bipolaridade ou TDAH? Um tema ou dilema?
Por Dr Matheus neurologista
O Enigma do Diagnóstico: Por que Autismo e TDAH são frequentemente confundidos com Bipolaridade?
Muitos adultos vivem hoje em um ciclo exaustivo de trocas de medicação e diagnósticos que parecem nunca explicar, de fato, quem eles são. É comum encontrar pessoas que passaram décadas tratando um suposto transtorno bipolar, mas que nunca sentiram a melhora esperada. Para o neurologista Dr. Matheus Trilico, referência no atendimento de adultos neurodivergentes, essa confusão ocorre porque o que parece ser uma instabilidade de humor pode ser, na verdade, a manifestação de um cérebro com Autismo e TDAH: uma combinação conhecida como AUTDAH.
A Sobreposição que Confunde Médicos e Pacientes
A dificuldade em diferenciar essas condições reside na semelhança dos sintomas superficiais. A impulsividade, a agitação e as oscilações emocionais são marcas tanto da bipolaridade quanto do TDAH e do autismo. No entanto, o Dr. Matheus Trilico ressalta que a origem desses comportamentos é o que define o caminho do tratamento.
Enquanto a bipolaridade se manifesta em crises ou episódios que vêm e vão, o autismo e o TDAH são traços do neurodesenvolvimento. Isso significa que eles não são “fases”, mas sim a forma como o cérebro sempre funcionou, desde a mais tenra infância.
A coexistência entre o autismo e o TDAH é extremamente frequente. Dados científicos apontam que entre 50% e 70% das pessoas no espectro autista também apresentam critérios para o TDAH. Para o neurologista, essa junção cria um custo funcional muito alto: o indivíduo pode ter o foco profundo do autista, mas ser constantemente interrompido pela desatenção do TDAH, resultando em uma exaustão mental que mimetiza uma depressão ou uma crise de irritabilidade.
O Risco Real de Comorbidades
Embora a confusão diagnóstica seja um problema, o Dr. Trilico alerta que o risco de um adulto neurodivergente desenvolver, de fato, o transtorno bipolar é real e significativamente maior do que na população comum. Estatísticas mundiais mostram que o risco de bipolaridade é cerca de nove vezes maior em autistas. No caso de adultos com TDAH, esse risco é 8,7 vezes superior. Estima-se que quase 17% das pessoas diagnosticadas com transtorno bipolar também convivam com o TDAH sem saber.
Essa conexão não é por acaso. Segundo o neurologista, existe uma sobreposição genética e neurobiológica entre essas condições. Familiares de primeiro grau de quem tem TDAH, por exemplo, possuem uma chance quase duas vezes maior de apresentar bipolaridade. “Essa herança compartilhada faz com que o diagnóstico exija um olhar muito mais profundo do que apenas observar os sintomas do momento; é preciso reconstruir toda a história de vida do paciente”, ressalta Dr. Matheus.
O Fenótipo Clínico e os Desafios do Tratamento
Quando a bipolaridade se soma ao autismo ou ao TDAH, o quadro costuma ser mais complexo. O médico observa que, nesses casos, os sintomas de humor tendem a aparecer muito mais cedo, em média quatro anos antes do que em pessoas que não são neurodivergentes. Além disso, existe um risco aumentado para episódios mistos e tentativas de suicídio, o que torna a precisão do diagnóstico uma questão de segurança vital.
Outro ponto crítico é a tolerabilidade aos remédios. O Dr. Matheus Trilico explica que o cérebro neurodivergente costuma ter uma disfunção sensorial acentuada e reage de forma muito mais sensível a efeitos colaterais de antidepressivos e antipsicóticos. “Por isso, a estratégia terapêutica deve ser personalizada: a prioridade é sempre estabilizar o humor antes de tratar a desatenção ou a hiperatividade, evitando que o uso de estimulantes possa desencadear uma crise de mania”, alerta o neurologista.
O Diagnóstico como Ferramenta de Estratégia
Receber o diagnóstico correto na vida adulta não é sobre ganhar um rótulo, mas sobre ganhar clareza. Muitos pacientes passaram a vida sendo chamados de desorganizados, intensos ou instáveis, carregando um peso de incompreensão que afeta o trabalho e os relacionamentos. Compreender a própria neurobiologia permite que o diagnóstico seja usado como uma ferramenta de estratégia para gerenciar a vida com mais dignidade e menos sobrecarga.
Para o Dr. Trilico, o objetivo final é sempre a funcionalidade e o bem-estar. Entender como as peças da sua história se encaixam é o que permite parar de lutar contra o próprio cérebro e começar a trabalhar a favor dele.
As peças se encaixam quando você entende como seu cérebro e mente funcionam.
SOBRE O NEUROLOGISTA:
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico — CRM 35805/PR | RQE 24818
Médico formado pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA);
Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR);
Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR;
Pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista (TEA).