Entraves no Cadastro Ambiental travam avanço sustentável do agronegócio em Goiás
Baixa análise de registros ambientais deixa produtores em situação de insegurança e reflete um problema que se repete em todo o país
Goiás é um dos estados mais importantes do agronegócio brasileiro, reconhecido pela alta produtividade no campo e pelo uso crescente de tecnologia. Ainda assim, produtores rurais enfrentam um obstáculo que tem dificultado o avanço da sustentabilidade e ampliado riscos jurídicos: a lentidão na análise do Cadastro Ambiental Rural (CAR).
Obrigatório em todo o país, o CAR funciona como uma espécie de “raio-x ambiental” das propriedades rurais. Nele, são registradas áreas produtivas, reservas legais, áreas de preservação permanente e trechos de vegetação nativa. Sem esse cadastro validado, o produtor pode enfrentar dificuldades para acessar crédito, obter licenças ambientais e até comercializar sua produção.
Segundo o engenheiro agrônomo e advogado Fernando Barnabé, presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Goiás (AEAGO), o problema não está apenas no preenchimento do cadastro, mas na falta de análise por parte do poder público. “Hoje, o maior problema é o CAR. A média nacional de cadastros efetivamente analisados gira entre 5% e 8%, o que é extremamente grave”, afirma.
A situação preocupa especialmente estados como Goiás, onde milhares de propriedades seguem em um limbo ambiental, mesmo após a entrega do cadastro. “Essa demora gera insegurança para o produtor e compromete a sustentabilidade do setor”, diz Barnabé.
O entrave em Goiás reflete um cenário nacional. Nas últimas cinco décadas, a agricultura brasileira passou por uma transformação profunda. Dados do IBGE mostram que a produção de grãos saltou de 38 milhões de toneladas, em 1975, para mais de 350 milhões em 2025 — um crescimento superior a 800%. O avanço foi impulsionado por tecnologias desenvolvidas pela Embrapa, universidades e centros de pesquisa, além da incorporação do Cerrado ao processo produtivo.
Esse crescimento, no entanto, aumentou a pressão sobre os recursos naturais. Em um contexto de mudanças climáticas e maior exigência de mercados consumidores, produzir de forma sustentável deixou de ser uma opção e passou a ser uma condição para a permanência no mercado.
Apesar de parecer simples, o preenchimento do CAR exige conhecimento técnico. Erros na delimitação das áreas protegidas ou produtivas podem gerar impactos ambientais e prejuízos financeiros ao produtor.
De acordo com o engenheiro agrônomo Jesse Rodrigo Rosa, analista ambiental da Divisão de Proteção Ambiental do Ibama em Goiás, esse tipo de problema é frequente nas fiscalizações. “É comum encontrarmos propriedades que suprimiram vegetação nativa acreditando estar autorizadas, quando, na verdade, houve desmatamento irregular de áreas protegidas”, afirma.
Segundo ele, mesmo quando existe autorização ambiental, a falta de acompanhamento técnico pode levar a infrações. “O produtor costuma alegar que não conhecia os limites da área ou que houve erro do operador da máquina. Mas esses equívocos resultam em multas, embargo de áreas e apreensão de equipamentos”, diz.
Um caso ocorrido no norte de Goiás ilustra a gravidade da situação. Durante uma fiscalização, foi identificado que a reserva legal declarada no CAR isolava completamente uma grande área de pastagem, o que inviabilizava o uso da propriedade. Sem planejamento adequado, o proprietário acabou danificando parte da área protegida para permitir o acesso do gado, ampliando o problema ambiental.
Além dos danos ao meio ambiente, erros no cadastro e na gestão ambiental podem impedir o acesso a financiamentos, gerar custos elevados com recuperação de áreas degradadas e dificultar a comercialização da produção.
Para Barnabé, a atuação do engenheiro agrônomo é fundamental para evitar esse tipo de situação. “É o profissional capacitado para orientar o produtor desde o cadastro ambiental até o licenciamento, a regularização de passivos e a recuperação de áreas. Isso garante segurança jurídica e sustentabilidade ao negócio rural”, afirma.
Especialistas defendem que acelerar a análise do CAR e ampliar a assistência técnica no campo são passos essenciais para fortalecer o agronegócio goiano e garantir que o setor continue competitivo no Brasil e no exterior.
Agro goiano entra em alerta com possível taxação dos EUA sobre comércio com o Irã
O anúncio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que pretende impor sobretaxas de até 25% a países que mantêm relações comerciais com o Irã acendeu um sinal de alerta no agronegócio goiano. O Irã é o principal destino do milho exportado pelo Brasil, concentrando cerca de 23% das vendas do produto, segundo dados do Comexstat. Goiás, segundo maior exportador do grão no país, pode sentir impactos diretos na balança comercial caso as medidas avancem, em um cenário já marcado por instabilidade geopolítica e tensões no Oriente Médio.
Para o presidente da Associação dos Engenheiros Agrônomos de Goiás (AEAGO), Fernando Barnabé, a sinalização do governo norte-americano amplia o grau de incerteza para o setor produtivo do estado. “Quando uma potência como os Estados Unidos utiliza tarifas como instrumento de pressão política, os reflexos ultrapassam fronteiras e atingem diretamente cadeias produtivas estratégicas, como o agronegócio. Goiás e o Brasil correm o risco de perder competitividade em um mercado que hoje é fundamental para o escoamento do milho”, afirma.
Barnabé avalia que, caso as sobretaxas sejam implementadas, os efeitos podem ir além das exportações e atingir o planejamento da produção rural. “O produtor precisa de previsibilidade para planejar a safra, investir em tecnologia e manter a sustentabilidade econômica da atividade. Medidas desse tipo desorganizam o comércio internacional e reforçam a necessidade de diversificação de mercados, para que o agro goiano não fique excessivamente dependente de poucos parceiros comerciais”, conclui.