Desistência de Ratinho favorece vitória de Lula no primeiro turno
Por: Leonardo Attuch – Leonardo Attuch é jornalista e editor-responsável pelo 247.
Eleição caminha para a disputa de um segundo turno já no primeiro, entre o presidente e o herdeiro do bolsonarismo
A desistência do governador do Paraná, Ratinho Jr., da disputa presidencial redesenha o tabuleiro político de 2026 e fortalece de maneira decisiva o cenário de polarização que já se desenhava. Ao abrir mão de sua candidatura, justamente ele que era considerado o nome mais competitivo da chamada “terceira via”, o sistema político brasileiro parece admitir, mais uma vez, que a tentativa de escapar do confronto direto entre dois projetos antagônicos – o do Brasil soberano, de Lula, e o do Brasil alinhado ao trumpismo, de Flávio Bolsonaro – tem limites muito claros.
Ratinho representava, para setores relevantes do empresariado e da elite política, a esperança de um caminho alternativo entre o campo liderado pelo presidente Lula e o bolsonarismo reorganizado. Sua saída é um sintoma de que o chamado “centro político brasileiro” segue incapaz de construir uma narrativa, um projeto e uma liderança com densidade nacional. Até porque quem realmente representa o centro, na dinâmica entre capital e trabalho, é o presidente Lula.
A decisão também foi pragmática. Ratinho recuou para não correr o risco de perder o controle político de seu próprio estado. Com a filiação de Sergio Moro ao PL, o Paraná se transformou em um campo de disputa direta entre forças conservadoras. Permanecer na corrida presidencial poderia abrir espaço para uma derrota local com consequências graves para seu grupo político.
A nota divulgada por Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, tenta manter viva a chama da alternativa. O partido reafirma sua confiança no governador e insiste que apresentará uma candidatura própria, definida como a “melhor via”, contrapondo-se à polarização que, segundo o texto, não contribui para o país. Kassab elogia a gestão de Ratinho, destacando avanços na educação, segurança pública e infraestrutura, e menciona os nomes de Eduardo Leite e Ronaldo Caiado, governadores do Rio Grande do Sul e de Goiás, como possíveis candidatos.
No entanto, há um descompasso evidente entre o discurso e a realidade. Eduardo Leite e Ronaldo Caiado — assim como Romeu Zema — são governadores relativamente bem avaliados em seus estados, mas carecem de densidade política e capilaridade nacional para romper a lógica da polarização que domina o Brasil desde 2018. Mesmo com estruturas partidárias e apoio de setores econômicos, dificilmente conseguirão ultrapassar a barreira que separa candidaturas competitivas de candidaturas meramente simbólicas.
A verdade é que a eleição de 2026 caminha para ser, na prática, um segundo turno antecipado. De um lado, o presidente Lula, com sua base social consolidada e um legado político que dialoga com amplas parcelas da população – inclusive com o centro. De outro, o herdeiro do bolsonarismo carregará consigo o capital político, mas também a rejeição da extrema-direita.
Nesse contexto, a chamada “terceira via” se revela, mais uma vez, uma aspiração das elites econômicas e de parte da mídia — mas não uma demanda orgânica da sociedade. Falta-lhe enraizamento popular, identidade clara e, sobretudo, capacidade de mobilização. Não basta ser “menos radical” ou “mais equilibrado” no discurso: é preciso oferecer um projeto que dialogue com as angústias reais do eleitorado brasileiro.
O adiamento desse projeto parece inevitável. O projeto de uma alternativa fora do lulismo e do bolsonarismo não desaparece, mas é empurrado para 2030. Até lá, o Brasil seguirá vivendo o confronto entre dois modelos de país — um Brasil soberano, representado por Lula, e um Brasil alinhado à extrema-direita internacional, que, goste-se ou não, tem se mostrado o eixo estruturante da política nacional.
Com a saída de Ratinho Jr., esse cenário se cristaliza. E, ao que tudo indica, favorece diretamente o presidente Lula, que entra na disputa com ainda mais chances de liquidar a fatura já no primeiro turno. Na prática, Moro, ao viabilizar sua candidatura no Paraná, fez um favor ao presidente Lula.