Cresce número de produtores que recorrem à Justiça para renegociar dívidas

Movimento acende alerta sobre impactos no crédito rural e pode refletir no preço dos alimentos

O aumento dos pedidos de recuperação judicial (RJ) por produtores rurais no Brasil tem acendido um alerta no mercado de crédito agrícola e pode trazer reflexos diretos para o dia a dia da população, especialmente no preço dos alimentos. Especialistas apontam que, além das dificuldades financeiras no campo, o cenário revela mudanças na forma como o agronegócio consegue dinheiro para produzir.

A recuperação judicial é um processo que permite ao produtor renegociar dívidas e continuar trabalhando. Segundo o presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Goiás (AEAGO), Fernando Barnabé, que também é engenheiro agrônomo e advogado, o mecanismo é importante para evitar que produtores interrompam suas atividades, mas o crescimento desses pedidos preocupa. “É uma forma legítima de reorganizar as finanças, mas o aumento dos casos exige atenção porque pode afetar o sistema de crédito rural”, afirma.

Na prática, quando mais produtores entram em recuperação judicial, bancos e instituições financeiras ficam mais cautelosos na hora de emprestar dinheiro. Isso pode tornar o crédito mais difícil e caro, o que impacta diretamente a produção no campo.

Os números mostram o tamanho dessa engrenagem. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, foram contratados cerca de R$ 316,5 bilhões em crédito rural no país, segundo o Banco Central. Esse dinheiro é essencial para custear o plantio, a colheita, a compra de insumos e a manutenção das propriedades.

Mesmo assim, a necessidade total do setor é muito maior. Estima-se que o agronegócio brasileiro precise de cerca de R$ 1,1 trilhão por safra, enquanto os programas oficiais atendem apenas parte desse valor. Com isso, produtores passam a depender cada vez mais de outras fontes de financiamento, que estão mais exigentes.

Além disso, dados do início da safra 2025/2026 já indicam uma queda de 18,5% na liberação de crédito em comparação ao ano anterior, mostrando que o acesso ao dinheiro já está mais restrito.

Para o engenheiro agrônomo Magno Victor Alves Cardoso, especialista em crédito rural, a situação não depende de um único fator. “O crédito também é afetado por juros, clima, custos de produção e condições de mercado”, explica.

Outro ponto importante é que o modelo de financiamento do agronegócio está mudando. Cada vez mais, o setor busca recursos fora dos bancos, como no mercado de capitais, um ambiente onde empresas conseguem dinheiro com investidores. A expectativa é que, no futuro, boa parte do financiamento venha desse modelo.

Mas esse novo cenário exige mais organização dos produtores. Segundo a especialista em Governança, Riscos e Compliance, Nívea Guimarães de Almeida, hoje não basta apenas produzir bem. “O produtor precisa mostrar que tem controle financeiro, organização e capacidade de pagar suas dívidas. O dinheiro existe, mas vai para quem transmite mais segurança”, afirma.

Na prática, isso significa manter registros organizados, planejar melhor os gastos, acompanhar riscos e ter clareza sobre receitas e despesas. Essa organização ajuda a reduzir riscos, facilita o acesso ao crédito e pode até diminuir os juros.

Para o consumidor, tudo isso pode parecer distante, mas tem impacto direto. Se o produtor tem dificuldade para conseguir crédito, ele pode reduzir investimentos na produção. Isso pode afetar a oferta de alimentos e, consequentemente, influenciar os preços no supermercado.

Apesar dos desafios, o setor ainda conta com mecanismos de apoio, como renegociação de dívidas, seguro rural e políticas públicas. Além disso, o uso de técnicas mais eficientes na produção ajuda a manter a sustentabilidade das atividades.

Para Barnabé, o momento exige atenção. “O agronegócio depende de crédito para funcionar. Manter a confiança e a segurança nesse sistema é essencial para garantir que o produtor continue produzindo”, diz.

O aumento das recuperações judiciais, portanto, mostra não apenas dificuldades financeiras, mas também uma fase de mudança no agronegócio. Em um cenário mais exigente, organização e planejamento passam a ser tão importantes quanto produzir bem, e isso pode fazer diferença no bolso de toda a população.