Especialistas alertam para a importância de preservar a massa muscular durante o uso de canetas emagrecedoras

Estudos mostram que a maior parte do peso eliminado com medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro corresponde à gordura corporal, mas parte da perda também envolve massa magra. Médicos defendem acompanhamento para garantir um emagrecimento saudável e sustentável.

 

As canetas emagrecedoras mudaram o tratamento da obesidade ao permitir uma perda de peso mais expressiva e consistente do que a obtida anteriormente apenas com mudanças no estilo de vida. Ao mesmo tempo, o avanço dessas terapias trouxe um novo foco para especialistas: não basta emagrecer, é preciso preservar a qualidade da composição corporal.

Pesquisas que acompanharam pacientes tratados com medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida mostram que a maior parte do peso perdido corresponde à gordura corporal. As análises de composição corporal também identificaram redução da massa magra, um achado esperado em processos de emagrecimento significativo. Embora a perda de massa magra não seja exclusiva dessas medicações, especialistas afirmam que ela deve ser monitorada para evitar impactos sobre a força, o metabolismo e a saúde a longo prazo.

Segundo o cardiologista Dr. Guilherme Borges, o principal indicador de sucesso do tratamento não é apenas o número mostrado na balança. “Existe uma diferença importante entre perder peso e emagrecer com qualidade. O objetivo é eliminar gordura preservando ao máximo a massa muscular, porque ela desempenha funções essenciais para o metabolismo e para a saúde.”

O que dizem os estudos

Programas de pesquisa que avaliaram a semaglutida (STEP) e a tirzepatida (SURMOUNT) demonstraram que a perda de peso ocorre predominantemente às custas da gordura corporal. Em análises de composição corporal, aproximadamente três quartos da redução de peso corresponderam à gordura, enquanto cerca de um quarto correspondeu à massa magra.

Especialistas ressaltam, porém, que massa magra não é sinônimo de músculo. Ela inclui músculos, água corporal, órgãos e outros tecidos livres de gordura. Ainda assim, como o tecido muscular representa uma parcela importante dessa composição, seu acompanhamento é considerado fundamental durante o tratamento.

Por que preservar a musculatura é tão importante?

Nas últimas décadas, a ciência demonstrou que o músculo vai muito além da força física. O tecido muscular atua como um órgão metabolicamente ativo, produzindo substâncias conhecidas como miocinas, entre elas a irisina, relacionada ao controle da glicose, à saúde óssea e à proteção cardiovascular.

Além disso, a musculatura participa diretamente do metabolismo basal, responsável pela maior parte do gasto energético diário. “Preservar a massa muscular significa preservar autonomia, capacidade funcional e saúde metabólica. Quanto melhor a composição corporal ao final do tratamento, maiores são as chances de manter os resultados no longo prazo”, afirma Guilherme Borges.

O risco está no emagrecimento acelerado

A perda de massa muscular pode ocorrer em diferentes estratégias de emagrecimento, incluindo dietas muito restritivas, cirurgia bariátrica e tratamento medicamentoso. O risco aumenta quando a redução de peso acontece de forma muito rápida ou sem medidas para preservar a musculatura.

Entre os principais fatores associados à perda de massa muscular estão:

  • restrição calórica intensa;

  • ingestão insuficiente de proteínas;

  • ausência de treinamento de força;

  • emagrecimento acelerado;

  • idade avançada ou maior risco de sarcopenia.

Segundo Guilherme Borges, pacientes que apresentam dificuldade para atingir a ingestão adequada de proteínas ou deixam de praticar exercícios resistidos merecem acompanhamento ainda mais cuidadoso.

O especialista recomenda que o tratamento da obesidade seja conduzido de forma integrada, combinando medicação com mudanças consistentes no estilo de vida.

As principais medidas incluem:

  • realizar musculação ou outro treinamento de força pelo menos duas a três vezes por semana;

  • manter ingestão adequada de proteínas, conforme orientação médica e nutricional;

  • evitar emagrecimento excessivamente rápido sempre que possível;

  • monitorar regularmente a composição corporal por meio de bioimpedância ou outros métodos de avaliação;

  • acompanhar a força muscular com testes específicos durante o tratamento.

O acompanhamento conjunto entre médico, nutricionista e educador físico também é apontado como essencial para ajustar a alimentação, os exercícios e a velocidade da perda de peso.

Na prática clínica, outro aspecto chama a atenção dos especialistas: após a interrupção das medicações, a gordura corporal pode retornar com mais facilidade do que a massa muscular perdida, comprometendo a composição corporal e favorecendo o ganho de peso.

“As medicações representam um dos maiores avanços no tratamento da obesidade. O desafio é garantir que esse emagrecimento aconteça com qualidade. Quando preservamos a musculatura e reduzimos principalmente a gordura corporal, aumentamos as chances de manter os benefícios metabólicos, cardiovasculares e funcionais conquistados durante o tratamento”, conclui o cardiologista.

Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma doença crônica, a obesidade exige acompanhamento contínuo e individualizado. Nesse contexto, especialistas reforçam que medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro são ferramentas eficazes quando bem indicados, mas alcançam seus melhores resultados quando associados à alimentação adequada, atividade física e monitoramento da composição corporal.