretos à saúde cardiovascular”, explica Sylvia Freire.

Um estudo observacional publicado em 2025 na revista científica Clinical Infectious Diseases, realizado nos Estados Unidos com adultos a partir dos 50 anos, identificou que pessoas que receberam duas doses da vacina recombinante contra o herpes-zóster apresentaram menor risco de hospitalização por eventos cardiovasculares, em comparação com aquelas não vacinadas. Os resultados apontaram uma redução relativa de aproximadamente 28% no risco de hospitalização por infarto e de 42,5% por acidente vascular cerebral (AVC), sugerindo possíveis benefícios indiretos da vacinação para a saúde cardiovascular.

Essa hipótese ganhou força com outro estudo, publicado em agosto de 2026 na revista científica Nature Medicine, que analisou adultos com 60 anos ou mais nos Estados Unidos. Utilizando um método conhecido como experimento natural, os pesquisadores compararam pessoas vacinadas antes e depois da substituição da vacina de vírus vivo atenuado pela vacina recombinante. Os resultados mostraram que a vacina recombinante esteve associada a uma redução de 9% na carga de eventos cardiovasculares, ao longo de sete anos. Essa associação diminuiu com o passar do tempo. Embora promissores, os resultados ainda precisam ser confirmados por estudos adicionais para estabelecer se a vacinação exerce um efeito protetor direto sobre a saúde cardiovascular.